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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Dois anos depois


Meu querido primo,
Esta noite eu sonhei com você. Obrigada pela visita. Alguns diriam que sonho é realização de desejo, e eu sei disso. Estou com saudade, seu puto. Gosto da ideia de que veio me visitar, me faz pensar que tem saudade de mim. Eu te vi no sonho com o mesmo aspecto que você tinha na adolescência: magricela e com os cabelos todos na cabeça. Depois resolveu adotar a cabeça raspada e as tatuagens. Tenho que te dizer que careca, seu nariz ficava ainda maior.
            Meu sonho me levou a um tempo em que você era outro. A um tempo em que eu ia às baladas nas férias, escondida do meu pai. Tempo dos primeiros amores e das primeiras decepções. Nas férias eu gostava de ficar na sua casa, porque você fazia sopa. Agora, dois anos depois, o peso da saudade está maior. Parece que aos poucos eu vou me dando conta de que só poderei te ver no passado, como se fosse de frente pra trás. O seu futuro já não existe. Não posso, por exemplo, pensar como você estará aos 40 ou 50 anos, mas posso me lembrar de quando tinha 20 ou 15. Lembro de como gostava de perfumes importados e de como sempre andava alinhado com roupas e sapatos caros.
No sonho, você aparecia e depois sumia. Em um momento você sumia e eu não conseguia te encontrar. Quando te achei, você estava trabalhando para ganhar dinheiro e segurava uma máquina de cartão. Eram montes de comprovantes em papel, para você ganhar dez reais. Era muito trabalho pra pouco dinheiro, né? Lembro que eu dizia que te daria todo o dinheiro do mundo, mas que, por favor, não sumisse de novo. Que coisa né? Não entendi nada. Acho que nem eu teria dado todo o dinheiro do mundo (até porque não o tenho todo) e nem você deixaria de ir, por nada nesse mundo.
Sabe, acordei ao mesmo tempo feliz por sua visita e com o coração apertado de saudade. Lembrei que lá se vão dois anos desde que você foi embora. Eu ainda me lembro perfeitamente do seu sorriso e da sua voz, mas não me lembro mais do formato dos seus dedos dos pés. E mesmo que você não tenha me pedido, eu te perdoo. Como psicanalista, sei que o desejo deve vir acima de tudo, mas como prima, confesso que não pude entender muito bem.
Isloany Machado, 6 de fevereiro de 2014.

P.S.: Já sabe que desde que foi embora comecei a escrever né? Parece que esse ano sai o segundo livro.

4 comentários:

  1. Linda homenagem ao seu primo Isloany. Me faz lembrar meu irmão que foi embora a oito anos aos 38 anos de idade. Também só posso ver ele no passado. Um grande beijo no coração. Fica bem. Marli

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  2. Eu quis chorar...Muito bom! Parabéns pela escrita afinada!! :)

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