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terça-feira, 27 de maio de 2014

Um lacaniano roxo

Outro dia ouvi alguém dizer “Fulano de Tal” é um lacaniano roxo. Fiquei a pensar no que ouvi e, a princípio achei que isso era bom, isso de ser um lacaniano roxo. Imaginei que esta tal pessoa soubesse muito de teoria. Depois comecei a pensar em todas as referências que tenho para definir o que quer dizer quando alguém é alguma coisa “roxo”. Dizer que se é roxo por alguma coisa significa que se é extremamente apaixonado por algo. Mas tem que ser tão apaixonado, mas tão apaixonado, que não caiba mais nada na vida daquela pessoa. Alguém pode ser roxo no amor por seu time, por exemplo. Em decorrência disso, brigar de soco com os outros roxos de outras torcidas.
            Também alguém pode ser roxo por uma religião, tão roxo, mas tão roxo, que saia por aí dizendo que o outro vai direto para o inferno, sem direito a uma passagem pelo purgatório. Um outro mais cético, poderá ser roxo por ciência e criar assim sua própria religião. Muitas intolerâncias tiveram início a partir de discursos científicos, roxos. Desconsiderar a subjetividade e tentar relegá-la ao esquecimento, só pode ter sido obra de algum cientista roxo que atribui todas as variabilidades humanas a hormônios e suas alterações, ou às combinações genéticas.
            Ser roxo é ser contrário aos questionamentos. Se ser roxo é ser extremamente apaixonado, não nos esqueçamos que a palavra paixão tem origem em pathos, a mesma palavra que dá origem a “patologia”. A paixão não abre espaço para questionamentos, é feita de certezas. As certezas são inimigas da busca pelo saber, das dúvidas. Então pensei que ser lacaniano roxo não deve ser nada legal. Até porque a psicanálise não é religião, nem dogma, e não é inquestionável. Freud e Lacan sempre se esforçaram para manter suas teorias em constante reformulação. Mantiveram-se abertos ao diálogo com a literatura, a matemática, a física, etc.
            Viajando um pouco mais pensando no roxo, lembrei que quando batemos o corpo fortemente, ou somos batidos, o hematoma é roxo: “Fulano está com o olho roxo”. Pensei que, com a passagem dos dias, a cor vai ficando esverdeada, amarelada, até sumir. Já disse o porquê de não gostar do termo “roxo”, também não gosto do amarelo, porque me lembra: “Beltrano estava tão nervoso que ficou amarelo”. Gosto do verde. No hematoma, é quando ele já saiu da fase crítica. Então, ao invés de lacaniano roxo, preferiria ser lacaniana verde.




Isloany Machado, 10 de outubro de 2012.

Um comentário:

  1. Adorei!Nem tanto ao mar nem tanto a terra.Também acho que ser apaixonadamente roxo por algo atrapalhe o crescimento.

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