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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Duro de cair



Para Heder, com carinho.

A minha família é cheia de gente doida. Antes achava que isso não era normal, que eu também era doida por culpa da minha família. Demorei muitos anos pra perceber que todas as famílias são doidas e que, como diria Caetano, de perto ninguém é normal. Eu só fui entender isso quando fiquei longe da minha doida família. Agora sinto saudades. Talvez agora o tempo tenha cavado uma vala muito distante entre nós. Daqui eu continuo sim senhor a reproduzir as doidices familiares, com muito prazer, com muito gosto. Entendi que não preciso parar, desde que não seja nada muito mortífero. Pois foi pensando nisso que lembrei de vários casos de tragédias em minha doida família, algumas fatais, outras paralisantes, outras alienantes. E foi por isso que meu coração se encheu de alegria quando soube que um dos meus primos ia se formar em Direito. Não que isso seja uma raridade na família, há outros primos bem formados, mas este tem um lugar especial. Tomara que os outros não fiquem enciumados, mas tenho que dizer isto. Esse primo é só um ano, um pouco menos, mais novo do que eu. De modo que a diferença é tão pouca que eu mamei na teta da mãe dele, minha tia, no caso. 


Diz a lenda familiar, que eu estapeava o rosto dele pra ficar com a teta mais cheia de leite e mais fácil de mamar. Assim foi que sempre nos amamos, desde bebês. Somos irmãos de leite. Na infância, eu ria dele com seus tropeços na linguagem. Ao invés de dizer “capacete”, ele dizia “pacacete”, e eu fazia bullying com ele, mesmo sem saber que tinha esse nome complicado. Como resposta ao meu bullying, ele dizia, aos berros: “Mãe, né que não é pacacete, é pacacete?”. Aí mesmo que eu ria. Há um dizer dele que levamos, em nossa doida família, até hoje, incluindo meu marido. Ele tinha uma seringa com a qual brincava muito e um dia a seringa sumiu. Meses passados ele a encontra e, radiante, diz: “ahá xuringa véia, te achei. Achei minha xuringa”. Agora, sempre que encontramos um objeto sumido há tempos, exclamamos: “Achei minha xuringa”. Certamente ensinarei essa para meus filhos também.

Um pouco mais tarde, na nossa pré-adolescência, ele foi morar em minha casa. Estudávamos em escolas próximas e íamos caminhando pras aulas. Eram aproximadamente 30 ou 40 minutos de caminhada, tempo em que conversávamos sobre sei lá o quê. Não sei pra ele, mas pra mim foi como ter um irmão mais novo. Não me lembro de termos brigado nessa época. O tempo passou e ele foi embora, voltou pra casa da mãe. Eu também fui embora, saí da casa da mãe. Nos tornamos adultos. E numa das curvas do caminho que a vida segue, ele tropeçou e caiu. Caiu numa vala e quebrou irremediavelmente a coluna. Foi com o peito esmagado que aos poucos fomos sabendo que ele não voltaria a andar, ou melhor, a ter os movimentos das pernas. Eu entrei em desespero, porque pensei que quando se quebra a coluna de uma casa, por exemplo, ela geralmente vai à ruína. E contando que todas as tragédias que aconteceram na nossa louca família foram um tanto paralisantes, temi por ele. Temi por sua reação, pela forma como lidaria com esta perda. Me faltava coragem para perguntar pra ele como estava. A distância geográfica às vezes me favorece por me deixar longe da maioria dos problemas familiares. Já estava caminhando de costas pela estrada da vida quando de repente ouvi um rumor de rodas. Quando me virei, lá estava ele, se reerguendo, agora sobre duas rodas. E quando eu achei que era isso, um reerguer-se para que a vida simplesmente continuasse, lá estava ele entrando pra faculdade de Direito. E quando tentaram lhe dar uma rasteira dizendo que desistisse da faculdade por causa das dificuldades que encontrava com suas feridas que nunca cicatrizavam, agora já não podiam mais, ele não caía. E ele me disse: “Eu nunca tinha me sentido discriminado antes”. Mas de nada adiantavam agora as rasteiras, as rodas sempre deslizavam e o mantinham em pé, fazendo com que fosse adiante. Ele se formou semana passada. Eu não pude ir, mas estive pensando nele. Meu coração se acalmou ao perceber que das rodas ele fez asas. Outro dia veio me dizer que agora quer saltar de paraquedas. Desejo que voe, cada vez mais alto, pois se cair, tenho certeza que cairá em pé.

Isloany Machado, 21 de agosto de 2013.

6 comentários:

  1. Bonita história de teu primo. Superações após um acidente nos remetem ao curso de nossas vidas, sempre plena de obstáculos. Superá-los nos forjam seres mais fortes e compreensivos. Teu primo exercerá a profissão com sucesso e compreensão, marcas de quem enfrenta a vida de cabeça erguida e olhar no horizonte. Bom texto.

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  2. "Muitas vezes os desafios nos pedem coragem,
    a força não reside no desafio por maior que ele seja.
    Acreditar é o primeiro passo pra vitória.
    Pois, o guerreiro percebe sua força.
    Quando esta no campo de batalha.
    Onde todas as etapas, exigem uma estratégia diferente.
    Lembrando que o peso da luta
    aumenta a alegria da vitória".
    Abrace seu primo por mim, quando o encontrar.
    Peço que diga a ele as palavras que escrevi em agradecimento, pela determinação a qual desconheço palavras para explicar. Parabéns a toda família, que acreditou na superação junto com ele. Abraços fraternos!
    Jairo Medeiros da Silva
    Uberlândia, 26 de agosto de 2013

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    1. Darei o recado sim Jairo, obrigada pelo carinho!

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  3. Toda família tem suas loucuras e na maioria delas encontramos a sincera felicidade
    ...parabéns ao Helder .

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  4. Agradeço a todos pelos comentários da minha querida prima irmã dedicadas a mim e nossa família.

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