Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

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domingo, 27 de outubro de 2013

Emma B.



Não se pode dizer que era uma mulher de família. Digamos que esteja mais para uma mulher familiar. Nada poderia haver de mais familiar em uma mulher bem casada, mãe, que acordava todos os dias às seis da manhã. Olhava aquele que saía para trabalhar sempre no mesmo horário, com o mesmo beijo na testa. Quem sabe se uma nova paixão aplacaria essa falta? Ir ao shopping, ir às compras. Alisar, aumentar, ou enrolar os cabelos.

Mais do que amar, queria ser amada. O que ela mais amava era ser amada. Mas com um beijo na testa? O amor exige arrebatamentos, pensava. Não sabia que o amor é bicho esquisito, é objeto nunca esquecido, mas nunca alcançado. Amor é corpo? Amar é sempre pouco. Amar, amar, amar, até que o amor se torne porco. Um porco que saia correndo no meio do mato. Tentou algumas vezes, desistiu.

Pensou em morrer, mas não de amor. Não tinha por quem. Senta-se agora, todas as noites, na escadaria da igreja matriz. Adotou o nome de Emma Bovary. A saia curta, o batom coral a lhe queimar os lábios. Nada de beijos na testa. Vive de arroubos amorosos, vende amor, vende corpo. O dinheiro? Guarda no porco.

Isloany Machado, 29 de setembro de 2012.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Psicanálise e Literatura: Diálogos Necessários*

* Texto que apresentei durante o Seminário de Christian Dunker no Instituto de Psicologia da USP, dia 17/10/2013



Reiteradas vezes temos ouvido falar da importância do diálogo entre a Psicanálise e a Literatura. Esta relação para nós psicanalistas se tornou tão óbvia que esquecemos, por vezes, de pensar em suas causas. Certa vez uma amiga de outra área me perguntou por que havia tanta possibilidade de conexão entre as duas. Esta pergunta moveu do lugar aquilo que parecia ocupar uma posição de obviedade, e me coloquei a pensar nas relações. Desde Freud, a teoria psicanalítica tem sido elaborada com a constante recorrência a textos literários: Jensen (Gradiva); Sófocles (Édipo), que dá nome ao famoso complexo; Dostoievski (Irmãos Karamazov); Hoffmann (O homem da areia); Goethe; Schiller; Shakespeare; dentre outros. Em Lacan encontramos Marguerite Duras (O arrebatamento de Lol V. Stein - ela escreve sobre o que ele ensina); Shakespeare (Hamlet, O mercador de Veneza); Racine (A tragédia de Athalie); Paul Claudel; André Gide; Allan Poe; Rimbaud; James Joyce.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Carta 9 – Sobre as obrigações, o tempo, os dentes e as palavras.



Meu querido,

Como estão as coisas por aí? Seria redundância dizer que estou com saudades? Já soube que vários dentes nasceram! Ah, mas soube também que você começou a ir à escolinha. Queria ter visto você com a nova mochila em seu primeiro dia de aula. Dez meses já hein!!! Você está cada dia mais lindo. Me desculpe por ter passado tanto tempo sem te escrever. Mas é que tantas coisas aconteceram...

domingo, 6 de outubro de 2013

Futuro do pretérito mais que imperfeito

Para lembrarmos de Hans, o homem do mercedes amarelo que matou Macabéa.

 

Às vezes é difícil saber por onde começar uma história. Talvez possa começar dizendo quem sou. O que não é, ainda, uma tarefa fácil, já que muitas vezes o que achamos que somos não passa de um ledo engano. De qualquer modo, filosoficamente pensando ou não, me chamo Hans em homenagem a meu avô paterno, que era alemão. Alguns me chamam de gringo porque tenho os cabelos claros e a pele muito branca, e o tom dos meus olhos está entre o azul e o verde. Mas tudo isso é quase que pura imagem, não importa muito. Esse era eu. Agora já não sei mais. Aconteceu há muitos anos, mas é incrível como a memória consegue manter vivas algumas coisas, cenários impossíveis de esquecer. A cena se repete há 15 anos em meus pesadelos, como um ritornelo. E o que se perde a cada repetição? O que eu ganho com cada uma delas? Ganho náuseas e dores no corpo, ainda e sempre.