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domingo, 30 de março de 2014

Momento Nostalgia

Este texto foi escrito por mim e minha amiga Cristina Cuiabália no ano de 2002, aos 17 anos, para um trabalho de literatura do terceiro ano do Ensino Médio sobre Cecília Meireles, muito antes da minha escolha pela psicologia. A fala dela foi baseada em algumas poesias de Cecília e também em um livro seu chamado “Olhinhos de Gato”. Quanto ao analista, Dr. Incapacitus Brasiliensis, uma homenagem nossa a um analista que até certo ponto caminha bem com suas perguntas, mas peca pelo excesso de narcisismo e pela falta de análise. Obviamente que nessa época não sabíamos o que eram esses conceitos, mas parece que supúnhamos um saber à literatura que suplanta o saber daqueles que se colocam no discurso do mestre.




A Análise
Analista: Dr. Incapacitus Brasiliensis (A)
Paciente: Cecília Meireles (C)
A: Então, em que eu poderia te ajudar?
C: Não sei, o analista aqui é você!
A: OK. Vamos tentar novamente. O que te trouxe aqui? Qual o motivo de sua visita? Qual o seu problema?
C: O meu problema é que todas as máscaras do mundo se debruçam sobre o meu rosto e às vezes eu sinto falta de ter a minha própria face.
A: Fale-me sobre sua vida, sua família, pois preciso conhecê-la.
C: Três meses antes de eu nascer meu pai já havia morrido, e antes de eu completar três anos foi a vez de minha mãe. Minha avó teve a tarefa de me criar. Desde pequena, sempre gostei de livros. Até mesmo antes de aprender a ler, pegava-os e ficava observando a encadernação, as letras, a impressão, achava tudo lindo! Aí, quando entrei na escola, não desgrudava deles nem um minuto.
A: Então a senhora sempre gostou do mundo mágico da ficção?
C: Sim. Sempre tive meu mundo particular. Quando cresci me tornei uma professora primária, como minha mãe. Gosto de lidar com crianças porque são inocentes e, para elas, tudo é novidade. Olham sempre como se fosse a primeira vez. Sabe descobrir maravilhas em pequenos detalhes.
A: Pelo que pude observar a senhora se identifica muito com elas, não é?
 C: É sim. Eu ainda me considero uma criança. Não consigo tolerar aqueles adultos estúpidos, que passam por coisas belas e as acham insignificantes, não veem a riqueza delas. Olhe para o assoalho. Agora. Veja aquela cadeia de montanhas, consegue ver a mamãe pato com os patinhos?
A: Não!
C: Parecem apenas riscos, sem nenhuma significação. Mas pouco a pouco se observa que há ondulações de águas, praias, montanhas, um estremecimento de pássaros, florestas densas, que escurecem – logo, um súbito jorro de estrelas e de luas, borboletas infinitas batendo suas asas. É o mundo num assoalho. E os grossos pés pisam indiferentes sobre estas maravilhas! Tenho medo de me tornar apenas uma pessoa indiferente. Como os outros que andam, falam, riem, choram, se vestem, se penteiam, mas nunca se mostram inteiramente.
A: Sim, continue, por favor. Me explique melhor.
C: As criaturas humanas falam, falam, falam, mas não há coerência entre suas palavras e seus olhos. Logo se vê que estão mentindo! (Pega o espelho) Eu não tinha este rosto de hoje, assim magro, assim, triste...nem estes olhos tão vazios...
A: Posso lhe recomendar um esteticista se preferir. A minha secretária também estava com a auto-estima baixa e eu sugeri que fizesse uma recauchutagem. Sabe como é, uma puxadinha aqui...
C: Não! Você não entende! Não estou falando de estética. É muito mais além. Falo de sonhos, sensações, pensamentos...
A: É. Já era de se esperar! Devem até pensar que a senhora é um tanto neurótica...
C: Neurótica?! Como tem coragem? Sou apenas “uma mulher de fases”.
A: Então você se considera uma mulher de fases?
C: É. Eu tenho fases como a lua. Fases de descobrir o mundo, fases de me esconder nele. Em cada fase uma face.
A: Como você lida com o amor?
C: Não gosto de amar com o amor dos homens. Aquele que dizem que é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente. Acho que deveríamos amar sem sentir, amar sem querer, amar sem amor, amar por amar sem esperar nada em troca. Até mesmo sem perceber. O verdadeiro amor está muito ligado à nossa vivência. Não há o que explicar.
A: E sobre a morte?
C: Eu convivo com ela desde pequena, todos os meus familiares morreram, fiquei só com a minha avó. E acho que a morte ensina a gente.
A: Então você não tem medo dela?
C: Não. Algumas pessoas têm medo de se acabar e não veem que se acabam todos os dias na tristeza, na dúvida, no desejo. Mas também se renovam todos os dias na tristeza, na dúvida e no desejo. As pessoas só se tornam eternas quando perdem o medo de morrer.
A: Suponho que você acredite na existência de um deus?
C: Minha avó sempre dizia que não adianta nada as pessoas rezarem tanto, construírem tantos altares e igrejas, se não tiverem deus no coração. Eu acredito que deus está dentro de nós e cabe a cada indivíduo a escolha do caminho a ser seguido.
A: Você tem muitos planos e objetivos?
C: “O terreno do amanhã é incerto demais para os planos e o futuro tem o costume de cair em meio ao vão”. Shakespeare, conhece?
A: É, devo ter lido alguma coisa...
C: Eu procuro viver cada dia como se fosse o último. Para que se desesperar com o que pode vir a acontecer, se de repente tudo poderá mudar? Um gato!
A: Muito obrigado! As pessoas falam mesmo que eu sou um doutor muito bonito, atraente, inteligente, maravilhoso, fenomenal, fabuloso, incrível...
C: Você já parou pra pensar no sentido da existência de um gato? Eles sobem muros, árvores, e o sol faz brilhar o seu pelo de cetim. Hesitam se devem ou não matar uma borboleta que passa. Dormem tranquilos e sonham com o tempo em que eram tigres. Dias depois aparecem rodeados de moscas e formigas. Seu pelo já não brilha mais. E tudo porque um menino acertou-lhe uma pedra. Tem a cabeça amassada, e um olho pra fora. Não é efêmero? Ei, o que você tanto escreve?
A: É o seu diagnóstico. Você mesma o escreveu, leia. Confie em mim...
C:


