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domingo, 29 de junho de 2014

Quem inventou o sintoma?

Toda família é meio louca. Ponto pacífico. Não há porque discutir. A minha família é meio louca e eu já falei dela algumas vezes, por escrito. Quando nós falamos de nossa própria família, é engraçado. Quando os outros falam, é ofensivo. Eu poderia odiar algumas coisas em meus pais, por exemplo, mas odiaria mais ainda aquele que se metesse a falar mal deles. Outro ponto pacífico.
De dez anos pra cá, além de fazer parte da minha família de sangue, adotei e fui adotada por outra família: a de meu marido. Sendo assim, adotada, me considero da família. De modo que não gosto das loucuras, mas ninguém poderia falar sobre isso a não ser nós mesmos, os Lauretis.
Em dez anos muita coisa aconteceu. O sobrinho mais velho, por exemplo, acabou de completar dez anos. Seu primeiro aniversário teve o tema de “Procurando Nemo”. O décimo, dos Beatles. Ele nasceu prematuro, e agora já pode escolher e brigar com sua mãe pelo tênis que quer usar, como um “pré-adolescente”, significante adotado por ele. E eu lhe disse que ser pré-adolescente é uma questão de atitude e não de quantos aniversários comemorou, já que todos riram quando ele quis ser pré-adolescente aos dez. Em dez anos, eu vi sua mãe ensiná-lo a usar o banheiro, como um homem. Eu vi quando seu tio fez com ele a primeira pipa. Eu o vi com saudades imensas do pai. Ouvi também sobre sua desatenção na escola, por ser meio avoado.
Falávamos disso, eu e meu marido, quando eu comentei: mas será que isso de ser meio avoado não é o sintoma da família? Lembrando que sendo adotiva, posso opinar em algumas coisas. “Será?” Perguntou ele. Acho que pode ser, respondi. “Queria matar quem inventou o sintoma”. Eu tentei consolá-lo dizendo que há famílias que têm sintomas muitíssimo graves, até mesmo mais graves que a dele, ou nossa. “E tem um remédio que a família inteira pode tomar?”. Eu não tinha resposta pra essa pergunta. Mas ri muito e não pude deixar de pensar: quem será que inventou o sintoma?
Parece que há um traço familiar que nos faz sentir pertencentes a esta comunidade restrita, e é a isso que serve o sintoma familiar. Na minha família de sangue, há o drama. Somos dramáticos. Na família adotiva, há um traço de avoamento, que eu, particularmente, acho engraçado. Eles nem tanto. Vou dar um exemplo.
No feriado de Corpus Christi, fomos visitar uma parte da família que mora longe. Avisamos do horário de chegada, mas chegamos antes do previsto, de madrugada. Meu telefone estava sem bateria, o dele, sem crédito. Que tal pegarmos um táxi? Você sabe como chegar à casa de sua irmã? “Sim, sei”. No táxi: “O senhor pode pegar aquela avenida...é...qual é mesmo o nome daquela avenida?”. Na tal avenida: “A casa dela fica perto do exército, vire nessa rua...não, na outra”. O taxista se oferece pra ligar. O telefone estava errado: “Alô, vocês estão esperando uns parentes que estão pra chegar?”...tutututututu...Agora sim o telefone certo. Tuuuuuuu Tuuuuuuuuuuuuuu Tuuuuuuuuuuuuuuu. Chama até cair. Sugiro que ele nos deixe em frente ao exército, já que a casa é próxima e ainda é madrugada, fria.
Descemos. “Vamos? O que está esperando?” diz ele. Vamos aonde no escuro? “Procurar a casa dela, oras!”. Descemos a rua rolando as malas e fazendo muito barulho, era madrugada, fria. Andamos algumas quadras, rodamos em frente algumas casas por mais de uma vez. “Já sei! Vou ligar pra outra parte da família que saberá dizer o nome da rua dela!”. Ainda era madrugada, fria. “Tuuuuuuuuuuu Tuuuuuuuuuuuuu Tuuuuuuuuuuuu Tuuuuuuuuuuuuu...Alô?...o nome da rua?...Não lembro...”. Achamos a casa, finalmente. “Por que não ligaram?”. Nós ligamos! Encontramos o telefone soterrado nas almofadas da sala. Poderia ser a história de um filme.
Mas isso nos leva de volta à questão: quem inventou o sintoma? E talvez isso não importe. Menos ainda importa encontrar um remédio que possa ser tomado pela família toda. Nós amamos o sintoma, porque amamos nossa família e temos paixão pela ignorância. Penso que às vezes é melhor não saber, pois, como diz meu marido, “a ignorância é uma dádiva”. Pela ignorância, seguimos amando nosso sintoma, nossos traços familiares, nossa família. E mesmo que já saibamos o que é tudo isso, mesmo que por vezes queiramos matar o sintoma ou quem o tenha inventado, ainda assim amamos nossa família, ainda que por vezes queiramos matá-la. Matar o sintoma familiar é suicida. Eu prefiro continuar viva.

      

Isloany Machado, 29 de junho de 2014.

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