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domingo, 23 de fevereiro de 2014

Carta 12 – Sobre a ética, a impunidade e a justiça

Querido sobrinho,
Já está se tornando um mantra dizer que sinto saudades, não é? Mas não há como não dizer. Estamos longe um do outro e fico tentando pensar em maneiras de minimizar isso. Talvez eu sempre seja aquela tia que mora longe, que você vê de vez em quando. Então, queria que você soubesse, de alguma maneira, que eu sempre penso em você e tive a ideia de te escrever essas cartas, mesmo que você ainda não saiba ler. Sei que talvez um dia isso possa servir para alguma coisa. Também o que escrevo aqui não é a verdade absoluta. Talvez esta seja a minha verdade, e colocar isso no papel é uma forma de te dizer como encontrei um caminho alternativo contra tudo o que quiseram me fazer acreditar. Mas sabe, pequeno, tudo o que a gente aprende gruda em nós de um jeito que parece piche. Às vezes eu gostaria de me livrar de algumas coisas da memória, mas não consigo. Explico melhor.
Eu, assim como você, fui ensinada desde muito pequena sobre coisas cristãs. Cristão é relativo a Cristo, o famoso Jesus, filho de Deus. O cristianismo é uma maneira de ser e estar no mundo, isso diz das coisas que você acredita, da forma como deve agir, do que esperar para depois que o corpo acaba. Aqui onde a gente mora e um bom pedaço do mundo é cristão. Tentaram me fazer acreditar que essa era a verdade e o resto todo era mentira, mas eu descobri com o tempo que essa não é a única maneira de acreditar. Existem outras verdades, como por exemplo, o islamismo, o budismo, etc. (a lista é longa). Mas tia, A verdade não deveria ser uma só? É o que você deve estar me perguntando. E eu tenho que te dizer que depois de muito tempo descobri que a verdade, na verdade, é muito particular, ou seja, é de cada um.
Algumas coisas gerais que eu aprendi sobre o cristianismo: se alguém lhe der um tapa na face direita, você deve dar o lado esquerdo para levar outra bofetada, e vice-versa. É quase o mesmo que dizer que “a vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”. Ou seja, não devemos alimentar o ódio por aquele que nos faz algum mal. Devemos agir sempre pelo bem alheio. Não devemos fazer ao outro aquilo que não gostaríamos que fizessem conosco. Isso é uma coisa que podemos chamar de ética e me faz lembrar de coisas escritas por um senhor chamado Kant. A ética está presente não só no cristianismo. Ai tia, como assim? Penso que você deve estar confuso, mas calma, isso é uma confusão mesmo.
Você reparou que eu usei todo o tempo a palavra “dever”? É isso mesmo querido. Não fazemos isso de querer o bem por vontade própria. Um exemplo: se um colega da escolinha te morder a bunda, o que fará? Morderá a bunda dele ou virará do outro lado para que ele morda de novo? Não te parece absurdo ter que dar o outro lado da bunda para ser mordida? Caracas, isso dói! Você deveria dar o outro lado para ser mordido, mas não é isso o que você quer. Tudo o que você quer, e eu não tiro sua razão, é dar uma bela mordida nesse sujeitinho de fralda mijada. Imediatamente a professora corrigirá os dois: não podem fazer isso!! Vocês têm que ser amiguinhos, amar uns aos outros. Peçam desculpas e fiquem no cantinho pensando na burrada que fizeram. A palavra culpa é plantada em nós. Ah, e ela gruda mais que piche...
Então veja, pra que serve a ética? Serve, penso eu, para que possamos conviver em sociedade. Para que não saiamos por aí mordendo a bunda dos outros, agredindo, matando, estuprando, machucando, etc. Ou seja, fazendo tudo o que nos der vontade de fazer com o outro, que enxergamos como nossos objetos. Tia, que coisa mais linda essa tal de ética! Faz a gente ficar bonzinho né? Pode ser a conclusão que você tirou. Sim, quanto menos fazemos o que nós desejamos, mais nos sentimos culpados e oprimidos e deprimidos. Mas é o preço que pagamos por sermos seres “sociais”. Que coisa linda, é tudo tão perfeito...
