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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Perdemos a Copa. Chamem a Psicóloga!

Nem bem se passaram dois dias desde nossa derrota na Copa e eu já não estava mais aguentando ouvir falar da maldita goleada. As cenas dos sete gols se repetem e repetem e repetem na televisão, nos telejornais, nos programas de esporte, nos programas de comadres, etc, etc. Confesso que só consegui ver o jogo até o quinto gol da Alemanha. Depois saí da frente da televisão. Parei não porque fiquei com raiva ou por torcer só enquanto se ganha, mas é que estava difícil de acreditar no que os olhos estavam vendo. Foi difícil ver a reação dos jogadores a cada gol tomado naquele pequeno espaço de seis minutos. A palavra era: inacreditável.
Foram os seis piores minutos da história do nosso futebol. Obviamente estou repetindo um discurso que ouvi, já que nem torço pra time nenhum, mas é que em tempos de Copa, ainda mais aqui, os olhos do mundo todo estão sobre nós. Parece meio paranoico isso né? Mas sabemos o quanto esse esporte ocupa um lugar privilegiado mundialmente. Os motivos? Não sei. Prefiro continuar sem saber. Às vezes a ignorância é uma dádiva, como bem diz meu marido. Depois dos famigerados seis minutos eu só queria ter o poder de mandar parar aquele jogo. Mas esse jogo, tendo sido comprado ou vendido, sei lá, não gostei de ver o que chamaram de “pane”, “apagão”.
Ora meus caros colegas, e falo dos colegas psicanalistas, que diabo á um apagão? O que foram aqueles jogadores sem conseguirem se mover? Claro que não sabemos os motivos, se é que os há, por trás daquela seleção irreconhecível. Ai, o deus que me perdoe, mas não sei não. E eis que eu já não aguentava mais a tortura das cenas que se repetiam e repetiam na tevê, até que lembrei que é preciso recordar, repetir e elaborar. Quem sabe, como diz Manoel de Barros, “repetir, repetir, até ficar diferente.” Ainda que não haja como mudar o que aconteceu.
Chamaram os psicólogos para dizerem como as pessoas devem lidar com isso, com essa derrota. Aliás, nunca se falou tanto em “desequilíbrio emocional”. “É preciso saber que um dia se ganha e no outro se perde”, “É preciso aprender a lidar com a perda”. E eu pergunto: ora, quantas vezes nós já perdemos? Não foram muitas? A questão não é essa! A questão foi a maneira como perdemos, ainda que ninguém vá morrer por sentir vergonha e humilhação (além de um cardíaco aqui e outro acolá). Ah, mas se alguém viesse me perguntar o que fazer para lidar com isso eu certamente diria: “Meu caro, não há o que fazer. Não foi só uma derrota, foi a derrota histórica, porque foi de goleada, porque foi meio que sem luta, porque tudo aconteceu em seis minutos. Infelizmente não há o que fazer além de catar os cacos e seguir adiante. Cada um a seu modo, cada um em seu tempo. Quem sabe tentar rir um pouco? Talvez daqui a um tempo a gente consiga rir.” Mas e as crianças? Como vão superar esse trauma? Digo que as crianças estão mais próximas dos mais diversos traumas do que nós, que já temos um velho recalque velho atuando sobre. Elas vão sobreviver.
Os argentinos já estão rindo. Uma das manchetes de jornal do dia seguinte dizia: “dice me lo que siete”, fazendo equívoco entre siente (sente) e siete (sete). Sacanas! Não se bate em cachorro morto, é cruel. Também não se expressa pena, é mais cruel ainda!
Não há mensagem de otimismo que se possa escrever para o garoto popular da escola que de repente leva uma surra de desancar. Não vou dizer que é importante saber perder, que talvez tenhamos vários ganhos com isso e blá blá blá. Só posso dizer que também nunca me esquecerei da Copa de 94, quando eu tinha quase dez anos e vi o Roberto Baggio da Itália chutar pra fora o pênalti, nos dando o Tetra. Nunca vou esquecer que na Copa de 2002, quando veio o penta, minha vida estava prestes a mudar completamente, com a mudança pra Campo Grande, o curso de Psicologia. E quando a vergonha tiver passado um pouco, poderei contar pros meus filhos que, quando eu estava com quase trinta, vi a maior derrota da seleção brasileira, que viramos piada no mundo inteiro (principalmente na Argentina), mas e daí? Vergonha é um afeto que não mata, só faz abaixar um pouco a cabeça.    



Isloany Machado, 10 de julho de 2014.

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