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segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Carta 7 - Sobre a infância, a adolescência e a criminalidade líquida

Meu pequeno sobrinho,
Como estão as coisas por aí? A quantas anda o caldeirão de sensações do seu corpo? Não se preocupe, em breve a agitação passará, assim que você puder começar a falar. Mas até quando a gente é grandão por vezes, não raro, somos tomados de surpresa por esse caldeirão que exige de nós um trabalho imenso de elaboração. Na verdade essa separação entre vida adulta e infância, adolescência e etc. são divisões feitas por pessoas que resolveram medir alguma coisa que eu nem sei te dizer ao certo o quê. A essas alturas já deve ter entendido que muitas coisas são criadas pelos humanos, já estamos falando disso há tempos não é? Amor, saudade, solidão, amizade, intolerância. Pois é meu querido, infância, adolescência, vida adulta e senilidade são mais uma série de invencionices nossas. Está confuso? Eu vou tentar te explicar.
Há muitos e muitos anos as crianças, assim como você, eram consideradas mini-adultos e logo que aprendiam a andar já podiam trabalhar como os grandes e fazer outras tarefas que você nem pode imaginar. Vestiam-se como adultos também. Ah, também essas crianças viviam misturadas no meio dos adultos, eram criadas por várias pessoas e não somente pelos pais, assim como acontece com você. Digamos que eram outros tempos e esse modelo de família com o qual você está acostumado ainda não existia. Era outro modelo. Assim, isso que chamamos de casamento foi uma forma das pessoas saberem quantos filhos tinham para poderem deixar a herança para eles, pois somente os filhos concebidos dentro do casamento é que tinham direito de herança. Claro que isso já mudou também, hoje todos os filhos devem ser considerados iguais, ao menos diante da lei. Dessas coisas de lei sua mãe entende, se ficar confuso pode perguntar a ela. Então foi assim que nasceu este tipo de família ao qual estamos mais habituados e foi assim também que nasceu “a criança”.
“Como assim tia?”, é o que você deve estar me perguntando. Antes, quando não havia essa preocupação com a herança, e quando as crianças não recebiam tanta atenção, era muito comum que morressem muitas delas, às vezes por falta de cuidados de saúde também. Mas de uns tempo pra cá, passou-se a valorizar a infância como período de grande importância no desenvolvimento humano. Os pesquisadores “descobriram” que as crianças precisam de alguns cuidados um pouco diferenciados para que possam chegar à vida adulta, e etc. Na verdade, como eu te disse, a infância foi também criada por nós. Passou a ser defendida com unhas e dentes em seu direito de brincar, na proibição de trabalhar. Pra você ter uma ideia, seus avós trabalharam muito quando crianças, pois antigamente as coisas eram mais difíceis e as crianças acabavam ajudando nos trabalhos de casa e na agricultura. Pergunte a eles um dia. Agora existe um lei que proíbe que os adultos coloquem as crianças para trabalhar (exceto aquelas que trabalham na TV, daí pode). Na verdade criaram essa lei porque algumas pessoas acabavam escravizando as crianças, impedindo-as de estudar e brincar. Hoje a infância é tão valorizada que, se quando éramos pequenos não podíamos comer o maior bife porque era reservado para o pai, hoje não o comemos porque tem que ser para o filho (li isso em algum lugar e achei engraçado).
Depois da infância existe uma fase chamada adolescência, algumas pessoas chamam de aborrescência, porque dizem ser uma fase em que a pessoa fica chata e rebelde. É que na verdade acho que nessa fase a gente começa a denunciar as mentiras contadas pelos adultos e deixa de ficar quieto. Como eu te disse, são invenções humanas e como tudo o que é invenção humana acaba dando em confusão, eis que agora ninguém mais sabe até que idade se é criança, até que idade se é adolescente, após que idade se é velho (haja vista que existem meios de ludibriar a aparência para não demonstrar a idade). Mas o pior de tudo isso, meu amor, é que agora estão discutindo com que idade as pessoas devem ou não ser presas por cometerem crimes (o que define o que é ou deixa de ser crime é invenção humana também). Porque agora as pessoas estão confusas pra definir com que idade se é responsável pelos próprios atos. Mas sabe o que é mais estapafúrdio? É que ninguém questiona o que leva os adolescentes a cometerem os crimes. Aí está uma herança de algo que chamamos de higienismo, uma proposta de fazer “limpeza” que se estende para a criminalidade. Limpar os agentes do crime, quanto mais cedo melhor. Mas fazer isso é o mesmo que enxugar gelo, quando ficar maior tente fazer isso pra entender o que estou dizendo. Estou querendo dizer que ninguém quer saber das raízes das questões sociais, só querem saber de varrer a “sujeira” pra debaixo do tapete. É como se o “cada um” não importasse mais. Os humanos, e geralmente os mais pobres, são tratados como massa. Já viu massa de pão? Nela não se consegue dizer até aonde vai a farinha e de onde começa a água e os demais ingredientes. Massificar seres humanos é uma das coisas que a guerra faz, lembra do que é a guerra? Pois então, prender adolescentes cada vez com menor idade sem tentar ao menos entender do que se trata é minimamente uma atitude bastante burra eu diria. É transformar pessoas em massa humana sem pé nem cabeça, sem eira nem beira. Vou imitar um senhor chamado Bauman e batizar isso de criminalidade líquida. Tomara que esses senhores não suspeitem que as crianças têm fantasias criminosas também, senão vão inventar de abrir um berçário só para prender crianças. Eu pagava pra ver o que fariam com o problema da superlotação. Calma, é uma piada. Não chegariam a tal ponto. Eu acho. Você está seguro, meu amor.



Um beijo. A titia te ama, muito.

Isloany Machado, 16 de abril de 2013.

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