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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Carta 10 - Sobre aniversários, desejos e o Sol.

Meu querido, feliz aniversário!!!


Hoje faz um ano que você nasceu. Como passou rápido...ainda mais aqui de longe, sem ver você crescer a cada dia. Toda vez que te vejo parece que tomou um pouquinho mais de fermento. Será que eu estaria sendo muito repetitiva se dissesse que estou com saudades? Eu já te disse o que é saudade? Acho que sim. Aliás, nesse ano já te falei sobre tantas coisas né? Muitas vezes fiquei achando que fui dura demais com você. Às vezes fiquei pensando que deveria ter inventado histórias de contos de fadas para te poupar, prolongando mais tempo possível o seu encontro com o real. Por isso tentei te dizer como que em conta-gotas, de um jeito que não doesse tanto e que não fosse tão amargo.
Sabe querido, ao mesmo tempo que esse um ano tenha passado rápido e pareça que ainda é pouco o tempo que já viveu, na verdade você já viveu muitas coisas. Faça uma retrospectiva. Você já esteve totalmente à mercê dos desejos do outro, quando chorava pra tentar dizer que estava com fome, ou com sono, ou cagado...você só conseguia chorar para demonstrar que havia um mal-estar. Depois começou a usar seu corpo para dizer isso. Agora já consegue se negar a algo que não queira fazer ou comer, mesmo que ainda não articule a palavra “não”. Henrique, isso não é incrível??? Eu quase choro só de pensar!!! Você, tão pequenininho, dizendo a qualquer preço os seus desejos. Independentemente de articulação palavrética.
Henrique, você sabe o que é desejo? Ora, como posso te explicar isso sem muita embananação? Meu querido, isso é algo mesmo muito difícil de explicar, mas vou tentar. Eu tentei ver num dicionário para te explicar, vou dizer o que está escrito e depois falamos disso. “Termo empregado na filosofia, psicanálise e psicologia para designar, ao mesmo tempo, a propensão, o anseio, a necessidade, a cobiça ou apetite, isto é, qualquer forma de movimento em direção a um objeto cuja atração espiritual, ou sexual é sentida pela alma e pelo corpo.”. Bem, olha só, você já sabe o que é o apetite. É o mesmo que fome. Você sentia isso mais ou menos a cada duas horas logo que nasceu, queria mamar! Pergunte à sua mãe. Sentido apetite, seu movimento era no sentido de buscar o objeto de satisfação: o leite/a comida.
Na medida em que o tempo passa Henrique, a gente continua sentindo fome, mas depois a fome não é só de comida. Depois de um tempo, “a gente não quer só comida, a gente quer bebida (de preferência alcoólica), diversão e arte”; é a letra de uma música. Querido, depois de um tempo, o buraco da fome, que já não é fome, fica sempre oco e nada preenche de verdade. Nem leite. Mas veja, isso não é ruim. Imagine só se você continuasse crescendo e, lá quando estivesse grandão, não fizesse outra coisa a não ser chorar pedindo teta pra sua mãe? Seria trágico, e muito cômico! Não se satisfazer só com leite é algo que nos faz querer mais, desejar mais, mover o corpo em direção a outros objetos, querer se arrastar no chão pra buscar algo, se agarrar às paredes para ficar em pé, se tremer todo tentando andar sozinho pra pegar um objeto. Não é isso o que você anda fazendo por aí? Sua mãe bem que me contou.
Chega um tempo Henrique, em que a gente não quer mais ficar com a fralda esquentando a bunda. E aí, como que subitamente, o que antes era um meneio de cabeça, torna-se um sonoro NÃO! Em breve você sentirá esse sabor delicioso das palavras. Saiba que muita gente engole a palavra “não” só pra continuar a agradar e tentar satisfazer o desejo dos outros. Não caia nessa, querido! Mas veja, como eu te disse, a “fome” fica cada vez maior. Quanto mais palavras a gente sabe, mais a gente quer saber e mais a gente se esperneia por nossos desejos, que sempre mudam também. Às vezes, mesmo depois de grandes, alcançar um desejo é tão difícil que a gente precisa se agarrar nas paredes para não cair, às vezes, a gente precisa chegar onde quer arrastando-nos no chão. Parece bizarro né? Mas as coisas têm funcionado assim. Está muito difícil de entender querido? Calma que tem mais.
Sabe do que mais? Tem adultos que ficam correndo em círculos e não conseguem alcançar o desejo. Porque isso tem um preço. Às vezes o que você deseja não é algo que as outras pessoas acham legal, às vezes o que você deseja muda a vida de muita gente. E aí é preciso bancar isso, é preciso pagar o preço. Muitas vezes pagamos com a própria carne. Acredite. Quem dera que todos os problemas da nossa vida fossem resolvidos com alguns mililitros de leite. Eu adoraria. Mas não é possível voltar atrás. Quando você enfim começa a dizer o que deseja, não dá pra voltar a usar fralda. O gosto de chegar perto do desejo é bom Henrique! É como ficar exposto àquele solzinho gostoso que aparece somente perto do meio-dia nos dias de inverno. Mas o Senhor Shakespeare dizia que o Sol queima se você ficar exposto por muito tempo. Tome cuidado. Por isso muita gente foge do desejo por medo de se machucar.
Como dizia o Senhor Freud, viver não é fácil! Mas é delicioso. Comemore esse dia, faça festa, logo logo as palavras coçarão sua língua e você vai ver que delícia é o sabor que elas têm. E assuma sempre seu desejo, custe o que custar, mesmo que sejam os cabelos brancos de sua mãe!
Beijos da titia que te ama.


Isloany Machado, 12 de Dezembro de 2013.
P.S.: Não vejo a hora de ir à sua festa!!!





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