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segunda-feira, 14 de julho de 2014

Tudo o que não conversamos

Não tenho medo de falar dos meus medos. E tenho muitos medos. Tenho medo de cair em público, medo de perder alguém que eu amo, medo de morrer, medo de rato. Até outro dia tinha medo de dirigir. Na minha segunda aula de direção, caí num choro inconsolável, que deixou sem graça meu instrutor. Mesmo com medo, consegui passar na prova, mas somente um ano depois é que eu consegui dirigir sozinha. Com a boca seca, as pernas bambas, e mal conseguindo respirar, fui de casa até o trabalho. Foi assim no primeiro, no segundo, no terceiro dia. Depois a boca não secou mais, nem as pernas bambearam. Agora já consigo dirigir e respirar, dirigir e ouvir e cantar músicas, dirigir e conversar, dirigir e dar carona. Ainda não sei fazer baliza, mas paciência.
            Mas começar a dirigir sozinha me trouxe algumas responsabilidades que antes eu não tinha. Como, por exemplo, levar o carro pra revisão. “Vamos trocar todos os fluidos, os filtros e todas as velas”. Não entendi nada, mas imaginei logo um grande bolo de aniversário cheio de velas para serem trocadas. Acho que pareci meio doida por pensar nisso, mas é que ando às voltas com o meu aniversário de trinta anos que se aproxima. Será que se trocassem meus filtros e minhas velas eu ficaria mais nova?
            Bem, deixando o carro pra revisão, precisei de carona da concessionária para voltar ao trabalho. Entramos no carro eu e uma outra moça, uma bela moça de olhos claros. Senti uma simpatia imediata por ela e fiquei com vontade de puxar assunto: Deixar o carro assim causa certo transtorno né? Há que se fazer toda uma reorganização no dia. (Mentira, até ontem eu andava de ônibus e nunca morri). A bela moça contentou-se em esboçar um breve sorriso e não disse nada.
            Inquieta, ainda queria conversar, porque achei que aquele tempo que estávamos juntos, eu, ela e o motorista, era precioso demais para ficarmos em silêncio. Comentei: que tempo esquisito né? De manhã está frio e à tarde esquenta muito. Tem que ficar carregando o casaco. Nada. Nem dela e nem do motorista. Mil coisas passavam na minha cabeça. Pensei em perguntar se estavam preparados para o jogo de amanhã contra a Holanda. Mas calei a pergunta. Fiquei com medo de que não respondessem e isso seria, francamente, constrangedor.
            Não sei por que o silêncio me incomodou tanto.  Não foi tanto tempo assim, o trajeto era relativamente curto. O fato é que eu senti um estranho medo, talvez inédito. Medo de estar sozinha, ainda que rodeada de gente. Medo de que nem mesmo uma conversa banal seja possível entre duas pessoas que, coincidentemente, no mesmo dia resolveram deixar o carro na revisão. Pra preencher o vazio do que não conversamos, do que podíamos ter conversado, imaginei:
- Deixar o carro assim causa certo transtorno né? Há que se fazer toda uma reorganização no dia.
- Sim, nossa, eu tive que parar meu trabalho no meio para poder estar aqui. Tenho muita pressa. Diria ela, após o esboço de um sorriso.
- E você trabalha com o quê?
- Sou enfermeira chefe num grande hospital.
- Que legal!
E antes que ela me perguntasse, eu diria:
- Eu sou psicóloga! Também tive que desmarcar uns pacientes para estar aqui.
- Psicóloga? Que legal, minha prima faz psicologia. Ela adora.
- Ah é? E onde ela faz?
- Na USP.
- Poxa, que bacana!
...
- Que tempo esquisito né? De manhã está frio e à tarde esquenta muito. Tem que ficar carregando o casaco.
 - Nem me fale. Semana passada peguei um resfriado por causa disso! Mas agora já estou bem melhor.
- Está preparada para o jogo de amanhã contra a Holanda?
- Nossa! O que foi aquele jogo contra a Alemanha? Será que estava mesmo comprado?
- Ah, não sei não! Há muitos boatos. Bem, desço aqui. Legal te conhecer. Bom trabalho.
- Bom trabalho pra você também.
            A conversa acabaria aí e, provavelmente, nunca mais nos veríamos, mas não teríamos perdido a oportunidade de saber uma da outra. Antes que a viagem chegasse ao final, senti uma leve gosma começar a crescer entre meus dedos. E logo meu corpo todo estava recoberto por uma camada de líquido viscoso. Em instantes, uma fina casca se formou ao meu redor e nem mais meus olhos estavam isentos da cegueira imposta pela carapaça. Voltei à razão e descobri que tenho medo de virar um casulo. Às vezes eu tenho medo de esquecer como é ser gente.


    

Isloany Machado, 11 de julho de 2014.

Um comentário:

  1. Adorei! Me identifiquei com isso "Às vezes eu tenho medo de esquecer como é ser gente." É, esse um grande medo! Medo que o silêncio traz, e ao mesmo tempo, fato que o silêncio afasta, já que nos implica como sujeitos! É, como é bonito ser gente!
    Obrigada, Isloany!

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