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domingo, 11 de agosto de 2013

Carta 8 – Sobre a presença da ausência, o indizível, a transitoriedade e a eternidade.




Meu pequeno,

Todas as vezes que você vem me visitar e vai embora, fica um buraco tão grande! Li um poeta que diz ser a saudade algo como a presença da ausência. Então pensei que tem muita presença de sua ausência aqui no meu peito. O seu cheirinho ficou na minha cama depois do último cochilo que você tirou aqui. Mas já deve estar cansado de tanto eu dizer das saudades que sinto, não é?

Na verdade estou às voltas faz muito tempo para falar de uma coisa indizível. E mesmo agora estou pensando como te dizer algo que nem mesmo eu sei definir. Meu querido, você ainda é muito jovenzinho. Vi que seus dentes estão começando a nascer e você quer usá-los. É a vida que segue crescendo em você Henrique! A vida, assim como o tempo, não para. E é sobre isso que eu queria falar com você, mas como dizer?

Sabe Henrique, a vida caminha dia-a-dia para seu próprio fim. Cada dia que passa, cada explosão de vida que há em nós é, na verdade, um fenecer. Há um sonho que me persegue há anos no qual sinto meus dentes se esvaírem de minha boca, ora esfarelando, ora caindo inteiros, ou aos pedaços. É o sonho mais desesperador que eu tenho. Demorei outros tantos anos para entender que é o meu medo do fim se presentificando nas noites em que nego, narcisicamente, que meu tempo aqui é limitado. Cada objeto que cai de nós é uma perda irreparável. Alguns poetas me ajudam a lidar com esse triste real que não cessa de me deixar cara a cara com o vazio. Manoel de Barros disse: “Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.” E foi exatamente assim, sem voz diante de uma ladeira tão inclinada, que eu fiquei ao descobrir que a gente cessa. Me desculpe se eu estiver sendo dura com você que é ainda tão pequeno, mas sei que em algum momento isso vai te ajudar a saber o que fazer quando descobrir que um dia o mundo abandona nosso olho. Isso também foi Manoel de Barros que disse.

“Quando o mundo abandonar o meu olho.

Quando o meu olho furado de belezas for esquecido pelo mundo.

Que hei eu de fazer?

Quando o silêncio que grita de meu olho não for mais escutado.

Que hei de fazer?”

 

Henrique, essa é uma pergunta que somente cessa quando a gente cessa, mas ela não tem resposta. Ninguém sabe como é acabar, por isso eu disse antes que é algo da ordem do indizível. Aqui onde vivemos, o que se faz diante do fim, é chorar. Lembra que eu disse que cada perda é irreparável? Pois é, a experiência da dor da morte somente é vivenciada quando se trata da perda de alguém que amamos. Você não imagina o quanto isso é difícil. Sabe o que me ajuda a lidar com isso? A arte. Tia, o que é arte? É o que você deve estar me perguntando. Pode haver várias definições do que é isso, mas vou te dizer o que significa pra mim. A arte é o que me permite sonhar, é o que me faz acreditar que o mundo pode ser melhor, sempre. A arte é a ferramenta que eu uso para lidar com o fenecimento do meu corpo. É a caneta que escreve a saudade que sinto de você, fazendo com que ela seja um pouco mais suportável. É a letra que me diz quem posso ser. A arte é o que melhor eu tenho para remendar as fendas que o tempo foi fazendo na minha alma. Eu lembro de uma cena que vi num filme e me marcou muito. Havia um menino que perdera a mãe e não estava conseguindo lidar com isso. Então uma pessoa muito especial disse a ele que a morte é como um véu, e esse véu se escancara quando perdemos alguém que é muito importante para nós. Então ficamos cara a cara com a nossa condição humana mais dura. Mas depois de um tempo ele se fecha novamente e as coisas voltam ao normal, mesmo que cada perda seja irreparável. Lá vou eu te dizer com as palavras de Manoel de Barros de novo: “Morrer é uma coisa indestrutível”, é “uma solidão destampada”. E não é? Não há como fugir, mas temos que viver tampando solidão. Eu me arriscaria a dizer que viver é tampar solidão. Nós temos que viver como se nunca fôssemos morrer, é preciso que seja assim. Mas sei lá, isso é ainda muito complexo pra mim. Desculpe os devaneios, meu pequeno, dessa sua tia que vive a buscar o sentido da vida.

Nessas minhas buscas Henrique, eu já descobri muitas coisas. Vou te contar um pouco. Algumas pessoas não suportam o fato de que a vida caminha dia-a-dia para seu próprio fim, e aceleram o processo. Elas cortam a estrada e, ao invés de andar lentamente, saltam ansiosas. Você pode estar pensando que isso faz sentido, já que morrer é indestrutível, é inevitável. Mas sabe, meu querido, eu aprendi com o senhor Freud, já falei dele pra você, sobre a transitoriedade. Tudo o que é vivo, é também transitório. Cada flor que nasce, com todo o esplendor da beleza que possui, está fadado à decadência. Porém, Henrique, existem duas saídas: ou passamos a vida a nos lamentar com a possibilidade sempre presente do fim e não vivemos, ou nos rebelamos contra a transitoriedade e dizemos, como Freud: “Não! É impossível que toda essa beleza da Natureza e da Arte, do mundo de nossas sensações e do mundo externo, realmente venha a se desfazer em nada.” O valor da beleza de uma flor não pode ser diminuído pelo fato de que, um dia, fenecerá. Pelo contrário, ele só aumenta. A vida não pode ser menos importante porque não é eterna. Esses dias eu e seu tio perdemos uma cachorrinha que muito amamos e ficamos com medo de ter outra, com medo de perdê-la um dia também, mas hoje chegou um bebê cachorro aqui e não pudemos resistir a essa vida que se inicia. Existe muito amor para gastar nesse mundo. Escute o que o senhor Freud disse: “Quanto à beleza da Natureza, cada vez que é destruída pelo inverno, retorna no ano seguinte, do modo que, em relação à duração de nossas vidas, ela pode de fato ser considerada eterna. A beleza da forma e da face humana desaparece para sempre no decorrer de nossas próprias vidas; sua evanescência, porém, apenas lhes empresta renovado encanto. Um flor que dura apenas uma noite nem por isso nos parece menos bela.”

Veja, meu querido, não há motivos para pensar que não sejamos eternos, ainda que o corpo não o seja. Nossa eternidade pode ser construída como fruto do tempo em que vivemos. Inventamos nossa eternidade cada vez que nos levantamos de uma queda e seguimos adiante. Inventamos nossa eternidade através da arte. Você e os que vierem depois são também uma parte de nossa eternidade, carregam o bastão da perenidade. As histórias que vivemos, ouvimos e contamos são nossa eternidade inventada.

Você entende isso Henrique? Não somos eternos, mas somos, ao mesmo tempo. E é isso o que nos faz querer viver. Um dia você entenderá.

Eu só quero que você viva, e lembre-se que cada segundo é pra sempre.

Milhões de beijos, da titia que te ama.

Isloany Machado, 04 de agosto de 2013.       

 

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