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domingo, 17 de novembro de 2013

Do pó vieste e ao pó voltarás

E logo eu que sempre gostei tanto de livros...


Eu tenho o costume de caminhar olhando para o chão. Antes eu achava que era timidez, mas aprendi com Manoel de Barros que olhar para o chão é melhor, há coisas celestiais no chão, junto com os vermes, com a poeira. Também aprendi que mudar a ordem das palavras e seus sentidos não é doidice. Até inventei um pensamento assim logo que estava acordando ontem: “Como pedra, água e lógica”. Ainda não inventei um sentido pra essa frase. Manoel foi criado no mato e aprendeu a gostar das coisinhas do chão, antes que das coisas celestiais. Pensando nisso, eu resolvi fazer as pazes com as coisas celestiais. Conto o porquê. Outro dia virei a esquina de casa e, olhando para o chão, como de costume, vi aberta num pedaço quebrado da calçada, uma Bíblia. Ela estava na terra, aberta, no livro de Lucas. Eu parei. Olhei. Fotografei. E logo eu que sempre gostei tanto de livros...não consegui mover um passo na direção em que ela estava. As folhas finas se embaralhavam com o pouco vento que tinha, e meu pensamento viajou algumas léguas ao vento.


Quando criança, eu tinha medo de Bíblia. Meu pai dava bronca se colocasse qualquer outro livro em cima dela. Era sagrada. Uma vez ele me deu uma Bíblia tão pequena, mas tão pequena...quase tão pequena quanto eu. Era como eu me sentia diante da grandiosidade e de toda santidade que aquelas letrinhas sugeriam. Papel fino, miolo dourado, capa preta. Eu ia ler tudo...mas não conseguia. Eu juro que ia ler um capítulo por dia, mas me perdia. Todas as noites lá estava ela, no topo de todos os livros mundanos. Eu ia ler tudo...mas era santo demais pra mim, talvez eu fosse profomundana já. Ela estava no alto do monte mais alto, dos meus livros. Eu ia ler tudo, mas só consegui o Gênesis.


Certa vez decidi participar de um grupo de estudos bíblicos, tinha 14 anos. Assim quem sabe eu conseguiria ler tudo...mas era muito pra mim. Deves amar teu próximo como a ti mesma. Mas às vezes eu me odiava! Vá e não peques mais...e eu pecava e eu não queria perdão. Parei com o grupo de estudos bíblicos...era domingo e eu queria ficar mosca, ficar grilo, ficar pedra, ficar água, ficar lógica. Mas eu ia ler tudo...


Um dia comecei a achar que se eu abrisse aleatoriamente a Bíblia, lá estaria uma mensagem pra mim. Abri. “Na minha angústia clamei ao Senhor e ele me ouviu”. Senhor? Senhor? Está me ouvindo? Hei Senhor, escute, tenho alguns problemas por aqui, poderia me ajudar? Vou dizer o que é. É que está faltando amor por aqui, parece que as pessoas vão acabar se matando. Que tal um dilúvio hã? Não seria nada mau. Ligo a televisão e vejo as torres gêmeas caindo. Volto ao livro que estava no topo do monte de livros mundanos e procuro de novo, talvez eu tivesse entendido errado. Não encontrei. Eu ia ler tudo...mas era demais pra mim. Talvez eu já fosse profundamente profana. E logo eu que sempre gostei tanto de livros...entendi que prefiro os que me enlouquecem do que os que me santificam. Eu juro que ia ler tudo, mas era santo demais pra mim e eu não queria perdão.


Voltei os olhos para o livro no chão novamente. Uma chuva fina começou a cair. Abri meu guarda-chuva preto. Meus pés molhavam. A roupa ficou preta. As folhas finas começaram a ficar pesadas. Meus pés molhados estavam grudados no chão. Eu ia ler tudo...mas não deu tempo. O miolo dourado começou a ficar pálido, era ouro de tolo. A chuva engrossou e a terra começou a respingar seus restos sobre a página aberta. Ela estava sendo engolida e meus pés estavam grudados no chão. Bem-aventurados são os que...eu ia ler tudo, mas era muito pra mim. O sol voltou e começou a secar as páginas, lentamente. Mas aquilo que era limpo e sagrado e dourado e intocável agora estava retorcido e borrado e sujo e enterrado. Assim como eu profana eu retorcida eu borrada eu humana. Eu gosto das coisas do chão antes que das coisas celestiais. Eu como pedra, água e lógica. Eu como livro, profano. Agora sim ela não mais estava no alto do monte mais alto dos livros mundanos. Ela estava no chão, assim como meus pés, grudados. Agora, tal como uma carcaça de cachorro sem dono, ela voltava ao pó de onde veio. Eu ia ler tudo, mas não deu tempo...e logo eu que sempre gostei tanto de livros...   

Isloany Machado, 15 de novembro de 2013.



5 comentários:

  1. Eu tive tempo de ler tudo... e que bom...
    Ótimo texto!

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  2. Adoro seus textos, mas esse, sinceramente não curti! Imaginei que por ser a bíblia o Livro dos livros, e um livro tão especial para toda a humanidade e por que não dizer, o livro mais lido em todo o mundo e em todos os tempos, terias talvez um cuidado especial ao referir-se a Ela. Acredito que se fores inteligente o suficiente deixarás um pouquinho do seu tempo para lê-la e descobrirás um tesouro escondido que jamais imaginou encontrar... E logo você que sempre gostou tanto de livros, ter desprezado um livro que ao menos nem passou do Geneses? Que pena! Se conseguires reservar um pouquinho do seu tempo para ler o livro "sagrado" serás ainda mais sábia do que já é! Espero um dia quem sabe, ler um texto seu dizendo do tempo que tiraste para ler o livro que fizeste descer ao pó!

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  3. é um livro que não foi feito para se ler com a cabeça mas com o coração... sem psicanálise... sem psicologia... sem intelecto... sem a necessidade de escrever sobre ele... nunca com um coração sentimental... ou passional.. com um coração que grita por necessidade... um coração que quer uma experiência própria... pessoal... única... personalizada.. depois disso você vai ter tanta coisa pra escrever... talvez não mais agrade seu público... mas você não vai mais ligar pra isso....

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