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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Duro de cair



Para Heder, com carinho.

A minha família é cheia de gente doida. Antes achava que isso não era normal, que eu também era doida por culpa da minha família. Demorei muitos anos pra perceber que todas as famílias são doidas e que, como diria Caetano, de perto ninguém é normal. Eu só fui entender isso quando fiquei longe da minha doida família. Agora sinto saudades. Talvez agora o tempo tenha cavado uma vala muito distante entre nós. Daqui eu continuo sim senhor a reproduzir as doidices familiares, com muito prazer, com muito gosto. Entendi que não preciso parar, desde que não seja nada muito mortífero. Pois foi pensando nisso que lembrei de vários casos de tragédias em minha doida família, algumas fatais, outras paralisantes, outras alienantes. E foi por isso que meu coração se encheu de alegria quando soube que um dos meus primos ia se formar em Direito. Não que isso seja uma raridade na família, há outros primos bem formados, mas este tem um lugar especial. Tomara que os outros não fiquem enciumados, mas tenho que dizer isto. Esse primo é só um ano, um pouco menos, mais novo do que eu. De modo que a diferença é tão pouca que eu mamei na teta da mãe dele, minha tia, no caso. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O céu dos cachorros




Juli Preta, desculpe a demora em falar com você. Antes não era possível porque as palavras fugiam e, além disso, eu achava que quando um cachorro morre, ele acaba. Mas a sua médica, quando nos deu a notícia de sua partida, disse: “De onde ela está, sabe que vocês fizeram tudo o que podiam por ela”. Desde esse dia estou às voltas com a ideia de que há um céu dos cachorros. E pode ser que aqueles que são bonzinhos como você vão para o céu dos cachorros. Quando pensei em te escrever, fiquei com medo de despejar algo muito muito triste, porque você não era triste, pelo contrário, eu nunca vi uma cachorra tão feliz como você. Mas é claro que eu preciso dizer que não foi fácil nem pra mim nem pro seu pai lidar com a sua partida. Arre. Dizer que estamos com saudade seria falar mais do mesmo. Agora essa ideia do céu dos cachorros não sai da minha cabeça. De todas as vezes que ouvi falar do céu, ninguém nunca disse que havia cachorro lá, e eu sempre perguntava “por que não?”.

domingo, 11 de agosto de 2013

Carta 8 – Sobre a presença da ausência, o indizível, a transitoriedade e a eternidade.




Meu pequeno,

Todas as vezes que você vem me visitar e vai embora, fica um buraco tão grande! Li um poeta que diz ser a saudade algo como a presença da ausência. Então pensei que tem muita presença de sua ausência aqui no meu peito. O seu cheirinho ficou na minha cama depois do último cochilo que você tirou aqui. Mas já deve estar cansado de tanto eu dizer das saudades que sinto, não é?

Na verdade estou às voltas faz muito tempo para falar de uma coisa indizível. E mesmo agora estou pensando como te dizer algo que nem mesmo eu sei definir. Meu querido, você ainda é muito jovenzinho. Vi que seus dentes estão começando a nascer e você quer usá-los. É a vida que segue crescendo em você Henrique! A vida, assim como o tempo, não para. E é sobre isso que eu queria falar com você, mas como dizer?

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Carta de amódio




Para minha mãe.

Um amor de mãe nasce com a pessoa? O amor de filho é menor que o de mãe? O amor fica e o ódio, bem, o ódio jogamos debaixo do tapete. Ele nos marca de outras formas, faz o peito ficar esmagado, traz culpa. Amor de mãe precisa ser, mas não nasce incondicional. Às vezes me pergunto se amor de filha também precisa ser assim, incondicional. Olho as outras pessoas. Pensando em tudo isso entendi que sinto amódio, mas por que é tão difícil te dizer?