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quarta-feira, 30 de julho de 2014

Diálogos do cotidiano - Pecado

Além do olho torto, eu confesso que sempre tive o ouvido torto também. Me explico. Desde criança sempre me ensinaram sobre pecado, mas tinha alguma coisa que me incomodava. Depois que cresci, parei de pensar nisso. Como se o peso do pecado tivesse se descolado de mim. Quando isso acontece, somente assim, é que se pode rir dos pecados. Num dia qualquer, em um diálogo qualquer, meu marido diz:
- Vou parar de tomar cerveja e só vou tomar vinho. A cerveja me faz mal, o vinho faz bem.
Ao que eu respondi:
- Eu não vou mais tomar nada alcoólico. É pecado.
- Tomar vinho não é pecado! Sabia que já se tomava vinho antes de Cristo?
Perguntei algo que me fazia questão na infância e na adolescência:
- O que é pecado?
- Depende.
- Vamos fazer uma lista de pecados?
- Uma lista de pecados nossos ou de pecados pecados?
- Nossa lista de pecados. Matar é pecado?
-É.
- Mas e matar a fome é pecado?
- Claro que não. Matar a fome é necessidade.
- Mas lá diz “Não matarás”! Não disse o quê. Então não se poderia matar nada, nem a fome, nem a saudade.
- Tem razão. Pra mim, poluir é pecado.
- Depende. Poluir o quê? Os rios?
- Sim, pra mim isso é pecado. Poluir o meio ambiente.
- E poluir a mente é pecado?
- Depende. Se você poluir a mente de alguém com boas ideias, não é pecado.
- Roubar é pecado?
- Se você roubar o coração de alguém, não é não.
- Claro que é! Você já ouviu casos de pessoas que namoram alguém só pra roubar o rim? Roubar o coração é pior, muito pior que isso, porque os rins são dois e o coração é um só. Se você roubar o coração de alguém, a pessoa morre. E matar é pecado. A não ser que seja matar a fome ou a saudade, que daí é necessidade.
- Bem, também acho que desperdício é pecado.
- Acho que depende. Desperdício de comida é pecado. Mas e desperdício de tempo é?
- É, com certeza é!
Então descobri que pecado é relativo. Depende de quem peca, do que se peca, e das palavras. Ai as palavras! Sempre as palavras atrapalhando meu discernimento. Como eu poderia obedecer aos mandamentos? “Não matarás! Não roubarás! Não poluirás! Não desperdiçarás!”. A vida não teria graça se não pudesse matar a saudade. Se não pudesse roubar beijos. Se não pudesse poluir a mente. Se não pudesse desperdiçar tempo ou dinheiro.
            Depois que cheguei a esta conclusão, entendi que as palavras não me deixariam acreditar totalmente em pecados, em céu e inferno. Pelo que fui salva.




Isloany Machado, 29 de julho de 2014.

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