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segunda-feira, 15 de julho de 2013

O buraco do ar condicionado



Nem sempre a memória nos privilegia com aquilo que realmente aconteceu. De qualquer maneira, confio nos desvãos de uma memória longínqua, que soprou em meus ouvidos esta narração. Estive mastigando esta história durante dias a fio, mas contá-la é difícil. Juntar todas as peças é uma tarefa impossível, pois ao menos uma ficou faltando, extraviada quem sabe no quintal da casa inacabada. Sem delongas, vamos ao que interessa. Trata-se da história de um casal. E, por mais que falar de amor sempre pareça piegas, não é de amor que falarei.

Eram casados há mais de quinze anos quando ele chegou com um ar condicionado. Não era um aparelho novo, mas digamos que havia feito um bom negócio. O lugar era muito quente e as noites passavam empapadas no suor de seus corpos que já se amavam mais pelo costume do que pela falta que sentiam um do outro e dos tempos em que não questionavam sobre as coisas do amor. Dizem que no início de um relacionamento, é de corpo que se trata e nada mais. Mas depois de tantos anos, ela vivia derramada em queixas sobre o calor insuportável que sentia naquele lugar.  Algumas noites chegou a dormir em pé, tal como um cavalo, embaixo do chuveiro, para sufocar o calor e para não ter que ceder ao cheiro de amor que o marido exalava.

Ela esboçou um sorriso ao ver o novo aparelho de ar condicionado, apesar de não ser exatamente novo. Ele, entusiasmado com a ideia de voltar a dormir com ela, depois de tanto tempo em que um grande vão cavou-se entre seus corpos, mandou logo quebrar o buraco na parede para encaixar o ar condicionado. Sem questionamentos, o pedreiro demoliu aquele espaço na parede, um grande espaço até, comparado com o tamanho total do quarto. Exultante, ele colocou o ar condicionado no buraco e ligou na tomada. Depois de várias tentativas, desistiu da empreitada, pois havia sido brutalmente enganado por sua própria ignorância. Fora trapaceado no excelente negócio. Definitivamente o ar condicionado não funcionou, nem naquele momento e nem nunca mais.

Ela tapou o rosto e saiu correndo, chorando casa afora com mais aquela decepção. Seu consolo era a água fria que descia pelo chuveiro e batia suavemente em suas costas todas as noites. No dia seguinte acordaram com um gigantesco feixe de luz que penetrava o quarto atravessando o buraco do ar condicionado. Agora ela podia se acostumar, pois o buraco estava feito, não havia volta. Ele não mandaria tapar. Na verdade, para ele, era como se o buraco ali não existisse, passou a fazer parte da estética do quarto, como um papel de parede.

Os dias passaram e os passarinhos começaram a visitar o buraco, cantavam cantigas alegres, mas apesar da imensa alegria instintiva dos pássaros, o quarto seguia taciturno como sempre. Enquanto cantavam, os pássaros cagavam seu excremento verde na beira do buraco. Meses depois, quando o sol já não estava tão forte, o calor aquiesceu, pois era chegada a época de chuvas. Um dia, ao acordar, ela avistou um ramo de hera que brotava na beirada do buraco. A princípio não se incomodou, achou que surgia ali alguma espécie de vida que fosse resgatar alguma coisa perdida há tempos entre ela e o marido. Mas com a passagem dos dias, a hera tomou conta do buraco, que era ainda buraco. E a parede que o continha foi sendo aos poucos tomada pela total esverdeação provocada pela planta.

E qual não foi seu susto quando um dia acordou e precisou escarafunchar a hera para resgatar seu marido, que já fora coberto por ela. Com ares de decisão, resolveu que acabaria com aquele problema de uma vez por todas. Arrancou todas as ramificações até chegar à semente expelida pelo maldito passarinho em seu excremento verde. Comprou cimento e tijolos para tapar o buraco. Mas é de se crer que este seja um trabalho pesado e, por mais que se esforçasse, não conseguiu concluir num dia só. Deixou faltando um terço e entregou-se ao cansaço, esquecendo-se até da chuveirada diária.

No dia seguinte, o buraco estava todo lá, escancarado novamente. Redobrou os esforços naquele dia, mas ainda um filete ficou de fora para fechar de vez aquela maldição de buraco. Quase caiu de costas ao acordar no dia subsequente, pois seu esforço fora em vão. Tentou ainda por algumas outras vezes, mas quando a chuva voltou a cair torrencialmente, desistiu de vez de remendar aquela parede. O marido dormia tranquilo com a chuva e o sol a desgastarem seu rosto diariamente. Não se dava conta da passagem do tempo e da distância cada vez mais funda que se fazia entre seus corpos.

Como última tentativa, ela comprou um pedaço de madeira e pregou sobre o buraco. Agora apenas uma pequena réstia de sol entrava por uma fenda na madeira. Apesar de sua insatisfação de sempre, tentou conformar-se mais com o caso. Mas alguns meses depois, quando se olhou no espelho ao sentir um leve gosto de verde na boca, ao abri-la viu que estava tomada pela hera. Não havia mais o que fazer. Foi ao médico e um exame minucioso constatou que todos os seus órgãos estavam tomados por aquela praga verde que crescia a cada dia, chegando ao ponto de sair em explosão por todos os buracos de seu corpo. Aos poucos sua voz ficou passarinheira, não articulava mais palavra, a única coisa que lhe saía da garganta era um canto triste e monótono de insatisfação. Numa manhã em que o sol brilhava como nunca, arrancou de um golpe só a madeira já mofada a cobrir o buraco e voou para o nunca mais.

Isloany Machado, 25 de novembro de 2012.

8 comentários:

  1. Gostei da metáfora. A vida de um casal, por vezes, vira um buraco ao passar do tempo. Haja tijolo e areia e um pouco do cimento cimento da boa vontade para fechar esses rombos na parede do amor.

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    1. Obrigada pelo comentário Marcos! Concordo com você, haja cimento! ehehhe

      Abraços

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  2. Percebo que a vida de casal,acaba por ter uma vida própria,aglutinados,sem preservar suas individualidades,faz o casamento ter o peso de várias pessoas(Figuras parentais,antigos namorados,)e a transgeracionalidade que ás vezes escraviza vidas que não se refletem, fixas e escravas de mandamentos que se repetem e tornam as relações meras repetições das relações parentais.

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  3. Isloany Machado, Boa noite!
    Foi por acaso que conheci seu blog, pois digitei no google "restia de sol", que é o nome do meu blog. Mas não será por acaso que serei sua seguidora! Acredite, li outros textos seus e fiquei emocionada! Como excelente costureira de palavras, o seu talento é tocante na alma, principalmente por escancarar a complexidade de um relacionamento e fazê-lo de uma maneira tão simples!
    Com carinho Rosana. restiadesol.blogspot.com.br

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  4. Rosana, que feliz coincidência! Obrigada pelo comentário, por seguir o blog e seja bem-vinda sempre!

    Grande abraço.

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  5. Que belíssima metáfora. Ganhou mais uma fã! Beijo

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    1. Helitelma, obrigada pelo comentário! Seja bem-vinda.

      Beijo

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  6. Sensacional! é assim, a vida tem seus "buracos" voar por eles o ficar é um tipo de amor!

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