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terça-feira, 8 de julho de 2014

A freira de costas

            Há meses ando remoendo uma cena, sem coragem de escrever. Eu andava à pé e vi uma freira de costas. Seu hábito era cinza e, como de hábito, sua cabeça estava coberta. Teria passado despercebida se não fosse aquele gesto. Não sou católica, então, meu contato com freiras nunca foi maior do que vê-las andando por aí, sempre em duplas. Ficava curiosa com o modo de vida delas. Em minha santa ignorância sei que há vários tipos delas, de acordo com a opção, o voto de pobreza. Sei também do voto de castidade.
            E lá estava a freira de costas, atravessando o meu caminho discretamente, se não fosse aquele gesto. Antes disso, para mim uma freira era cabeça e hábito. Nada mais, nada menos. Nada por fora e nada por dentro. Foi aí que ela fez o gesto. A freira, repentinamente, com a mão por cima do hábito, desatolou a calcinha que devia estar enrolada em suas nádegas. Imediatamente virei do avesso. Aquele gesto simplesmente havia desvendado meus olhos. O fato estava ali diante de mim o tempo todo: há corpo sob o hábito. Há um sexo sob o hábito, há uma mulher.
            Mas afinal, quem era aquela mulher? Teria nome próprio? Onde moraria sua família? Teria se tornado freira por uma promessa familiar talvez? Fiquei pensando nos milhões de motivos que alguém pode ter para escolher a renúncia carnal. Mas eu nunca havia imaginado que sob o hábito havia anáguas, saiotes e calcinhas. De que cor? De que modelo? Algodão? Lycra? Renda? Nunca saberei. Mas há um corpo, não se pode negar. O que se faz com o sexo quando se escolhe o hábito?
            Eu, em minha santa histeria, vivo às voltas com a pergunta: O que é ser mulher? Mudo o batom (e tenho muitos, mas não o suficiente), troco a cor das unhas, o corte do cabelo, e ainda não sei. Faço um olhar 43, pinto os olhos como de gatinha, mas ainda não sei. Olho os pneus, uma coisa caída aqui, outra ali, reclamo, esperneio. Noutro dia está tudo em cima. Engordo e emagreço em pensamentos. Calcinhas de algodão, de renda, de lycra, e nada me define como mulher. De quantos sapatos eu preciso? Quantos pés eu tenho? Nada disso me responde o que é ser mulher. Queria um nome, uma palavra, um hábito? Será que minha mãe é quem sabe o que é isso? O que há sob o hábito? Todo dia ela faz tudo sempre igual?
            Com quase trinta, em contagem regressiva, não sei ainda o que é ser mulher. Depois dos trinta saberei? Queria encontrar a freira de costas e perguntar a ela, que usa calcinhas e anáguas e saiotes. Mas ela estava de costas e não vi seu rosto, não a reconheceria entre tantas outras freiras.
            Não pude escrever antes, com medo de ser ofensiva. Mas não pude mais evitar, já que estou às voltas com o tema Amor e Sexos.   

Fonte da imagem: http://www.truca.pt/fofo_antigas_10/fofo_06_dezembro_10.html



Isloany Machado, 08 de julho de 2014.

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