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quarta-feira, 14 de maio de 2014

Carta 15 - Sobre as primeiras palavras e o domingo à tarde

Oi meu querido!



Mal voltei e já estou com saudades. Ah, maldita saudade, sempre. Como você cresceu...e está tão bonito! Achei o máximo quando sua mãe me contou que uma das primeiras palavras que está falando é “outro”. Sim, eu entendi que você a usa para dizer que quer outra coisa, mas sabe, minha cabecinha fértil imaginou tantas coisas...Agora você já sabe que existe um Outro! Muitas vezes seu inferno será justamente este Outro. Lembra do Senhor Freud? Ele dizia que “o sofrimento nos ameaça a partir de três direções: de nosso próprio corpo, condenado à decadência e à dissolução” ou mesmo das dores de viver; “do mundo externo, que pode voltar-se contra nós com forças de destruição esmagadoras e impiedosas; e, finalmente, de nossos relacionamentos com os outros homens. O sofrimento que provém dessa última fonte talvez nos seja mais penoso do que qualquer outro.” Olha que coisa incrível isso! E você faz sua estreia no mundo das palavras justamente dizendo da existência do outro. Morri.
Mas sabe Henrique, foi mesmo muito bom ficar perto de você, mesmo que tenha me estranhado um pouco. Eu me contento em te olhar, em ver o cuidado da sua mãe contigo. E sabe, tem uma coisa que quero te contar. No domingo, em que a família estava toda reunida, eu fiquei muito feliz, mesmo. Eu que moro longe sei a falta que me faz estar perto, mas não sei se estivesse perto ficaria feliz. Confuso isso né? Pois é, os adultos são assim mesmo, nunca sabem exatamente o que querem. Foi preciso estar longe por muitos anos até que eu conseguisse fazer algumas perguntas. Aproveitei pra perguntar pra minha mãe (sua avó), por que ela não sabia se eu era menino ou menina antes de nascer, e ela me explicou que não havia essa coisa moderna de ultrassom, e se havia, era só pra gente rica. E sabe que eu nunca tinha feito essa pergunta?
No domingo à tarde fiquei, mais uma vez, ouvindo as histórias da minha mãe e das minhas tias sobre a vida na roça. Eu já ouvia essas histórias quinhentas mil vezes, mas desta, o sentido foi diferente, parece. Teve uma coisa que me intrigou. Em determinado momento, enquanto elas relembravam o quanto a vida assim era difícil, contaram que minha avó, sua bisa, quando estava grávida da filha mais nova, foi ajudar na roça e, por causa do peso da barriga, fazia a colheita ajoelhada. Minha mãe se emocionou um pouco e disse: “É por isso que eu pergunto: Pra que viveu? Que vida foi essa? Só sofrimento.”
Estarreci. Virei do avesso. Sabe Henrique, um significante que marca nossa família é esse: “Sofrimento”. E eu sempre odiei isso. Lembro que quando você era recém-nascido e sua avó ia te dar banho, ela te dizia: “Ai que vida sufida né Ique?”. E eu, mais que depressa, pulava na frente e dizia: “A vida é muito boa Henrique! Não é sofrida não!”. Parecia até estranho eu interferir em algo “tão inocente”, mas é que eu queria te livrar disso, desse significante. Mas eu sei da minha impotência quanto a isso. Voltando à pergunta de domingo: “Por que e pra que viveu alguém que não viajou, não teve diversão, fez a colheita de joelhos?”. Este era o questionamento de minha mãe com o qual fiquei estarrecida. Senti vontade de gritar, mas nem sei o quê. Meu estômago revirou.
Entrei de novo numa bolha. Flutuei sobre cada cômodo da casa. Parei, olhei pra você, que brincava com as pedrinhas ao lado da calçada. Observei o que cada membro de nossa família estava fazendo. Uns lavavam a louça, outros comiam a sobremesa. Uns tomavam cerveja e riam, outros contavam piada. Uns dormiam de babar, outros estavam quietos. E de repente, a pergunta de minha mãe não fez o menor sentido pra mim. Ali estávamos nós reunidos, num dia das mães em que comemos, bebemos, nos abraçamos, porque há tempos não nos víamos. Mesmo os que moram na mesma cidade ficam tempo sem se ver, acredita? Sempre que nos encontramos, alguns estão mais gordos, outros mais magros, mas são sempre as mesmas pessoas. E olhando tudo aquilo, meu coração foi invadido por uma alegria, uma gratidão pela vida da minha avó, que teve aquela vida tão sofrida, que colhia de joelhos porque estava grávida, que nunca viajou. E eu quis tirar uma fotografia. Demorei para conseguir juntar todo mundo, e quando um levantava, o outro sentava. Isso é uma coisa que você entenderá mais tarde, às vezes as pessoas se atraem, outras, se repelem. E olhando a fotografia depois, entendi que sempre estará faltando alguém, mas há um laço que nos une, mesmo que seja o laço da palavra que tanto pesa pra mim: “sofrimento”. Mas Henrique, deixe que isso vire piada. Viaje, me mande uma foto da beira do mar.
 De repente, ali, sentada à sombra, olhando pra você enquanto brincava com as pedrinhas, entendi que a palavra sofrimento voou. Lá estavam seus olhinhos brilhantes, e num estalar de dedos eu já nem sabia qual era a pergunta de minha mãe.  


Isloany Machado, 14 de Maio de 2014.

P.S.: Te amo.

3 comentários:

  1. Que lindo!Esse texto hoje foi um afago na minha alma,obrigada!

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  2. Oi Islo, belas palavras, emocionantes. Abraços.
    Ellen

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  3. Me deu vontade de chorar...e na parte q vc quis gritar, me identifiquei...chega veio na minha mente o q seria..."CHEGA...BASTA"

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