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sábado, 15 de março de 2014

Carta 13 - Sobre a loucura, ainda

Meu pequeno,
Tenho visto sempre suas fotos enviadas por sua mãe. Como você está lindo, cada dia mais. Claro que eu sou suspeita pra falar qualquer coisa, porque eu acho você muito parecido com as pessoas da sua família materna, comigo inclusive. Quando você crescer um pouco mais vai entender a relação de amor e ódio que temos com sermos ou não parecidos com a família. Sabe por quê? No fim das contas, a gente sempre carrega mais do que gostaria de semelhanças com nossos familiares. E veja bem, isso vai muito além da aparência física. Mas se você estiver lembrado, eu já te falei um pouco sobre a família.
Eu tive que sentar novamente aqui para escrever sobre a loucura. De novo, tia? É o que você pode estar me perguntando. Mas sabe, esse é um tema que me amedronta tanto, que supus que poderia falar dele em uma carta e só. Na verdade eu queria falar disso assim, rápido, pra não ter que pensar muito. Mas sabe que isso me perseguiu todos os dias depois que escrevi a penúltima carta pra você? Eu fujo, mas a loucura me encontra sempre. Poucos dias depois que te escrevi, estava andando numa livraria e bati o olho num livro que há tempos queria comprar. Mas é daqueles que dá medo e eu não quis pedir pela internet, então pensei que se o encontrasse por acaso em uma livraria, talvez pudesse comprá-lo. E não é que o danado pulou na minha frente? E no meio de tantos outros, lá estava ele, como uma ferida aberta, uma fratura exposta. Não pude resistir.
O livro conta a história de um lugar que abrigava “loucos”, em uma cidade chamada Barbacena, interior de Minas Gerais. Pode ser que um dia você conheça este lugar, se for viajador como seus pais. Eu coloquei a palavra loucos entre aspas porque muitas pessoas que eram mandadas para lá não eram doentes mentais. Muitos eram sujeitos desprezados pela sociedade. Então, como eu te disse, não pude deixar de comprar esse livro, porque ele conta uma história triste e nos faz lembrar do que somos capazes de fazer com aqueles que nos incomodam. Sim, querido, nós. Parece estranho dizer assim né? Mas não, não é. Nós, enquanto categoria de humanos, fizemos e ainda fazemos isso. Não quero entrar em detalhes agora, mas é o que sempre te falo sobre as diferenças e nossas dificuldades de lidar com elas. O que eu posso te dizer é que li esse livro aos prantos, e sempre com um nó na garganta. Ele traz imagens e histórias de algumas das pessoas que estiveram lá. Muitas morreram por falta de cuidados, higiene, alimento e muitas outras coisas. É realmente chocante.
E eu imagino que você deva estar se perguntando por que eu voltei nesse assunto, por que isso mexe tanto comigo a ponto de eu chorar ao ler um livro de cabo a rabo. As palavras me fogem, mas eu vou tentar traduzir pra você. No início da carta, quando te falei das questões familiares, eu mencionei que às vezes a gente leva mais da família conosco do que realmente gostaríamos. Agora eu preciso ser franca com você e parar de usar meias palavras, por mais que isso seja um nó dentro de mim, ainda.
Sabe querido, nós temos algumas pessoas em nossa família que foram chamados de loucos pela medicina. E saiba que essa frase saiu como uma vespa furiosa da minha boca. Isso me dói. Por que tia? Imagino que esteja perguntando isso, do alto de seus 15 meses de vida. Meu amor, falar da dor do outro é fácil, falar da morte também o é, relativamente, afinal, todos já perderam alguém. Falar da loucura teoricamente é fácil. Explicar os mecanismos da psicose, tira-se de letra. Mas há uma “dor de concha extraviada”, como disse o senhor Manoel de Barros, quando o louco é da nossa família. Precisa de uns minutos para respirar? Sim, porque eu preciso. 
 A minha garganta ainda sufoca quando eu me lembro das cenas. Acredite se quiser, não é só uma pessoa que foi nomeada louca, são várias. Mas de perto eu só vi uma. Você não sabe o quanto me custa escrever sobre isso pra você, mas não posso deixar de dizê-lo, não mais. É uma mulher, minha tia, sua tia-avó. Dizem que ela ficou louca depois que teve o segundo filho. Não me pergunte nada, não me peça pra te explicar como isso acontece, por favor. É da minha tia que estamos falando e não de um paciente que eu poderia olhar de fora e mais de perto. Eu me lembro vagamente de quando ela ia ficar na nossa casa, depois das internações. Eu era criança, mas me lembro. É difícil dizer, mas lembro do medo que sentia dela e daqueles olhos esbugalhados de quem tudo vê. Claro que são lembranças vagas, mas tenho uma mais nítida.