1. Eu canto porque o instante existe
    E a minha vida está completa.
    Não sou alegre nem sou triste:
    Sou poeta.

2. Irmão das coisas fugidias
    Não sinto gozo nem tormento.
    Atravesso noites e dias
    No vento.

3. Se desmorono ou se edifico,
    Se permaneço ou me desfaço,
    - não sei, não sei. Não sei se fico
    Ou passo.

4. Sei que canto. E a canção é tudo.
    Tem sangue eterno a asa ritmada.
    E um dia sei que estarei mudo:
    - mais nada.


 Cuiabá, em algum dia de março de 2002.

4 comentários:

  1. Bom, acho que meus comentários são suspeitos de mais pra valer aqui...mas queria deixar uma declaração...vi vocês (Isloany e Cristina) passearem nos corredores da escola, vi cochicharem uma com a outra inúmeras vezes, vi lágrimas e sorrisos, nascerem em conversas confidenciais,... e com a minha matemática, não enxergava o que significava tudo isso, mas o que eu via, era toda essa poesia em vocês, a beleza que cada uma carregou e carrega. Linda Geração de 84, que me ensinou e ainda ensina muito...Beijos...;)

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  2. Ai amigo, que lindo!!!! Claro que seu "depoimento" vale e muito! Como tenho saudade daquele tempo...veja que toda a minha vida profissional foi influenciada por isso, por essa grande amizade, pela poesia que fazíamos juntos, todos nós. Beijo pra vc e pra Cris.

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  3. Amo seus textos,acompanho tudo com muito carinho.Continue,aqui no Crato,interior do Ceará você arrumou uma fã ardorosa!Bj!

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  4. Ô Silmara, obrigada pelo carinho! Abraço pra terra cearense!!!

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