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domingo, 9 de fevereiro de 2014

Carta 11 – Sobre a loucura, e só.


Meu querido, feliz ano novo!
Da última vez que nos vimos, você completava um ano de vida. Como estão as coisas? As pernas já estão mais fortes? Já consegue andar sem que tremam tanto? Vou te dizer uma coisa: aproveite a sensação das pernas tremendo, são poucas coisas na vida que fazem a gente sentir isso de novo. Sabe meu bem, cada vez menos as pessoas aguentam sentir. Sentir o que, tia? É o que você deve estar me perguntando. Sentir tudo. A nossa vida tem se tornado cada vez mais um turbilhão de coisas a serem feitas, e o tempo é curto. Não dá tempo de parar pra sentir. Sabia que agora, se uma pessoa que você ama morre e depois de quinze dias você ainda estiver triste, seu luto é patológico?
Ai tia, que diabo é isso de patológico? Como vou te explicar isso? Patológico é aquilo que não é normal. E eu agora pergunto: O que é normal? Sabe querido, desde que comecei a estudar psicologia, nunca mais pude usar a palavra “normal” de forma normal. É uma palavra que causa mal-estar nos psicólogos, pelo menos naqueles que não engolem qualquer verdade. Chega a ser engraçado, sempre há um “entre aspas”. O normal é aquilo que algumas pessoas se juntaram para estabelecer que é o que todas as outras devem fazer. Geralmente é baseado naquilo que determinado grupo acredita como sendo certo. Vou tentar dar exemplo.
Você mama na sua mãe, certo? Hoje em dia, mulheres amamentarem é considerado o correto, o melhor para a saúde dos seus filhos. É o normal, vamos dizer assim. Tempos atrás o normal era que as crianças fossem amamentadas por outras mulheres, que não suas mães. Eram amas de leite. Uma mãe que quisesse amamentar era “anormal”. Nos mesmos tempos atrás, uma mulher que abandonasse o filho era normal. Hoje, são monstras. E até as mulheres que dão seu sangue e trabalham muito se sentem culpadas pelo tempo que ficam longe dos filhos. O normal é sentir culpa, se não sente, não é boa mãe. O problema é que as pessoas esquecem que isso muda com o tempo e fazem com que se torne “natural”. Aí é que está o problema. Lembra daquele grupo que dita as ordens do qual falei anteriormente? Pois é, eles fazem de tudo para apagar a história. Apagando a história, só podemos pensar que foi assim sempre e assim sempre será. Está confuso?
 Mas eu falei de tudo isso pra tocar num assunto que é difícil de dizer. Mais do que a morte tia? É o que você pode me perguntar. Mais, meu querido. Pra mim isso é mais difícil. Sabe por quê? Porque é como estar morto, mesmo que vivo. Chega de mistério. Eu queria falar com você sobre a loucura. Tenho medo de não conseguir. Mas vamos lá. A loucura tem a ver com modos de sentir, pensar e agir diferentes do que é considerado “normal”. Ou seja, foge ao padrão daquilo que foi estabelecido como norma. Só que isso tem muitas variações. Algumas pessoas sabem quais são as regras, sabem quem dá as cartas, mas mesmo assim fazem coisas que os outros julgam serem loucas. Por exemplo, se todo mundo acha bonito e normal andar pra frente, e você anda de ré: só pode estar doido. Se todo mundo anda olhando por cima do próprio nariz e você anda olhando pro chão: doido. Se todo mundo acha o máximo ter todo ano o carro do ano e você prefere ter sempre o mesmo carro, ainda que possa trocar todo ano: pirado da batatinha. Mas há várias formas de ser diferente da norma. Você pode fazer poesia. Pode fazer música. Pode usar a blusa do avesso de vez em quando. Pode pintar o cabelo de verde, rosa, roxo, azul, amarelo. Mas mesmo assim você saberá que está fugindo das normas. Isso não deixa de ser um jeito de agir, pensar e sentir, diferente das outras pessoas. Mas querido, isso ainda não é a loucura.
Estou fazendo voltas porque talvez não saiba como dizer. Na nossa família há algumas pessoas loucas. Loucas de verdade. Que não sabem quem dita as regras, não sabem que o que estão pensando, sentido e como estão agindo, foge completamente da norma. O que não quer dizer que não sintam! Talvez essa seja a diferença: algumas pessoas querem parecer loucas. Mas, como dizia o senhor Lacan, “não é louco quem quer”. A loucura é um dos grandes dramas e mistérios dos seres humanos. Algum fio que precisava ser cortado e não foi, mas ninguém sabe porquê. Esse fio precisava ser cortado para que um emaranhado de outros fios fosse formado. E esse emaranhado faria com que aquilo que é nu e cru, a verdade sobre nós humanos, fosse escamoteada de alguma forma.
Imagine, querido, uma cidade que esteja em ruínas. As construções foram destruídas, as pessoas morreram, o caos instalou-se. Pouco tempo depois, a água veio e cobriu esta cidade, ou o que restou dela. Muito tempo depois as pessoas podem passear de barco por cima da cidade e jamais saberão que há ruínas ali. Mas imagine agora que o louco é alguém que consegue olhar pra água e ver claramente o que está submerso. Imagine que o louco sabe mais da verdade do que os outros que já conseguiram esquecer a tragédia. Não sei se algum dia já te disse que nós sofremos de memórias. Isso foi o senhor Freud que escreveu. Mas o louco não sofre de memórias, porque ele, simplesmente, não esquece. Tudo o que está vivendo agora nos seus primeiros anos será esquecido e se tornará ruína. Só lembrará a partir do que os outros te contarem de como você era, de como queria ardentemente estar com sua mãe, etc. Mas acredite, é melhor que seja assim. É melhor que o fio seja rompido e que tudo não passe de ruínas submersas. Para conviver com as ruínas é preciso fazer metáforas do impossível.  



Beijos.
Isloany Machado, 28 de Janeiro de 2014.

P.S.: Não há mais nada que eu possa te dizer por agora.

3 comentários:

  1. Palavras de quem sabe o que fala.
    Ápices: "não é louco quem quer" e "o louco não sofre de memória pois ele não esquece".

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  2. Obrigada Túlio e Leandro, pelos comentários!!!

    Abraço

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