Ah, querido, eu lamento muito te dizer que as coisas, na vida real, não funcionam bem assim. Aqueles que se dizem “bons” acham que os ditos “maus”, devem pagar pelos danos que causam. Por exemplo: um cara que sai por aí mordendo a bunda dos outros, ou matando, ou roubando, ou estuprando, etc, etc. ele não deixa de fazer essas coisas, mesmo que todos digam que ele não pode fazer. É como se ele gozasse de algo que os outros não gozam. Isso tem um preço e esse sujeito deverá pagar por isso: “você pode gozar disso, mas terá que pagar um preço, já que todos os ‘bons’ tiveram que abrir mão disso”. É mais ou menos isso nossa justiça, é claro que estou simplificando grosseiramente. Quem goza demais a ponto de prejudicar o outro deve acertar as contas com a justiça. Pra isso são criadas as leis, os sistemas prisionais e punitivos, a pena de morte, etc, etc. Entenda que isso é a ética (moral, bons costumes) colocados no papel para regulamentar nosso comportamento social. É uma forma de garantir que aquele que causar dano a outro deverá pagar judicialmente. Veja que nem todos estão dispostos a dar o outro lado da bunda para ser mordida, hã?
Então, eis que esse sistema que deveria regulamentar nossa vida em sociedade é meio devagar às vezes. Por exemplo: se você vir um grupo de pessoas matando alguém a chutes no meio da rua, o que deve fazer? Geralmente a gente liga pra polícia pra contar o que está acontecendo. Mas daí a polícia quer que você conte toda a história do que está acontecendo, o local, o nome das quatro ruas que cruzam o ocorrido, a cor das cuecas dos agressores, o tipo físico, etc., etc. Fazem isso porque muitas pessoas de má fé ligam passando trote. Mas daí o que está sendo chutado já tá pra lá de Bagdá. Esses dias começaram a fazer uma coisa: uma pessoa rouba um lugar, as pessoas se juntam para pegar o ladrão. Pegam. Mas não contentes de só ter pegado, espancam a pessoa enquanto a polícia não chega. Fazem justiça com as próprias mãos. E dizem: “as pessoas estão cansadas de tanta impunidade!”. Esse discurso é bem sedutor: “Já que o sistema não funciona direito, vamos tomar providências!”. Mas onde está o erro, querido? Repare que as pessoas não se contentam em prender o ladrão, elas querem que ele pague com a própria carne por isso. É o preço do gozo, lembra?
E aqui os “bons” fazem justiça com as próprias mãos. O bem tem que vencer o mal. Bazinga! É claro que eu estou sendo irônica. Quem está com A verdade? Será que temos o direito de machucar alguém (e daí gozar um pouquinho) em nome do bem de todos? Outro discurso sedutor: “Queria ver se fosse com você!”. Ah, se fosse comigo, eu ia querer matar. Mas por que eu não saio matando, ou espancando, ou machucando, etc, etc. a todas as pessoas com quem não concordo ou que me fizeram algum mal? Porque existem muitas verdades, meu querido. E toda história sempre tem dois lados. Como eu te disse, as coisas grudam em nós como piche e nosso discurso é lindo, mas no fundo, no fundo, somos selvagens que damos um dedo para causar dor ao outro, nem que seja para fazê-lo sentir a mesma dor que nos causou.
Espero te ver em breve.
Isloany Machado, 21 de Fevereiro de 2014.

P.S.: Lembre-se que essa é a minha verdade.

4 comentários:

  1. " o preço que se paga às vezes é alto de mais"

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  2. Seu texto me fez lembrar algumas discussões que tive na faculdade sobre o texto "Totem e Tabu (1912-1914)", muito bom, texto que causa diversas reflexões acerca dos temas que estão ganhando destaque na nossa "sociedade contemporânea".

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  3. Obrigada queridos, pelos comentários!

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