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terça-feira, 19 de agosto de 2014

O preço de uma análise

Se existe um tema que eu odeio pensar, que eu odeio falar, esse tema é o suicídio. Eu sempre fico chocada com notícias de suicídio e me misturo ao coro de vozes e expressões incrédulas que perguntam “Por quê?”. Penso que é numerosa a quantidade de pessoas que já pensaram em morrer, afinal, o sofrimento é algo que faz parte da vida, como já disse Freud em seu texto sobre o mal-estar na civilização. Mas sempre me choca o ato daqueles que fazem do sofrimento um poço de areia movediça negra, que se atiram na garganta escancarada da morte.
            Semana passada tivemos a notícia do suicídio de Robin Willians e as pessoas perguntam, “como uma pessoa tão rica e famosa pode cometer um ato desses?”. E aí a gente percebe que o sofrimento não tem a ver com riqueza e poder versus pobreza. Ou seja, os motivos de sofrer não estão exclusivamente relacionados com quantos objetos uma pessoa pode comprar. Eu não sei se sou muito iludida, mas acho que tem tanta coisa bonita pra se ver antes de morrer... Às vezes eu sofro por pensar que não conseguirei fazer tudo que gostaria, não lerei todos os livros do mundo e não farei o suficiente antes que tudo termine. Confesso que, mesmo sabendo teorias e etc, é difícil imaginar a grandeza da devastação pela qual uma pessoa é tomada antes de escolher morrer. Que tipo de pacto se faz com a morte? Será uma pulsão que corta caminho?
            Às vezes penso que algumas ilusões são necessárias. É preciso acreditar em alguma coisa, qualquer coisa. Algumas pessoas acreditam em céu e inferno, em vidas passadas e futuras, outras acreditam em extraterrestres. Quem comete suicídio, penso eu que acredita na morte como promessa de algo melhor, nem que seja o fim do sofrimento. Já os motivos do sofrimento é o que nos deixam embasbacados e sem chão. Nunca saberemos a intensidade da dor do outro, mesmo que ele tente nos dizer. Nós psicanalistas também acreditamos, na força das palavras, tanto para erguer como para derrubar alguém.
            Particularmente, não fico pensando no que havia antes e no que haverá depois, porque não acho que haja antes e depois. Então um dia, numa conversa “filosófica”, uma pessoa me disse que deve ser muito triste não acreditar em nada além. E eu disse que não me sinto triste. Depois fiquei pensando se deveria me sentir triste por não acreditar e concluí que não, pelo contrário. Não acreditar em nada além, é o que me salva porque me faz saber que tenho que acertar minhas contas comigo mesma por aqui, durante o tempo que me cabe viver. Da formação cristã que tive e deixei em alguma curva do caminho, concordo com uma coisa que sempre ouvi, como ritornelo: “A salvação é individual”. Mas pensem na frase fora do sentido cristão e fora do discurso individualista/capitalista que ela engendra. Se pensarmos na psicanálise, Freud diz que “nesse Reino, cada um se salva à sua maneira”. Como psicanalista acredito sim em salvação, mas não naquela que depende do outro que me julga, me perdoa e me salva na hora do juízo final. Acredito na salvação que um desembuchamento palavrético pode nos proporcionar. Mas um salvamento assim não abre mão da ética de apostar na vida, de desejar viver mais do que morrer.
            Aí alguém pode dizer: “Isloany, como você é alienada! Não são todas as pessoas que têm acesso (R$) a um tratamento de desembuchar palavras.” E é aí que eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que sou tiete de Lacan, que muitas vezes atendeu sem receber, pelo compromisso com seu desejo de analista. Também não acho que a psicanálise é uma espécie de super poder mutante que salvará o mundo de suas mazelas, há outras saídas, mas acho que quem apostar mais na vida do que na morte, quem apostar nas palavras, pode usar a psicanálise como um recurso para entender sua dor. Ainda que ouça todos os dias pensamentos de morte, de ideação suicida, a psicanálise não faz pacto com a morte. Nosso pacto é de vida. Se alguém quer viver, mesmo que queira morrer, haverá lugar aqui nessa dita peste. E o preço (R$) real de uma análise é este: um pacto com a vida. Penso que estar em dívida com a vida é sempre melhor.




  Isloany Machado, 16 de agosto de 2014.

10 comentários:

  1. Promessa é dívida! E o desejo convive bem com promessas ... Belo texto!

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  2. Adorei Islo! bjo

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  3. Respostas
    1. Fico muito feliz que tenha amado Carlos!

      Abraços

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  4. Parabéns. Lindo texto.

    Adorei o "desembuchamento palavredico".
    Compromisso com a vida sempre!!

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  5. Parabéns. Lindo texto.

    Adorei o "desembuchamento palavredico".
    Compromisso com a vida sempre!!

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