Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O melhor roubo da história

* Este conto ganhou o prêmio Ulisses Serra, da Academia Sul-mato-grossense de Letras, edição 2012. Foi isto o que me motivou a publicar o livro Costurando Palavras.
           
Eu não tenho vergonha, nem medo de dizer que fui ladrão. E, antes que alguém me julgue e condene, vou contar minha história. Não pense que delinearei aqui uma triste história de um pobre coitado que teve de roubar para viver, ou para dar leite aos filhos. Nada disso. A verdade é que eu iniciei minha carreira roubando chocolates no supermercado, ainda criança. Com o tempo fui desenvolvendo técnicas e minha mão tornava-se cada dia mais leve. Tinha tantos chocolates, não é possível que sentiriam a falta de unzinho na barriguinha de um menininho.

            Quando já estava profissional decidi que roubaria bolsas, estava me graduando para um dia fazer um grande roubo, como desses de filmes, em algum banco. Já havia roubado três bolsas, mas não havia conseguido muita coisa de valor. Na primeira delas havia uma quantidade de dinheiro razoável; na segunda, alguns pacotes de chicletes; na terceira havia vários batons, que dei para minha mãe. Mesmo sendo profissional, a atuação com o roubo de bolsas não foi tranquilo, dizem que mesmo os grandes atores ou palestrantes famosos, sentem frio na barriga a cada atuação. E eu não era diferente. Quando me arrisquei à quarta atuação com bolsas foi que aconteceu a grande virada em minha história.

            Eu atuava de bicicleta, pois precisava ganhar distância muito rapidamente. Um dia, no entardecer fiquei amoitado em uma rua com menos movimento. De repente surgiu uma moça de uns 25 anos aproximadamente com uma bolsa enorme e brilhante. Mascava chicletes e andava tranquilamente pela rua. Aproximei-me dela pelas costas e, ao chegar perto puxei a bolsa sem pedir autorização. Tive que pensar rápido, pois era bela e temi que, ao manter qualquer tipo de diálogo com ela, desistisse da ação. Todo profissional tem lá suas técnicas de trabalho. Puxei a bolsa sem nem olhar direito pra ela e voei rua afora. Já perto de casa e em segurança abri a bolsa.

Na carteira havia uma mísera moeda de cinco centavos. Seu documento de identidade confirmou o cálculo que fiz da idade com uma pequena margem de erro: 27 anos. Uma cartela de anticoncepcional pela metade; algumas balas sete belo; dois batons: rosa e vermelho; uma escova de dentes; uma barrinha de chocolate; uma maçã, um sal de frutas, um espelho e outras coisas que já não me lembro. Mas o que havia de mais importante eu ainda não disse e fico emocionado só de lembrar. Dentro daquela bolsa havia um livro.

Depois de vasculhar a bolsa e recolher o que não me interessava dentro dela de novo, no dia seguinte procurei um terreno baldio e joguei-a fora. A única coisa que esqueci de juntar foi o livro, que ficou esquecido no canto do meu quarto por alguns dias. Ah, guardei também a moeda de cinco centavos como minha moeda da sorte. Dias depois, como eu começava a trabalhar somente ao cair do dia, não tinha nada que fazer e lembrei-me do livro caído no canto. Peguei-o e li na capa: “Robinson Crusoé”. Folheei e vi que não havia desenho algum, eram muitas letras, mas, com todo o tempo livre, iniciei a leitura.

No tempo de dois dias li todo aquele livro, não conseguia parar. Contava a história de um sujeito muito do teimoso que, contra o conselho de seu pai, vai viajar pelo mar até que um dia o navio em que estava bate contra um rochedo num dia de tempestade e somente ele sobrevive, pois consegue chegar à terra firme. Eu sofria com ele todas as atribulações de um homem que viveu, durante 28 anos, sozinho numa ilha. Lembro-me que ele tinha uma porção de dinheiro em papel e um pouco em ouro, mas aquilo era risível na situação que se encontrava. Até um pedaço de corda ou uma faca lhe seriam mais úteis. Nunca pensei que pudesse viajar para tão longe sem sequer sair do lugar. Fiquei deslumbrado.

No dia seguinte, em meu próximo roubo, educadamente pedi à senhora que me desse apenas seu dinheiro, não precisava de mais nada. Eu estava ansioso para ir a uma livraria que ficava no centro da cidade, vendia livros usados. Pensei que poderia bem comprar livros de segunda mão, porque ler não gasta o livro. Eu queria viajar de novo. Fugir daquela minha vidinha medíocre e sem graça de ladrãozinho cuja maior aventura era causada pelo medo de ser pego pela polícia. Achei uma promoção de vários livros do detetive Sherlok Holmes. Li todos em menos de um mês. Fiquei perito em descobrir pistas e sabia até quando algum passarinho afanava a comida de meu cachorro. Roubava agora só o suficiente para comprar os livros da promoção do sebo. Comecei até a ficar conhecido por lá.

A moça da livraria me vendeu uns livros que ela achava muito românticos, disse que as professoras recomendavam na escola. Mas desses eu não gostei não, as moças das histórias eram muito brancas, pálidas e frescas. Desmaiavam à toa e jogavam seus lencinhos para os homens pegarem. Eu preferia mesmo eram as histórias de Macunaíma, que viajava pelo Brasil inteiro e eu ia junto com ele. Agora passava mais tempo lendo do que roubando. Não havia mais emoção nisso, só pensava no próximo livro que iria comprar. Conheci Paris com Balzac, Praga com Milan Kundera, a Rússia com Dostoievski, e muitos outros lugares. Me tornei homem viajado. Construí no fundo de casa uma cabana, para imitar Crusoé. Adorava passar o dia lá, viajando pelo mundo.

A essa altura, já passava algum tempo conversando sobre literatura com a moça da livraria. Um dia cheguei lá e havia uma placa dizendo que estavam precisando de funcionário. A moça me incentivou e eu me inscrevi para a vaga, mas o que eu colocaria no meu currículo? “Experiência profissional: ladrão de chocolates e bolsas”. Não passaria mais da porta da loja. Então tive uma ideia, escrevi: “Experiência profissional: Leitor inveterado”. Na entrevista usei muitas palavras rebuscadas que havia aprendido nos livros, principalmente nos de Machado de Assis. Parece que convenci, consegui o emprego. O movimento da loja era mediano, não são muitas as pessoas que apreciam livros, quanto mais usados. Mas eu era um bom vendedor, contava as histórias de um jeito que incitava a curiosidade das pessoas e dava dicas de leitura.

Após alguns anos, me casei com a moça da livraria. E tempos depois decidimos montar nosso negócio: uma livraria que tinha também curso de redação. Eu já amava tanto a literatura que resolvi voltar a estudar e cursei letras. Sempre senti vontade de ir à ilha de Crusoé, buscar resquícios de sua estadia por lá, mas carrego isso como uma fantasia, sei que toda história é ficção. Talvez meu desejo seja o de voltar para o que eu era, encontrar ali os resquícios de mim, reconstruí-los. Queria encontrar aquela moça e devolver a ela o livro que roubei, talvez me desculpar e agradecê-la pelo “empréstimo”. Contar a ela o final das aventuras de Crusoé e também das minhas, pois, como disse Drummond, “eu não sabia que minha história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”.

           

Isloany Machado, 03 de agosto de 2012.

8 comentários: