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sábado, 3 de maio de 2014

Carta 14 - Sobre lobos, fadas, bruxas e princesas

Oi querido, quanto tempo?!
Me desculpe por ter ficado tanto tempo sem te escrever. Sabe o que aconteceu? Eu estive pensando que tenho sido muito dura com você nestas cartas todas. Não sei se deveria estar te dizendo essas coisas assim tão cruamente. Eu só queria que você soubesse como é o mundo, mas depois pensei: bem, esse é o meu mundo e a forma como o vejo, será que não estou sendo cruel demais com você? Então repensei e por isso demorei tanto para escrever de novo. Acho que podemos começar pelos contos de fadas. Que tal? Você gosta de historinhas? Posso te contar algumas. Bem, vejamos, que tal começarmos por Chapeuzinho vermelho?
Era uma vez uma menina muito bonitinha que ia visitar a vovó que estava doente. Ela ia levar uns doces e uns quitutes para agradar sua vovozinha. Então, antes de sair, vestiu sua capa vermelha (por isso é chamada de Chapeuzinho vermelho) e sua mãe lhe disse: “filha, não vá pelo meio da floresta, pode ser perigoso!”. Mas a menina era teimosa como uma mula e desobedeceu a mãe. No meio do caminho encontra o lobo, que disfarçadamente se passa por uma boa pessoa, pergunta onde ela está indo e corre na frente para chegar antes dela. Quando a menina chega na casa da avó, se depara com algo de estranho, pois a velhinha estava zoiuda, nariguda, orelhuda e bocuda. Era o lobo Henrique! E ele tinha comido a vovozinha...hum...isso me parece meio pesado também. Apesar de que com os gritos de Chapeuzinho ao descobrir que aquela não era a sua avó, mas sim o lobo, um caçador matou o animal e tirou a vovó, vivinha, de dentro da barriga dele. Final feliz. Bem, vamos tentar outra história.
João e Maria eram dois irmãos. Um dia a mãe pediu que fossem buscar lenha, mas alertou-os de que não fossem longe, pois havia uma floresta perigosa logo adiante. João e Maria, duas mulinhas como Chapeuzinho, foram pro meio da floresta. Maria teve a brilhante ideia de fazer uma trilha de migalhas de pão, para que se guiassem no caminho de volta, mas os passarinhos comeram as migalhas e eles ficaram perdidos. Andaram e andaram, até que acharam uma casa feita de doces, chocolates, castanhas, e tudo o que criança gosta. A propósito, eu vi suas fotos da páscoa com a cara melecada de chocolate. Isso é uma delícia né? Bom, lá estavam João e Maria roendo as paredes da casa de uma velhinha, mas meu querido, você não sabe: a tal velhinha era uma bruxa malvada que prendeu os dois irmãos e dava comida para que eles ficassem gordinhos. Agora você deve estar me perguntando o porquê. Ai, deixa pra lá essa história! Pelo que eu sei eles enganaram a bruxa e fugiram no fim das contas.
Tem também as histórias de moças coitadinhas que se casaram com príncipes. Várias delas eram maltratadas pela madrasta. Tem a história de uns porquinhos, que ficavam com medo do lobo mau. Ah, não sei se eu consigo fazer isso Henrique. Eu só queria que você soubesse que há coisas na vida para as quais ninguém nos dá explicações direito e a gente tem que passar a vida a buscar o sentido, até descobrir que muitas coisas não têm um sentido. E a culpa não é dos mais velhos, porque eles também não sabem. O que nos ensinam é o que também não sabem. Isso tudo que eu tenho falado com você: o tempo, o amor, as saudades, a vida, a loucura e a morte, são coisas veladas, quase não faladas. Isso me fez tanta falta! E eu só queria te dizer o que inventei sobre isso. Mas às vezes me pergunto se essa minha baboseira toda te servirá para alguma coisa.
Sabe, meu querido, eu não me queixo da vida não. E pensando bem, mesmo que eu pareça trágica falando de loucura e morte, por exemplo, acho que já tirei de cima de mim um peso enorme só por conseguir falar sobre isso. Eu já entendi que viver é muito bom, apesar de todas essas coisas malucas, de ter que tomar cuidado com pessoas que às vezes querem puxar nosso tapete, comer nossos docinhos, enfim, causar alguma dor em nós. Na verdade Henrique, viver é bom pra burro! Por esse motivo eu queria te dizer o jeito que descobri isso. As voltas que tive que dar pra ficar mais leve. E queria que você pegasse um atalho. Mesmo que nas historinhas o conselho que se dá para as crianças é de que não se deve atalhar pelo meio da floresta, pois pode ser perigoso. Eu só queria que você soubesse que pode até ser que haja lobos, bruxas, e tudo mais que puder haver de tenebroso, mas siga sempre o caminho do desejo. Não tem erro. 


Isloany Machado, 03 de Maio de 2014.

P.S.: Semana que vem estou aí.

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