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domingo, 29 de setembro de 2013

Primeiros aprendizados sendo professora


 
Desde o dia 11 de setembro deste ano estou aprendendo a ser professora. Esta data é um tanto catastrófica em nosso imaginário social, foi um dia marcado por ser desastroso. Entretanto, não posso dizer que meu primeiro dia de aula, não mais como aluna e sim como professora, tenha sido catastrófico. Tudo me leva a crer que estou construindo minha identidade como professora. Devo confessar que depois do primeiro dia de aula saí da Universidade meio que sem saber direito quem eu era, nem para onde ia. Socraticamente pensei, só sei que nada sei. Então, trata-se de um aprendizado. Desde este dia, já aprendi algumas coisas:

  1. Aprende-se mais quando você é professor do que quando é aluno;
  2. A democracia nem sempre é bem recebida por todos;
  3. Não se agrada a israelenses e palestinos (melhor do que gregos e troianos);
  4. É muito difícil saber o que está por trás do silêncio dos alunos (nunca se sabe se estão gostando ou não da aula);
  5. Aprendi que quando eu era aluna e tentava enganar um professor, ele só se fazia de bobo;
  6. Mas uma coisa inusitada que tenho aprendido é sobre a incrível relação professor-garrafa de água.

Me explico. Todas as cinco coisas que listei acima já eram mais ou menos previsíveis, algumas pessoas já tinham me orientado de certa forma, mas ninguém nunca me disse que não há professor sem garrafa de água (item 6 da lista). Esta ferramenta faz parte da estruturação subjetiva do professor, muuuito mais do que o giz. Sem o giz, improvisa-se. Sem o data-show, temos o texto em mãos, mas sem a água, beiramos a insanidade. Quando a água está a menos de um dedo do fundo da garrafa e ainda tenho 30 minutos de aula, suores frios me percorrem o corpo, a pupila dilata, as mãos iniciam uma tremedeira descompassada e incômoda. As vozes ao redor começam a sumir, os rostos dos alunos começam a parecer distantes. Sinto que fico parecendo um adolescente a mudar de voz. E então de repente eu só consigo enxergar a garrafa do aluno que está na última fila, no fundo da sala. Ali está uma garrafa quase cheia.

Deste modo, as garrafas de água passaram a me perseguir. Um dia, ao chegar em casa, tomei banho e, ao abrir a gaveta para buscar uma roupa limpa, havia duas garrafas de água, cheias. Não sei como foram parar ali. No carro, há garrafas cheias e vazias por todo canto. Ameaça de divórcio foi pronunciada porque garrafas se espalham por toda a casa. Não sei mais o que fazer. Outro dia tentei “esquecer” uma delas no ponto de ônibus e uma pessoa gritou: “Hei moça, esqueceu sua água!”. Ainda hoje, depois da aula, fui almoçar e cheguei com a garrafa pela metade. Ao sair do restaurante, livre daquele peso que deixara sobre a mesa, a garçonete esticou o pescoço e me gritou: “Querida, olha aqui sua água, você esqueceu!”.

Então pude notar que isso não mais se despregará de mim. A água amolece minha garganta, lubrifica minha voz esganiçada, tira a rudeza das palavras que saem de minha boca, por vezes tão pesadas, psicológicas. Ser professor não é dominar a técnica do “cuspe e giz”. Ser professor é saber racionar o uso da água durante todo o tempo da aula, pois sem água não há dignidade possível.    

Isloany Machado, 27/09/2013.

5 comentários:

  1. adorei
    principalmente esse:
    Aprendi que quando eu era aluna e tentava enganar um professor, ele só se fazia de bobo;
    e da agua kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
    bjs linda

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  2. Ai Islo, vc é impagável rs..A minha primeira experiência como professora no Ensino Superior tb foi hilária ou uma incógnita, sei lá, a gente sai meio sem saber mesmo..O que me faz ter a certeza de que vai se apaixonar (se já não estiver apaixonada) é que você é do tipo que se doa e isso faz com que as pessoas confiem e se abram pra você- e se apaixonem também! Aí acontece o aprendizado..

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  3. kkkkkkkkkk mto bom!!! Interessante que você fala da água enquanto possibilidade de abertura dessa via de identificação docente, um fazer de garganta, fazer de corpo, às avessas do discurso que identifica essa via ao todo-saber, ao ideativo e ao pensamento. Sortudos alunos! Têm uma professora acostumada a profissões impossíveis ... rsrsrs ... Abraço.

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  4. Queridos Zélia e Carlos, vocês não sabem que bem me faz esse carinho aqui neste espaço que é só meu...onde eu posso escrever meus devaneios, onde só entra quem está a fim de me ler...abraço imenso para vocês. ;)

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