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domingo, 7 de julho de 2013

Esperando a Carta

De vez em quando cartas se perdem; esta deveria ter ido para o fundo do mar. Júlio Cortázar.


            Dizem que quando morreu, deixou uma carta escrita em um caderninho visto ao seu lado. Sumiu pouco tempo depois. Eu não cheguei a tempo. A voz ao telefone era de toalha áspera, seca. “Diga alguma coisa para ela.” A outra voz era de sirene, denunciavam uma boca escancarada de pranto. Não pude dizer nada. Nenhuma carta? Nenhuma explicação? “A culpa é dela, só pode ser dela!”.
            Havia uma carta. Se havia, decidi esperar por sua chegada. Alguém teria a bondade de postá-la nos correios. Todos os dias, por volta das três da tarde, levava uma cadeira de fio próximo à caixa de correspondências. Rivelino já me conhecia pelo nome. “Boa tarde senhora! Como vai?”. Alguma carta Rivelino? “Hoje não.” E lá se ia Rivelino pedalando sua bicicleta amarela. 
            Extratos bancários, contas de telefone, propagandas políticas, convocações para assembleias, jornais, revistas. Era tudo o que chegava. Então lembrei de um livro que havia lido, no qual uma carta chegava dentro de uma garrafa, pelo mar. Desisti dos correios e passei a ir todas as tardes no porto, ao pôr-do-sol, quando as ondas são mansas. Nenhuma garrafa chegava. Ou melhor, nenhuma com a carta dentro. Esperei meses. Depois pensei que poderia ter extraviado no mar e ido parar nas mãos de algum náufrago habitante de uma ilha deserta. Ele leria a carta e não entenderia como alguém tão jovem poderia desistir de viver, enquanto ele, já de barbas brancas, queria mais era viver.
            Mas e se a carta tivesse sido enterrada por este náufrago tal como um tesouro perdido? Voltei para casa e comecei a traçar rotas nos mapas que encontrei guardados no fundo do armário. No mês seguinte comprei uma roupa de pirata e naveguei alguns meses por lugares longínquos, em busca da carta perdida. Conheci arqueólogos. Invejei-os, pois suas escavações lhes davam respostas sobre o elo perdido. Mas a mim não diziam nada. Se pudesse, e se necessário fosse, cavaria a terra com as próprias unhas, até que ficassem em carne viva, se me garantissem que a resposta estaria lá. Em que momento ele decidira partir? Por quê? Ah maldita carta. As respostas estariam nela, certamente. Aos poucos, a boca escancarada de choro foi se acalmando. Mas eu não desisti.
            Ela certamente está enterrada dentro de um baú de palavras, tal qual um tesouro. Que palavras? Ah, se não fossem tão voláteis! Onde posso escavá-las? Onde está a carta? Ela é um tesouro de significantes que se escreveu no seu corpo. Temo saber que já sei onde está. Nego. Todos os dias, novamente, pegarei a cadeira de fio e sentarei às três da tarde perto da caixa de correspondências.



Isloany Machado, em algum dia de 2012.

Um comentário:

  1. Islô! Sempre que leio esse texto lembro de algo que alguém disse em algum lugar que não me lembro: "morreu afogado em palavras que nunca disse". Bj, Lú.

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