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domingo, 6 de outubro de 2013

Futuro do pretérito mais que imperfeito

Para lembrarmos de Hans, o homem do mercedes amarelo que matou Macabéa.

 

Às vezes é difícil saber por onde começar uma história. Talvez possa começar dizendo quem sou. O que não é, ainda, uma tarefa fácil, já que muitas vezes o que achamos que somos não passa de um ledo engano. De qualquer modo, filosoficamente pensando ou não, me chamo Hans em homenagem a meu avô paterno, que era alemão. Alguns me chamam de gringo porque tenho os cabelos claros e a pele muito branca, e o tom dos meus olhos está entre o azul e o verde. Mas tudo isso é quase que pura imagem, não importa muito. Esse era eu. Agora já não sei mais. Aconteceu há muitos anos, mas é incrível como a memória consegue manter vivas algumas coisas, cenários impossíveis de esquecer. A cena se repete há 15 anos em meus pesadelos, como um ritornelo. E o que se perde a cada repetição? O que eu ganho com cada uma delas? Ganho náuseas e dores no corpo, ainda e sempre.
Ainda agora que tenho que contar esta história uma grande dor assola todo o contorno do meu estômago. Mas já chega de queixas. Vamos à história. Talvez ela saia de mim como um vômito. Talvez seja preciso expulsá-la dos meus bofes. Aconteceu há 15 anos. Desde então tenho vivido como que preso, detido em liberdade tal qual Jofef K. de O Processo. Na época eu tinha 25 anos e respirava liberdade, não tinha medo de nada a não ser de mim mesmo. Deveria ter vergonha de dizer o que estava fazendo naquele lugar àquela hora? Era a hora do cair da tarde, hora em que todos os gatos são pardos. Digamos que eu andava por aquela região periférica, sub-urbana, em busca de aventura em pó. Sim, algumas pessoas têm como lenitivo a euforia em pó, eu era uma delas. Será que já não sou mais? Não sei, não saberia nem poderia dizê-lo. A pressa era grande demais. Minha pressa de viver era grande demais.
Em uma das curvas daquele labirinto de ratos em que eu estava naquele dia, de repente ouvi um barulho seco, algo havia atravessado meu caminho. O barulho era de coisa seca, como um monte de ossos, ou ainda, um cachorro magro batendo contra a lataria do meu Mercedes amarelo. Mas ali moravam e circulavam muitas pessoas invisíveis, pessoas cujos nomes são mais insignificantes do que o de um cachorro. Eram também insignificantes pra mim. Ora, por favor, não me julguem ainda. Eu avisei que o que precisava sair de mim era um vômito de palavras que se arraigaram em minhas entranhas há 15 anos. Foi tudo muito rápido. Obviamente devido à velocidade em que eu dirigia. Depois de bater naquilo que eu julguei ser um cachorro, alguns minutos depois vi que era uma mulher, seca. Eu fugi imediatamente. Fui parar o carro a alguma distância daquele lugar imundo. Talvez não tão imundo quanto eu. Durante alguns minutos meu coração parecia estar levando um choque a cada dois segundos.
Não sabia o que fazer para acalmar o javali que morava dentro do meu corpo naquele instante. Parei o carro num terreno baldio e demorei algum tempo pensando nas consequências de minha fuga. Ora, certamente ninguém sentiria falta daquela criatura invisível. Provavelmente ninguém soubesse de sua existência. Eu não podia ser preso por causa daquilo. Há muita gente desimportante no mundo já, uma a mais, uma a menos, não faria a menor diferença. Era isso o que me passava pela cabeça enquanto esperava que meu corpo tivesse condições de andar. Ainda assim, havia algo que me puxava para aquele lugar em que a mulher estava caída. Se eu fosse andando como qualquer outra pessoa, ou como uma pessoa qualquer, poderia ver o que havia acontecido a ela. Estaria morta? Ninguém precisava saber quem eu era. Então, na medida em que minhas pernas foram voltando ao normal, iniciei uma caminhada em direção àquele local.
Quando estava me aproximando notei uma movimentação de pessoas que cercavam a criatura, mais por curiosidade que por compaixão. Ainda pude chegar a tempo de ver quando uma velha chegou perto, abaixou e tirou depressa um anelzinho que estava no dedo anelar daquela pessoa sem nome encolhida no chão. “Alguém chame o socorro!”, foi o que a velha disse ao se levantar. Todos em volta tinham o olhar de bicho acuado, cuja dor de viver já doeu tanto que já nem dói mais. Passo a passo fui me aproximando e a cada minuto que chegava perto, uma forte sensação de enjoo foi tomando conta de mim. Eu estava nauseado com o cheiro que se misturava entre um tom de ferrugem, esgoto, saliva, e bife acebolado. Aos poucos todos os cheiros se fundiram num insuportável cheiro adocicado de sangue. Era dela. Saía dela um fio de sangue.
Não sei dizer se me compadeci daquela criatura muda. Fui me misturando com as outras pessoas que ali estavam a admirar o espetáculo da morte chegando. Até então eu não sabia que ela vinha à galope, nunca vira uma pessoa morrer. Pela expressão do rosto encostado no bueiro, achei que não parecia assim tão ruim. Como era magra! A pele seca e baça me pareceu mais repugnante do que o sangue, que nessas alturas já se misturava com a água branquicenta que corria rua abaixo. Fiquei ali a admirar o espetáculo da passagem ao inferno. Se é que se pode pensar que há algum lugar pior do que aquele em ela deveria morar. Seria ela moradora dali? Teria família? Não me parecia, já que nenhuma daquelas pessoas de olhos secos chegava perto, a não ser para subtrair um a um dos pertences da mulher. Ela não merecia nenhum grito de desespero? Seria possível estar sozinha neste mundo? O único barulho oscilava entre o burburinho formado pelas vozes dos expectadores e as notas de uma música tocada em um violino desafinado. Uma espécie de homenagem a ninguém, que um homem fazia enquanto deixava a lata de moedas no chão. Ele solava o espetáculo da morte chegando.
Eu fiquei ali plantado a olhar solenemente para a mulher. E sem que nada tivesse sido dito até então, com uma voz rouca ela balbuciou: “Quanto ao futuro!”. Não era uma pergunta, era uma certeza. Nem todos os que estavam ainda por ali puderam ouvir com perfeição a voz da mulher. Algumas crianças faziam algazarra pela rua, como que a comemorar mais um dia que findava. “Quanto ao futuro!”. Quanto ao futuro? O que uma mulher tão invisível podia esperar do futuro? Pensei que se ela vivesse eu poderia me casar com ela, fazê-la engordar. Percebi que naquele minuto eu passei a amar aquela mulher, por sua invisibilidade e nada mais.
Fui arrebatado por uma paixão imensa por sua inexistência. Ela fez de mim invisível também. Pode ser que a morte nos tenha feito a ambos invisíveis. Pode ser que tenha feito dela estrela e de mim pura escuridão. Ninguém ali sabia quem eu era e nem jamais viria a saber. Fiquei entre aliviado e consternado com a vida que eu não teria ao lado dela. Fiz planos para o nosso futuro enquanto via o seu fiapo de vida descer junto à agua branquicenta, escorrida da louça que a vizinha lavava. A morte é uma piada sem graça, ou antes, é uma piada de mau gosto.
Mesmo que ninguém nunca tenha sabido que eu abortei os parcos sonhos daquela mulher, mesmo que eu nunca tenha sido punido judicialmente pela partida de toda a sua insignificância, eu vivi detidamente invisível até agora. Quando estarei em liberdade? Talvez daqui a pouco, talvez amanhã, talvez nunca. Eu sou o caçador que me persegue. O juiz mais implacável. Podem poupar as condenações porque eu tenho me punido com muita veemência por todos estes anos. Ainda sou o jovem Hans, cujo futuro esteve sempre amarrado ao daquela mulher. Que futuro? O meu presente é o futuro dela. O meu futuro é o seu passado. Tudo depende do tempo verbal. Sou mais um entre os milhares de Hans, feito agora de matéria invisível. Talvez eu sare amanhã, talvez não sare nunca.
 
 
 

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