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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta 9 – Sobre as obrigações, o tempo, os dentes e as palavras.



Meu querido,

Como estão as coisas por aí? Seria redundância dizer que estou com saudades? Já soube que vários dentes nasceram! Ah, mas soube também que você começou a ir à escolinha. Queria ter visto você com a nova mochila em seu primeiro dia de aula. Dez meses já hein!!! Você está cada dia mais lindo. Me desculpe por ter passado tanto tempo sem te escrever. Mas é que tantas coisas aconteceram...



Assim como você, eu arranjei novas obrigações por aqui. E tenho usado grande parte do meu tempo para pensar no trabalho. Se eu gasto muito tempo com isso, não sobra muito para grandes ideias literárias. O sono me invade logo que deito na cama, hora em que eu mais costumava pensar besteiras – material aduboso para a literatura, pelo menos a minha. Mas imagino que as coisas pra você aí estejam fervendo! Como é a escola? O que está achando? E o mais importante: como está o convívio com os outros bebês? Não vejo a hora de chegar aí e saber de tudo! Daqui a dois meses.


Sabe querido, sua mãe ficou com o coração apertado de ter que te levar pra escola antes mesmo que completasse um ano, e eu a entendo. Às vezes os pais querem adiar o encontro do filho com o mundo fora de casa. Sabe por quê? Eu acho que é porque todos nós adultos sabemos o quanto a vida aqui fora pode ser perigosa. A cada dia você tem que fazer mais coisas, saber mais coisas, para ter mais coisas. É uma confusão! Mas não foi à toa que te perguntei como está o convívio com os outros bebês, pois uma das coisas mais difíceis nesta vida é justamente a relação com os outros.


Lembra do Senhor Freud? Pois é. Uma das coisas ditas por ele é que relacionar-se com as pessoas é uma das fontes do sofrimento humano. Mas por que tia? É o que você deve estar me perguntando. E o que eu posso te dizer é que o sentimento de amor ao próximo não é, nem de longe, algo natural. O outro é sempre inicialmente uma ameaça e reagimos rivalizando com ele, que é nosso semelhante. Pra você entender melhor, imagine um gatinho na frente do espelho. A primeira reação que ele tem é de atacar o gatinho que está na sua frente, pois ele não sabe que se trata dele mesmo, isto é, de sua imagem. Entendeu?

Nós humanos rivalizamos com o outro porque tememos que ele roube nossa comida, nossos brinquedos, nossa mãe, nosso lugar, nosso(a) namorado(a), nossa casa, nosso trabalho, nosso dinheiro, nosso poder, nosso saber, enfim, tudo isso acontece mais ou menos nessa ordem. Prepare-se para a guerra querido, por isso você tem dentes. Aproveite enquanto pode usá-los para se defender, pois quando tiver a minha idade não poderá mais. Na minha idade os dentes servem somente para mastigar e distribuir sorrisos, nem sempre sinceros. Ah, servem pra doer também. Aproveite enquanto pode ser autêntico, pra fazer o que tem vontade. Logo seus professores começarão a modular seus impulsos dizendo: “Isso não pode! Larga a orelha do coleguinha! Coisa feia!”. Eu acho que dei poucas mordidas na vida. Devia ter mordido mais. Agora não posso mais, ainda que não me falte vontade.

Mas fique tranquilo, pois quando não puder usar os dentes como arma de defesa, a linguagem já estará a te socorrer. Quando aprender a falar não precisará mais partir para o ato. Bom, pelo menos é o que se espera. O que não quer dizer que isso seja a regra. Ai, não conta pra sua mãe que eu falei essas coisas pra você.

Depois que a gente cresce, há um tal de mundo simbólico, no qual a gente aprende a dizer uma coisa enquanto sente outra. Na verdade eu aprendi algumas coisas com um Senhor chamado Shakespeare, que tem a ver com isso tudo que estamos falando. Veja só. Ele dizia que depois de um tempo a gente aprende que “paciência requer muita prática” e “que quando está com raiva tem o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel”. No fim das contas, a gente começa a vida se defendendo com unhas e dentes (literalmente), depois a gente aprende outras maneiras de se defender, com palavras. Mas sabe querido, eu tenho aprendido muito, a cada dia, que, ao contrário do que muitos dizem: “a melhor defesa é o ataque”, a melhor defesa é quando você não entra na briga, mesmo quando sente vontade de apertar seus dentes. A melhor defesa é não entrar na briga porque tudo não passa de imagem. Não é a mim que o outro teme, é ao espelho de si mesmo. Não é ao outro que eu temo, é ao espelho de mim mesma. O outro me ameaça porque coloca em xeque minhas certezas. Mas você não sabe o tempo que eu levei pra entender isso. Arre! O inferno (não) são os outros. Por enquanto use seus dentes, afinal, ninguém é de ferro, a não ser o Tony Stark. Em breve as palavras o socorrerão, tenha paciência.
 Mil beijos, a titia te ama.
Isloany Machado, 14 de outubro de 2013.       

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