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domingo, 29 de setembro de 2013

Primeiros aprendizados sendo professora


 
Desde o dia 11 de setembro deste ano estou aprendendo a ser professora. Esta data é um tanto catastrófica em nosso imaginário social, foi um dia marcado por ser desastroso. Entretanto, não posso dizer que meu primeiro dia de aula, não mais como aluna e sim como professora, tenha sido catastrófico. Tudo me leva a crer que estou construindo minha identidade como professora. Devo confessar que depois do primeiro dia de aula saí da Universidade meio que sem saber direito quem eu era, nem para onde ia. Socraticamente pensei, só sei que nada sei. Então, trata-se de um aprendizado. Desde este dia, já aprendi algumas coisas:

domingo, 22 de setembro de 2013

Carta de despedida




Querida mamãe,

Estou escrevendo para me despedir de você e de todos os meus queridos. Partirei esta madrugada em busca de uma pessoa. Penso que talvez não compreenda minha decisão, mas quero que entenda que nunca amei assim antes. Ela tem olhos tão sedutores, mas tão sedutores, que me fazem acreditar que ali estão todas as respostas do mundo. Mamãe, estou apaixonado! E que prazer encontro ao sentir o perfume de seus cabelos! Não posso mais viver longe dela. Eu andava por aí perdido neste mundo mamãe, sem saber que rumo tomar. Já havia perdido tudo que tinha, até mesmo meus mais ternos amigos. Eu vivia entorpecido, alcoolizado. Foi aí que ela surgiu. Mas não pense minha querida mãe, que você tem culpa em meu sofrimento. Cada um faz o que pode com o que tem da vida e eu sei que você me amou com tudo que podia. Então não chores com a minha partida, nem se culpe pelo fato de eu querer me lançar nos braços de outra mulher. Um dia você vai conhecê-la. Ela é tão doce. É uma promessa de gozo incalculável. Todo o meu ser pulsa por ela muito mais do que por qualquer outra coisa na vida. Chega a doer. Imagino que ao lado dela as horas todas passarão e persistirá um tempo despovoado e profundo, para usar as palavras de Cecília Meireles. Nesta madrugada eu me lançarei ao seu encontro num salto. Tomarei uma garrafa de whisky antes de encontrá-la. Calma mamãe, eu preciso ir embriagado porque sua beleza é tanta que me ofusca, não me é possível olhá-la assim tão sóbrio. Parto feliz e peço mais uma vez que não chores por mim. Se quiser, reze por mim, para que eu encontre as respostas que a vida não me deu, nesse amor tão grande que sinto por ela. Sei que as pessoas me julgarão por este ato aparentemente impensado, mas já pensei muito, hesitei, relutei. Não posso mais adiar este encontro. Diga a meu pai que não sou covarde, que é preciso muita coragem para deixar tudo por ela.

Com amor, seu filho.

Isloany Machado

Campo Grande, 24 de maio de 2012.

domingo, 15 de setembro de 2013

Açúcar é veneno

Outro dia estava com os olhos do avesso e uma cena brilhou diante de mim. Uma mulher estava sentada no ônibus e eu em pé. A visão que eu tinha era, portanto, de cima pra baixo. Eu não havia reparado nela até o momento em que um vendedor de cocadas entrou também. Ela perguntou o preço e comprou duas cocadas. Imediatamente guardou uma delas para alguém. Imaginei que não fosse para o marido, mas sim para o filho. Devia contar com aproximadamente 35 anos, mas aparentava mais. A pele estava manchada de sol. Nas unhas das mãos e dos pés trazia um esmaltezinho dourado que já estava desbotado. O das mãos estava carcomido até a metade das unhas por causa de algum sabão forte que tenha usado ao longo dos dias. Parecia mesmo que havia acabado de lavar roupa, porque os dedos ainda estavam meio enrugados. A blusa era de uma malha roxa e estava cheia de bolinhas pelas contínuas lavagens e pela pouca qualidade do tecido. Seus peitos eram murchos e da região abdominal pendia uma protuberância de gordura. Os cabelos estavam amarrados em um rabo-de-cavalo e na parte frontal da cabeça, dois chumaços estavam vigorosamente arrepiados, eletrizados, sem que ela demonstrasse qualquer preocupação. Usava um batonzinho rosa claro que não cobria a boca toda, dava pra notar que fora aplicado apressadamente. Prestei atenção nela enquanto comia a cocada, pois notava a satisfação em seu rosto. Parecia ser uma dessas pessoas cuja vida não é fácil, que precisa contar moedas para passar o mês. Então imaginei que teria hesitado antes de comprar a cocada, mas enfim pensara: “eu mereço afinal!”. Alguém que tenha muito dinheiro nem sonha em como é obter uma satisfação dessas, pois seus desejos não podem ser realizados com uma pequena carga de açúcar no sangue. Então, ela comia a cocada e eu observava a cena. Os farelos caíam e ela ficava inconformada, pois cada pedacinho devia ser fundamental. Observei que em seu colo estava pousava uma bolsinha média, branca, mas encardida de tão usada. Os farelos da cocada depositavam-se nela. Então a mulher rapidamente espantava-os de cima de sua bolsa. Não pude deixar de notar que esta trazia um logo metálico com as seguintes letras entrelaçadas: VH. E a estampa era um embaralhamento das letras V, C, I, T, R, R, O, H, G, U. Entendi o motivo pelo qual ela limpava tão cuidadosamente os farelos, pois mesmo não sendo original, há um valor afetivo implicado numa bolsa dessas. Ela continuava comendo a cocada e os farelos a cair. Segui pensando na satisfação do açúcar e lembrei que sempre ouvi meu pai dizendo que “açúcar é veneno!”. Então imaginava o pote de açúcar com aquela figura emblemática da caveirinha avisando de um grande perigo letal. Pensei nas palavras de meu pai e olhei de novo para a mulher. Temi que a qualquer momento ela pudesse cair dura no chão. Os minutos passavam e ela não caía. Então pensei que podia alterar a sentença do meu pai “açúcar é veneno” por “o açúcar, se consumido excessivamente, pode ser como um veneno para o corpo, ou seja, pode ser muito prejudicial em longo prazo”. Transformei uma metáfora em uma comparação. Benditas sejam as figuras de linguagem. Feito isso, comprei uma cocada e saltei do ônibus, pois era chegada a hora de minha descida.  

Isloany Machado

Escrito em 20 de junho de 2012.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

O presente




Para a família Carneiro

Só conheço, de perto, duas pessoas com mais de 90 anos. Uma delas é Manoel de Barros, que conta com mais de 90. Sim, eu o conheci pessoalmente, estive com ele por uns dez minutos e quase morri do coração. Eu precisava dizer a ele o quanto eu gostava do seu trabalho. Disse. Chorei. Disse. Chorei. Ele riu. A pele das mãos fininha, o cabelo branco, muito branco. E ria. A outra pessoa que conheci, não menos importante, é Ávido Carneiro, avô de Andréia Carneiro, minha amiga. Em agosto fez 90 anos e teve festa pra comemorar. Fui convidada. Ele havia lido meu livro Costurando Palavras e disse que queria conhecer a autora.

domingo, 1 de setembro de 2013

O não-ser do psicólogo


Não, não adivinhamos pensamentos.

Também não lemos cartas e tarôs, menos ainda a mão.

Não analisamos as pessoas o tempo todo.

Não apertamos os parafusos da cabeça de ninguém.

Não consertamos “crianças problemáticas”.

Não?

Não.