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domingo, 1 de setembro de 2013

O não-ser do psicólogo


Não, não adivinhamos pensamentos.

Também não lemos cartas e tarôs, menos ainda a mão.

Não analisamos as pessoas o tempo todo.

Não apertamos os parafusos da cabeça de ninguém.

Não consertamos “crianças problemáticas”.

Não?

Não.


Desmistificadas algumas das crendices populares a respeito do psicólogo, temos que nos deparar muitas vezes com falsas expectativas a respeito de nossa profissão.


Não temos uma resposta certa pra tudo, como se a vida pudesse ser respondida a partir de um gabarito de múltipla escolha.


Também não sabemos, só de olhar para uma pessoa, quais são as respostas para seus problemas, e mesmo depois de ouvirmos a pessoa falar e falar, ainda continuamos sem saber, porque isso depende do lugar para onde aponta seu desejo.


Tudo o que podemos fazer, digo como psicóloga clínica, afinal há muitos outros psicólogos em outras áreas, é oferecer nossa escuta para um sujeito que chega como um barco à deriva, e temos que oferecer nosso desejo de ouvi-lo (lembrando que essa escuta é afinada ao longo dos anos de nossa formação), para que o rumo seja novamente encontrado. Ou talvez o melhor que possa acontecer seja sair do rumo costumeiro, por que não?


Para onde devo ir então?


Vejam, eu disse que o rumo deve ser encontrado, mas não por nós psicólogos e sim pelo próprio sujeito, afinal quantas vezes já foi tomado pela mão por tantas pessoas e levado ao sabor do vento? Ao sabor do desejo do outro?


Mesmo os psicólogos que trabalham em outras áreas que não a clínica, como os da educação, do trabalho, da saúde pública, haverão de basear seu trabalho no respeito ao outro. É uma questão ética. Tudo depende do lugar em que colocamos um ser humano: se no lugar de sujeito ou objeto. Se olharmos para alguém como objeto, podemos fazer com ele o que quisermos: dar conselhos dizendo o que é melhor para a sua vida, colocar dentro de uma embalagem plástica e rotular com as inúmeras possibilidades de transtornos disso e daquilo (nomes não faltam), subjugamos mais ainda o nosso objeto em suas relações com o trabalho. Isso e muito mais se imaginarmos as mil coisas que se pode fazer com um objeto. Se o vemos como sujeito, antes de tudo, perguntaremos a ele “o que você quer?”, mesmo que seja uma criança. Ainda que não tenha esta resposta, já que pode ter passado anos e anos objeti-ficado, então é preciso construí-la. A um sujeito não se pode embalar e rotular, ele tem pernas e pés que caminham sozinhos. Trata-se, portanto, de uma construção frasal que envolve sujeito, objeto, etc, etc,.  Um sujeito precisa, mesmo que seja difícil, olhar para onde seus pés o estão levando. Faz parte da ética do psicólogo sair do lugar daquele que sabe, para o lugar de fazer querer saber ao outro. É simples. É só não esquecer nunca: objeto → sujeito.


O que deve fazer então um psicólogo clínico? objeto → sujeito. Perguntamos ao paciente: O que você quer?,Que história você construiu? Que parte te cabe em seu sintoma? Ao invés de dar conselhos e respostas, que jamais terão serventia nenhuma para ninguém.


E o psicólogo escolar? objeto → sujeito. Perguntamos que lugar ocupa uma criança na família, na escola, na sala dos professores? Nos inúmeros diagnósticos? Colocamos a criança para falar e oferecemos nossa escuta, não clínica, mas sobre o contexto em que aquela determinada criança está.


E no campo das organizações? O que deve fazer um psicólogo? Para além de todos os meus preconceitos pessoais com essa área de atuação, digo que tudo depende, mais uma vez da equação: objeto → sujeito. Se um psicólogo pensa que o trabalhador é parte de uma massa de mão de obra cuja função é a de gerar lucro, e não há nada que possa fazer por ele, sinto em dizer que faz das pessoas objeto. Mas se sabe que mesmo com todas as dificuldades desse trabalho é possível ao menos saber o nome de cada pessoa (sujeito), trabalhar pelo bem-estar delas, apesar de, já é um bom começo.


Há muitas outras possibilidades de atuação, mas o princípio é o mesmo: objeto → sujeito. Este é, pra mim, o que resume nosso código de ética profissional. Sempre que surge uma dúvida em relação ao que fazer numa determinada situação, eu tento pensar se a atitude que tomarei colocará a pessoa no lugar de objeto ou sujeito.


Estou desde ontem enroscada com esse texto, achando ruim e sem saber como terminá-lo. Mas acabo de pensar numa saída!


Ser psicólogo não é andar por aí de saco cheio de ouvir problemas. Muito pelo contrário! Aquilo que parece problema é a chave da história daquele sujeito. Nós psicólogos adoramos passar o dia ouvindo novas histórias, cheias de aventuras, e mesmo aquelas monocórdias, que se repetem e repetem. De tanto contar, um dia o enredo muda. A fala de um paciente é algo como música, e a cada um que chega, afinamos nossos ouvidos para que saibamos ouvir. Ser psicólogo é saber ouvir bem uma história, ou uma música, independentemente do gênero que ela comporte (drama, comédia, tragédia), pois cada um tem suas próprias preferências!


Isloany Machado, 27 de agosto de 2013.

7 comentários:

  1. Nao concordo com a parte do psicologo organizacional. Ele trabalha en prol da qualidade de vida do trabalhador, pois existe a necessidade do ser humano em trabalhar, e nao so gerar lucros para a empresa, mas que o colaborador tambem possua um trabalho que possa se sustentar.

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  2. Faz parte da ética do psicólogo sair do lugar daquele que sabe, para o lugar de fazer querer saber ao outro. É simples. É só não esquecer nunca: objeto → sujeito.Parabéns
    !

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  3. Sr. Anônimo, daí na discussão não é o psicólogo nem o trabalhador, é o trabalho.
    Adorei! E, particularmente, arrasou no desenrosco!! rss

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