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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Carta 5 – Sobre família, saudades e remendos na alma

Meu querido sobrinho,
Você mal foi embora daqui e eu já estou morrendo de saudades. Enquanto você estava aqui, eu quis que o tempo parasse. Depois lembrei da encolística do tempo e senti que ele passou rápido demais nesses dias. Pode ser que você me pergunte “Tia, o que é saudade?”, e eu posso te dizer que esta é uma palavra difícil de explicar. Algumas pessoas dizem que só existe na nossa língua, o português, mas não sei não. Aposto que todas as pessoas desse mundo têm um jeito de dizer que sentem saudades. Estou enrolando porque é muito difícil dizer assim com palavras o que é isso, mas vou tentar.
Como já falamos um pouco sobre o amor, vou começar dizendo que saudade tem a ver com amor. A gente sente saudade de quem a gente ama muito, mas não só de pessoas como de lugares, de períodos da nossa vida. Você vai sentir saudade do leite da sua mãe, assim como agora eu sinto saudade da minha mãe, porque estou longe dela. Assim como sinto saudade de você, porque estou longe de você. Pronto, temos já um começo. Saudade tem a ver com estar longe. Mas também não temos este sentimento por tudo e todos que estão longe, absolutamente não! É aí que amor e distância se juntam: sentimos saudade das pessoas que amamos e estão longe ou aquelas que já foram embora. “Embora pra onde tia?”, é o que você deve estar me perguntando. Um dia falaremos disso.
Pra você entender melhor, pense no que sente quando está com fome. Tudo o que você quer é matar a fome, não é? Então, é mais ou menos assim. A saudade é uma espécie de fome que sentimos das pessoas que amamos e estão longe. Mas sabe Henrique, por enquanto o leite chega até você em intervalos regulares, mas quando a gente é grande a fome da saudade às vezes é tão demorada. Demora meses pra sarar, dias, anos, e às vezes não sara nunca. Só que não morremos de fome, nesse caso a gente sobrevive. Pra não morrer, a gente é que mata a saudade. Vai visitar, telefona, escreve carta, vê uma fotografia e por aí vai.
As pessoas de quem a gente mais sente saudade são os amigos e a família. “Tia, o que é isso?”. Eu te digo já meu amor. A família são as pessoas com quem dividimos os sobrenomes, os genes, a casa, as contas, a comida e, muitas vezes, as saudades. São pessoas do nosso sangue, como as pessoas costumam dizer. Os amigos são tudo isso que eu disse, mas que não são do mesmo sangue. Tem um senhor muito famoso chamado Shakespeare que disse: “bons amigos são a família que nos permitiram escolher”. Então não deixam de ser família também. E para que a gente sinta saudade e ame uma pessoa, não necessariamente ela tem que ser só da família. Isso que chamamos de família nem sempre foi do jeito que é hoje. Vou tentar te dizer de um jeito mais fácil. Você, seu pai e sua mãe são uma família que, por sua vez, faz parte de uma família maior que tem os vovôs e as vovós, que são os papais e mamães do seu papai e da sua mamãe. Daí você tem as tias, que são irmãs do seu papai e da sua mamãe. Tem também os primos, que são filhos das tias. Na família também tem pessoas que não têm o mesmo sangue que a gente, mas que amamos do mesmo jeito e às vezes até mais que se fosse de sangue. Tem gente que a gente ama de graça.
Lembre-se que essas coisas não são assim desde que o mundo existe. Como eu te disse noutra carta, sentimentos também são criados junto com as palavras. A família também é uma palavra inventada, assim como a saudade e o amor. Estou te dizendo isso para que não estranhe se um dia se deparar com alguém que não ame sua própria família, nem sinta saudades. Isso não faz de ninguém um monstro, pode acontecer, nas melhores famílias. Ser do mesmo sangue que alguém não garante o amor por esse alguém. O laço sanguíneo às vezes garante traços físicos muito parecidos. “O que é traço físico tia?”. É a nossa imagem externa: o nariz, a boca, os olhos, as unhas das mãos e dos pés, o cabelo e essas coisas que logo logo você vai descobrir que tem. Você, por exemplo, tem alguns traços do seu pai e outros da sua mãe. Seus olhos são iguais aos da sua mãe e seu nariz, do pai. Eu, por exemplo, tenho os olhos e o nariz parecidos com os de sua vovó, minha mãe. E meu sorriso é parecido com o do meu pai, seu vovô. Disso, Henrique, desses traços não podemos fugir. Aliás, tem pessoas que fazem uma coisa chamada “plástica” que serve pra mudar essas características físicas quando são muito insuportáveis. Antes de você nascer tinha um cantor dos Estados Unidos que era negro e mudou completamente sua aparência. Eu não sei te dizer o que era tão insuportável pra ele, mas deve ter tido seus motivos.
Bem, mas tem algo que vai além desses tais traços físicos Henrique. São as marcas que só a família deixa na gente. Este é um assunto complicado para falar em algumas linhas, mas eu vou tentar. Seria muito fácil se tudo se resumisse à genética, que tem a ver com os traços de que falei antes. Mas acontece que nossos pais, que são os familiares mais próximos, geralmente deixam outras marcas em nós que não são físicas. Essas marcas ficam no mesmo lugar que o furinho e a ferida aberta de que falei nas outras cartas. Como eu te disse, algumas pessoas chamam de alma, outras de personalidade, outras de psique. Neste caso, o nome não é o que mais importa, o que você precisa entender é que nada disso se encontra no corpo, apesar que em alguns casos o corpo sofre e responde também. Aquele senhor de que falei antes, Shakespeare, também escreveu que um dia a gente aprende que há mais de nossos pais em nós do que podemos supor. Às vezes a gente demora muitos anos pra aprender isso. Tem alguns desses traços que são bem legais. Por exemplo, a gente pode ser inteligente como o pai, sensível como a mãe, ou calmo como um e persistente como o outro. Mas a gente também fatalmente será teimoso como um e reclamão como o outro, será chato como um e rabugento como outro, e por aí vai. Muitas vezes a gente vai repetir e repetir quase que exatamente os mesmos erros que eles. Mas não se chateie tanto com isso, na maioria das vezes eles fazem tudo com a intenção de acertar com a gente. Lembre-se que eles também repetem os erros dos pais deles. Isso também é fazer parte de uma família. Um dia você vai entender isso melhor. Às vezes sentimos raiva por alguém da família e, em seguida amor, ou culpa. Às vezes, quando estamos perto queremos ir pra longe e depois ficamos morrendo de saudade, querendo estar perto. Às vezes é preciso estar longe pra enxergar melhor os erros. Não se pode ter tudo. Mas sabe Henrique, esses traços familiares, apesar de serem diferentes dos traços físicos, assim como esses, podem ser modificados também, ainda que não completamente. O que pode modificar não é plástica, é outra coisa. A gente remenda a alma. Mas saiba que é possível. Às vezes a gente não percebe tudo em nós que é dos outros, ou demora muito pra perceber. Mas como disse o senhor Shakespeare, um dia a gente “descobre que se leva muito tempo para se tornar a pessoa que quer ser, e que o tempo é curto”, por isso meu bem, saiba que mesmo que leve muito tempo pra se tornar quem você quer ser, mesmo que o tempo pareça curto, sempre ainda é cedo. Vou ficando por aqui.  
Um beijo.


Isloany Machado, 01 de abril de 2013.

P.S.: A titia te ama, já com saudades.

2 comentários:

  1. Como sempre,arrasando.Costumo dizer que a cada sessão de psicanálise vou me tornando o que eu era.Continue!

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