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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Porque tudo aquilo que começa, um dia acaba


Só me dei conta de sua presença quando, depois de entrarmos no mesmo ônibus, ele quase caiu com uma freada brusca. Rapidamente peguei de suas mãos as duas sacolas que carregava com dificuldade por causa do peso. Do peso da idade mais que o das sacolas. Depois de passado o susto, ele me olhou agradecidamente e disse que antigamente carregava nas costas um saco de cimento, de um lado um saco de cal e do outro alguma coisa bem pesada também que agora já não consigo mais me lembrar. Agora já não podia nem com dez quilos. Não disse isso em tom de lamentação, mas de nostalgia. Continuou:


- Faz três anos que eu parei de trabalhar, não posso mais carregar peso.

- O senhor já carregou bastante pelo jeito né? Já está bom, trabalhou muito.

- É, e não quero ficar viúvo não. Não quero ir pra terra dos “pé junto”. Dizem que o viúvo é aquele que vai pra terra dos “pé junto”.

- Mas o senhor é aposentado?

- Sim, faz tempo. Eu não posso mais trabalhar. Me saiu uma hérnia aqui...

Enquanto ele falava e desenhava seus problemas de saúde na própria barriga, dizendo os motivos pelos quais não podia fazer cirurgia, eu não podia tirar os olhos do seu olho de vidro. Eu só percebi que era de vidro quando notei que somente o direito piscava, enquanto o esquerdo estava sempre aberto, vazio. Sua expressão não era de quem procura invocar pena. Ele falava, falava, mostrava aqui e ali no próprio corpo. Falava da terra dos “pé juntos”. Aos poucos fui notando que eu entrara numa espécie de bolha em que nenhum som tocava meus ouvidos. Mas não foi por descaso ou desinteresse. Me explico. Quando vi seu olho de vidro, imediatamente me lembrei de Baleia, a personagem-cachorra-humana-demasiadamente-humana de Vidas Secas. Baleia é o membro da família cujo coração é menos grosso, ela pensa e sente como um humano. Fabiano, o pai da família, decide sacrificá-la quando aparece uma doença que a deixa debilitada, ele pensa que é hidrofobia (raiva) e não pode colocar a vida de seus filhos em risco. O problema é que o tiro não mata Baleia de uma vez e ela sangra até o fim. No meio da caatinga, os abutres voadores furam os olhos daquela presa, já indefesa. A cena persegue Fabiano, que teme a ameaça dos abutres, que furam os olhos das futuras presas. Ainda dentro da bolha, pensei naquilo que Freud aponta ao falar do estranho, sobre o medo de perder os olhos como correlato ao medo da castração. Enquanto aquele senhor falava de um jeito bem-humorado de suas faltas, eu ria junto com ele. Mas quando vi o olho de vidro, senti o meu desamparo em seus olhos. Que abutre teria arrancado? Teria sido a máquina formal do trabalho? Ali estava Baleia na minha frente. Senti vontade de abraçá-lo e dizer “vai ficar tudo bem”. Ele era Baleia, eu, Fabiano. Senti vontade de abraçá-lo e dizer “vai ficar tudo bem?”. A minha juventude, o meu narcisismo, ameaçados ambos pela visão do olho de vidro.

- Agora eu vivo com a aposentadoriazinha e mais um dinheiro que recebo de aluguel. Mil e pouco dá pra viver bem. Tá bom né? Ainda consigo guardar seiscentos reais por mês.

- Por que o senhor guarda? Por que não gasta, vai deixar pra quem?

- Se um dia eu preciso de uma consulta, eu pago. Não preciso depender da porcaria do governo. Você devia fazer isso também, guardar trinta por cento de tudo que ganha. Nunca se sabe o dia de amanhã.

Eu tive que concordar com ele. Com um riso nos lábios, com o olho esquerdo a olhar para o nada, ele concluiu:

- Diz que tudo que começa, um dia acaba.

- É.

O caminho da queda do narcisismo é longo. Aquele olho era o pedaço de carne aprisionado na máquina formal, como disse Lacan sobre o objeto a. Mas não era o pedaço de carne dele, minha Baleia, era o meu, a minha libra de carne a ser cobrada pelo judeu. E por que ele ria ao falar da terra dos “pé junto”? Percebi que a única coisa que pode nos fazer rir de nossa condição humana-Baleia-demasiado-humana, é agarrarmo-nos com todas as forças aos recursos da linguagem. Dizer nua e cruamente do real não é necessário, nem possível. Assim, ludibriamos um pouco a “indesejada das gentes”, nossa inevitável ida para a terra dos “pé junto”, escondemo-nos dos abutres a rondar e mirar nossos olhos, e podemos dizer a nós mesmos “vai ficar tudo bem (?)” diante da constatação de que tudo aquilo que começa, um dia acaba.

    

Isloany Machado, 24 de junho de 2013.    

8 comentários:

  1. Muito bom. O destino de todos desnudado pelo homem do ônibus.

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  2. Muito bom, gostei de sua escrita de hoje. Foi por acaso que encontrei! Realmente, dar conta desta finitude é um grande despertar! grande abraço, Sandra

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  3. Oi... já estou até usando... é o pé de página da minha prova de Psicodiagnóstico de 5ª... bjo!!!

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    1. Lú, você é uma fofa. Obrigada por divulgar. ;)

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  4. Impressionante o quanto você consegue colocar de si nos seus textos, costurando-se na sua escrita de uma forma ininterrupta, até as últimas palavras, o que é um verdadeiro golpe de estilo que prende o interesse. "Me acabo" de ler e creio e espero que outros também se acabem ... Parabéns.

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    1. Carlos, obrigada pelo comentário. Fiquei emocionada com o seu "me acabo"...eheheh.

      Grande abraço.

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