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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Carta 4 – Sobre o amor e a solidão, ou a solidão do amor

Meu querido,
Depois da última carta, fiquei pensando se peguei muito pesado com você ao falar desse buraco que nos constitui. Talvez seja ainda muito cedo para te dizer essas coisas, mas acredito que mesmo antes de você poder entender, de alguma forma já sente. Como? Bem, nem sempre que você tem fome sua mãe te atende imediatamente, não é? Já está percebendo que o leite dela e você não são uma coisa só? Meu pequeno, é assim mesmo que aprendemos isso, não fique bravo com a sua mãe, estou certa de que ela quer o melhor pra você. O que não quer dizer que ela vai acertar em tudo, tenha paciência.
Mas acho que você deve aproveitar bem esses momentos em que se sente tão pleno na relação com sua mãe. Mais tarde você vai descobrir que era uma sensação, a melhor do mundo, e vai lamentar por tê-la perdido. Nós adultos passamos todo o tempo tentando reencontrar aquela sensação de que um dia fomos absolutamente satisfeitos, amados, unos. Tem uma palavra que inventamos, que faz parte dessa nossa busca por esta unidade que você está vivendo agora com sua mãe, o nome da palavra é amor. Querido, você não tem noção do quanto esta palavra é explorada pelos poetas, filósofos, músicos, e até mesmo pelos cientistas. Tenho que te dizer que é algo que causa um frisson danado.
Se você me perguntasse: “Tia, o que é o amor?”, confesso que eu não saberia responder exatamente. Mas arrisco dizer que o amor é uma palavra que inventamos para afagar corações solitários. Primeiro vou tentar te explicar o que é o amor com a ajuda dos poetas. “O amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente, é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer...é um solitário andar por entre a gente...é cuidar que se ganha em se perder”. Assim foi que um senhor chamado Camões definiu.
Olha Henrique, podemos começar dizendo que o amor é um paradoxo. Mas tia, o que é isso? É de comer? Meu pequeno, paradoxo é uma palavra que quer dizer que uma coisa é uma coisa e ao mesmo tempo seu oposto. Como dizer que uma coisa dói e ao mesmo tempo não se sente? Você já sentiu dor? Aposto que sentiu naquele dia em que sua mãe te levou pra tomar a segunda dose da vacina. Ela me disse que você chorou. Henrique, isso que sentiu é dor, seu braço doeu, não foi? Fez ferida, certo? Pois é, no amor algo na gente dói, mas não sentimos no corpo. É como se tivéssemos uma ferida aberta que não podemos ver, pois não está aberta na pele, está na alma, no mesmo lugar em que temos o furinho de que te falei na outra carta.
Além dessa dor aí que o poeta falou, a gente perde achando que está ganhando e ganha, mesmo quando perde. Como vou te explicar isso? Bem, imagine que sua fralda está suja. Você se sente incomodado e chora, certo? Quando sua mãe vem te trocar, às vezes você chora porque se sente desconfortável e com frio, mas depois que tudo está limpo, não fica com uma sensação ótima de conforto? Pois é mais ou menos assim que a gente perde e ganha. Você perdeu quando sentiu frio e chorou por isso, mas ganhou a fralda limpa. Outro exemplo ótimo: às vezes você sente um desconforto, acha que está com fome e chora, mas na verdade está com sono. Aí sua mãe vem e te dá a chupeta. Você fica pensando que vai ganhar leite, mas só ganha a satisfação de estar com alguma coisa na boca. Ganhar chupeta é perder leite, entende? Não diga pra sua mãe que te contei isso, hein!
Outro poeta chamado Drummond disse que “o amor é bicho instruído” que sobe na árvore e cai, se estrepando, fazendo ferida, que às vezes sara amanhã, mas às vezes não sara nunca. Olha como os poetas gostam de falar de amor e ferida. Parece que tem alguma coisa errada aí não é? Apesar disso, dessas possiblidades de se machucar, num livro chamado Bíblia, tem um trecho que diz assim: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos... e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria. O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; não se ensoberbece. Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Henrique, mesmo que seja sofredor, faça feridas, cause danos, sem o amor nada seríamos. Tenho que te dizer que discordo do trecho que diz que o amor não é invejoso. Às vezes o amor é invejoso sim, porque nós humanos temos relações de rivalidade até mesmo e principalmente com as pessoas que estão mais próximas, ou seja, aquelas que mais amamos. Você vai entender isso melhor quando tiver irmãos, se não puder esperar até lá, pergunte à sua mãe. Eu tinha inveja das bonecas dela, que ficavam sempre na caixa, mas isso não quer dizer que não a amava.
Acabei de ler uma frase de um escritor chamado Carpinejar em que ele diz: “Não amo para mudar o outro, amo para me mudar”. Achei linda a frase e concordo com ela, pois quando a gente ama, perdemos parte de nós para ganhar outras e mudamos, muitas vezes pra melhor. Você percebeu a minha dificuldade para falar o que é o amor? Antes de falar dos poetas eu havia dito que inventamos a palavra amor para afagar os corações solitários. Sabe Henrique, cada ser humano é muito solitário, acho que a palavra solidão serve pra explicar nossa relação com aquele furinho que temos, do qual falei na outra carta. Ele nos faz solitários, mesmo que estejamos cercados de gente. Às vezes a solidão dói, assim como o amor, mas às vezes ela nos faz inventar coisas, tais como o amor. Algumas pessoas fazem arte com a solidão. Tudo depende muito da importância que ela dá para o buraco da alma. Se damos muita importância ficamos tristes, mesmo que as pessoas se esforcem por nos fazer sentirmos acompanhados. Se damos pouca importância, podemos voar, fazer arte e, sobretudo, amar. Amar é juntar solidões. Mas não se engane, meu pequeno, as solidões são teimosas e não se fundem em uma só. Por isso não acredite que amar é fazer uma só carne. Lembra do que te falei no começo da carta? Você e sua mãe não são um. Juntamos solidões e amamos, mas às vezes o amor acaba quando a solidão é tão grande que nos engole. Mesmo quando um amor acaba, seguimos com nosso andar solitário entre as gentes, como disse Camões, até que encontramos outros amores. Mas de tudo, o que persiste é a solidão. Em seu momento você descobrirá o que fazer com a sua. 

    
Um beijo.
Isloany Machado, 21 de março de 2013.

P.S.: A titia te ama, sem feridas e sem dores.

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