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segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O presente




Para a família Carneiro

Só conheço, de perto, duas pessoas com mais de 90 anos. Uma delas é Manoel de Barros, que conta com mais de 90. Sim, eu o conheci pessoalmente, estive com ele por uns dez minutos e quase morri do coração. Eu precisava dizer a ele o quanto eu gostava do seu trabalho. Disse. Chorei. Disse. Chorei. Ele riu. A pele das mãos fininha, o cabelo branco, muito branco. E ria. A outra pessoa que conheci, não menos importante, é Ávido Carneiro, avô de Andréia Carneiro, minha amiga. Em agosto fez 90 anos e teve festa pra comemorar. Fui convidada. Ele havia lido meu livro Costurando Palavras e disse que queria conhecer a autora.

Fomos à festa, eu e meu marido. Na missa de agradecimento pela vida longa de Ávido, o Padre falava da importância de uma vida pura, correta, nos caminhos santos, enquanto eu me desconjurava pelo presente que havia comprado. Como sabia que ele gostava de ler e já que completaria 90 anos, pensei: “É óbvio! Claro que darei a ele Memória de minhas putas tristes”. Um livro de Gabriel García Marquez que conta a história de um homem que, ao completar 90 anos, decide que quer transar com uma adolescente virgem. Pensei em fuçar os presentes e encontrar o meu, infame, em meio aos outros, para escondê-lo. Levemente corroída pela vergonha diante das santas palavras do Padre, já havia me conformado com meu destino de pecadora, blasfêmica.

Foi quando de repente, talvez enjoado de tanto falar de Deus, o Padre decidiu falar da importância da data que estava sendo comemorada e chegou perto de Ávido. Passou-lhe a palavra. O que será que poderia dizer um senhor de 90 anos recém-completados? Ele disse: “Eu nunca fiquei internado na vida! A primeira vez foi dias atrás pra fazer cirurgia de catarata. Eu não estava mais conseguindo ler. E olha que fui batizado em casa porque acharam que eu não ia viver. Se estou vivo até hoje é por causa da literatura”. Rapidamente o Padre tomou pra si a palavra e disse, meio desconsertado: “Pela graça de Deus, o senhor está vivo! Pela leitura da bíblia!”. De longe ouvi Ávido dizer (sem o microfone): “Graças à literatura!”. Todos disseram: “Graças a Deus!” e fomos pra festa. Saí da igreja me sentindo aliviada e pensando que o presente não era assim tão ruim.

Em meio a tantos convidados, fiz questão de entregar pessoalmente o presente. Quando chegamos perto dele, eu e minha amiga, ela disse: “Vô, essa aqui é minha amiga...”. Antes que ela terminasse a frase ele disse: “É essa a escritora?”. “É”, ela respondeu. “Minha filha, eu não me lembro mais o que você escreveu, mas sei que quando li eu pensei que pela sua idade, você será uma grande escritora”. Morri. Ouvir um elogio assim de alguém com 90 anos – meu leitor mais velho – foi emocionante. Ainda mais sendo de alguém que chegou aos 90 por causa da literatura. Eu olhava pra ele e via a pele das mãos fininha, o cabelo branco, muito branco. Os olhinhos baços pela catarata. As bochechas murchas. Eu via, na verdade, um garoto cujo grande prazer na vida era viajar nas fantasias sobre as asas das palavras escritas. Suas viagens feitas de lá da casa do sítio.

Então pensei que eu quero ler até morrer. Eu quero morrer de ler. Eu quero ler pra não morrer. Assim como Ávido, avidamente quero ler, e não morrer. Quero que a literatura também salve a minha vida, estique, puxe, me leve pra voar até o fim. E até depois do fim. Quero que a literatura nunca deixe minha alma envelhecer. Pra que eu seja sempre criança quando escrever. Que eu não tenha vergonha de voar sem tirar os pés do chão. E que mesmo quando eu estiver velhinha, com a pele das mãos fininha, o cabelo branco, muito branco, que eu ame a vida como uma menina.   

O aniversário era dele, mas o presente foi pra mim.       

Isloany Machado, 06 de setembro de 2013.

5 comentários:

  1. "Ávido", que nome lindo! Cheio de desejo, como seu texto. Parabéns mais uma vez.

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  2. Maravilha Isloany, um texto belíssimo, como tudo que você escreve. Faz tempo que que não lhe visito. Mas, me sinto gratificada cada vez que o faço. Eu li "Memórias de minhas putas tristes" e gostei tanto, aliás como tudo que leio dele, que cheguei a utilizar essas experiência na minha monografia de Especialização, que trata da subjetividade da pessoa idosa no como se sente cuidado. Faço minhas as palavras do Ávido, como uma diferença, eu acredito que você já é uma grande escritora. O mundo é que precisa lhe conhecer. Beijos querida!!!

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    1. Therezinha, que carinho bom de receber. Obrigada pelo comentário!!

      Grande abraço.

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