Quando eu tinha uns 13 anos, fui com minha mãe visitá-la no hospital. Lembro até hoje do cheiro meio azedo que me invadiu. Era o cheiro do lugar. Cheiro de saliva misturada com leite e fermento de pão. Fora isso, lembro das pessoas usando uma roupa muito muito rota. Algumas sem dentes. Minha tia era uma delas. A dentadura fora-lhe tirada pela equipe do hospital, porque brigas poderiam acontecer e danificar seus objetos pessoais, pelo menos era a explicação que nos davam. Era assustador. Era e não era a minha tia. Era um trapo humano, com uma roupa muito muito rota e sem dentes. Lembro que ela não dizia coisa com coisa. Diziam que ela era esquizofrênica. E como é difícil dizer isso, mas eu acho que davam choque nela. Preciso respirar de novo.   
 Até pouco tempo atrás, eu tinha medo de enlouquecer, de perder os dentes (ainda sonho que meus dentes estão caindo ou esfarelando), de cheirar azedo, de levar choque, de vir a ser um trapo humano. Um dia fui fazer uma cirurgia e me deram uma roupa de hospital pra vestir. Não consegui me olhar no espelho. Estava rota. É impressionante como os momentos em que nos deparamos com a fragilidade do nosso corpo são angustiantes. Mas não são pouco, são muito angustiantes. Nós adoramos afirmar nossa sanidade e, às vezes, nosso único parâmetro é a insanidade do outro. O outro é louco e eu não. Ufa, ainda bem. Não se assuste, meu querido. Aqui está a sua tia, de peito aberto, falando de seu maior medo e de sua pior lembrança.
Sabe, eu poderia ter fugido disso, dessas lembranças, dessa dor que sinto ao falar desses medos, mas não. Aos 17 decidi fazer psicologia porque ouvi falar de psicanálise e de um certo descontrole que temos de nós mesmos. Eu queria entender, ainda que naquela época eu não fizesse a menor ideia de onde meus pés me levariam. Sabe aonde eu fui parar no meu primeiro estágio extra da faculdade? Num hospital psiquiátrico. Acredite se quiser. Até hoje eu não acredito. Quando entrei, aquele mesmo cheiro me levou de volta aos 13 anos e à cena da minha tia. Cheiro de leite e saliva, de pão com manteiga, tudo fermentado na boca. Sabe aquele cheiro que a gente exala pela boca quando toma café e não escova os dentes? As roupas eram menos rotas do que na minha lembrança. Os discursos eram desconexos, sem nexo, de sexo. Eu tinha que buscar um sentido ali. Levei uma cuspida, mas agora eu estava de jaleco branco. E, politicamente incorreta, a frase que não saía da minha cabeça era: ainda bem que não sou eu. Mas sabe, nessas horas, tudo o que você quer é chegar em casa, colocar pra lavar o seu jaleco cuspido, saber quem você é, e dormir em paz. Mas meu sono sempre me levava para uma certa boca aberta e sem dentes. Muitas vezes a minha. Quando você é o do jaleco branco, talvez consiga dormir em paz, mas eu era a sobrinha e meus fantasmas puxavam os pés.
Um dia eu fui convidada para assistir a uma sessão de “Eletroconvulsoterapia”. Um nome chic pra choque elétrico mesmo. Não nos enganemos. Foi a coisa mais triste que eu já vi na vida. E eu só me perguntava: o que eu estou fazendo aqui? Enquanto aquela pessoa sem nome convulsionava e babava na minha frente. Podia ser a minha tia. E será que não era? Será que não era eu? Saí da sala com o choro preso na garganta. O jaleco branco me impunha certa postura neutra. Quase enlouqueci.
Ao ler o livro de que te falei, percebi que eu fazia parte de uma massa de pessoas que, direta ou indiretamente, foram torturadores. Roubar a identidade de alguém é o pior crime que se pode cometer. Para me eximir, fui estudar outras formas de ver o louco, de entender seu discurso, enfim. Como estudiosa, consigo entender os mecanismos da loucura, sua posição de objeto na sociedade. Mas como sobrinha da louca, só consigo sangrar.
Me desculpe por falar sobre isso, sei que é pesado pra você, que ainda é um bebê, mas eu estava sufocando.
    

Isloany Machado, 10 de Março de 2014.

P.S.: A titia te ama.

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