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terça-feira, 4 de março de 2014

Estranhas fronteiras

Tenho comigo uma fotografia de família que foi tirada em uma das fronteiras entre o Brasil e o Paraguai. São quatro pessoas na foto: a mãe, a mana, eu e o pai. Mana é o apelido carinhoso que meus pais me ensinaram para chamar a irmã mais velha. É assim que todos os meus primos chamam seus irmãos mais velhos, só o primogênito. Costume de gente do sul. Os “manos” da minha família podem ser contados nos dedos: Ellen (a minha mana), a Jane (a mana do Alex e do Ariel), o Jeferson (mano do Jean e da Jesielen), o Cleber (mano do Heder, da Anabela e da Maria Angélica), a Andréia (mana do André e do Alisson) e a Sandra (mana do Adiel, que não está mais entre nós). Ser mano (a) é ter um algo a mais. É ter o poder de mandar nos outros, reles mortais, súditos dos manos. Havia então o clã dos manos e manas, cujas brincadeiras excluíam os demais, que tinham idade menor. Eu, particularmente, me ocupava em destruir as brincadeiras dos manos, já que não podia participar. Mas estou dando toda essa volta para dizer que se tratava de uma nomeação e que aquilo significava muito para nós. Tanto que passarei isso adiante. Como eu disse antes, é um costume de gente do sul. E o que eu tenho a ver com a gente do sul? Me explico.
Comecei o texto falando de fronteiras. Minha família era do sul, mas desobedeceu o costume de viver no sul e mudou-se para o Mato Grosso. Lá estava eu na barriga da minha mãe, a caminho do norte, em busca de uma vida melhor. Década de 1980. A primeira terra que meus pés conheceram foi a terra mato-grossense. Mas à terra natal não se abandona completamente, e minha família carregava na sola os costumes do sul: o chimarrão todos os dias às 5h30 da manhã (mesmo que a nova morada fosse quente como o inferno), ouvir rádio AM enquanto toma o café, acordar cedo para trabalhar (costume de que sempre viveu na zona rural), dentre outras coisas. Não era permitido, nem mesmo às crianças, ficar na cama depois das 7h. Até hoje meu corpo dói se durmo um pouquinho além do horário.   
Em 1986 veio a mudança para Cuiabá (capital do Estado). E aí outra configuração cultural nos invadiu. Deixamos pra trás os outros familiares e entramos em contato com pessoas completamente diferentes, que não gostavam de chimarrão por viver desde sempre em uma cidade muito quente. Pessoas que comiam peixe com maxixe. Mas hein? O que é maxixe mesmo? Comiam arroz com pequi. Marizabél. Mas nós éramos estrangeiros. Enquanto o sotaque dos cuiabanos era arrastado, o de meus pais era rápido, de muito “leitE quentE dói o dentE da gentE”. Quanto a mim, nem um sotaque nem outro. Amava aquela terra quente em que fui criada e onde vivi até os 17 anos.
2002 – mudança, agora sozinha, para Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul. Sim, do SUL. Para quem não sabe, o Estado de Mato Grosso foi dividido em 1977. Há, desde então, uma fronteira entre mato-grossenses e sul-mato-grossenses, até uma certa hostilidade às vezes, cujo motivo eu nunca entendi. Há uma linha simbólica que separa norte e sul, mas a história, até a divisão, foi a mesma: a Rusga, a guerra contra o Paraguai, o coronelismo, os meios de comunicação, a população indígena, enfim. Os nomes das ruas são os mesmos, já que nossos “heróis” são os mesmos: Fernando Corrêa da Costa, Afonso Pena, Antônio Maria Coelho, Marechal Rondon. Eu sinceramente me senti em casa aqui, a não ser pelo sotaque, que era bem diferente do cuiabano. E foi aqui que conheci a sopa paraguaia (no pensionato Casa do Estudante), a chipa, o tereré (que ainda não prendi a gostar), a empanada, nham nham. Aqui faz frio. Aqui tem a segunda maior colônia japonesa do Brasil. Aqui eu aprendi a comer sushi e sashimi. Vez ou outra converso com algum coreano que diz “polta” ao invés de porta. Aprendi a comer yakissoba e sobá.
Desse modo, sempre fui de casa, mas ao mesmo tempo, estrangeira. Por isso fiquei pensando nas fronteiras. Na primeira vez que fui ao Paraguai, fiquei procurando a linha que nos separaria de seu povo: não passa de um símbolo. É só dar um passo. Melhor assim do que uma muralha. E aí o tema das fronteiras invadiu meus pensamentos. Pensei nos amores vividos ao atravessar uma linha. Pensei no encontro das línguas, literal e metaforicamente. Lembrei de Romeu e Julieta que eram proibidos um ao outro por uma fronteira entre famílias. Há amores separados pelo tempo, outros que são separados pelo sim ou pelo não. Alguns amores são separados por apenas um passo. Um passo em falso. Mas este mesmo passo pode ter sido o que fez o encontro. Pensei que a linha de fronteira é como a linha que divide dois corpos que se confundem e se misturam. Cada lado existe independentemente, mas há muitos elementos que ultrapassam as fronteiras, como nas trocas amorosas, cujo limite é a pele.
Venho de uma família andante, cujo costume é o de ignorar as fronteiras. Muitas coisas ficaram pra trás, muitas coisas eu ainda estranho. Carrego na sola dos sapatos muita terra acumulada. Não sei pra onde irá a próxima geração, mas ainda que sem raízes, é aqui que eu quero ficar.  
           



Isloany Machado, 04 de março de 2014.

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