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domingo, 28 de julho de 2013

Um ano depois


A você que partiu tão cedo.

Meu querido,

Hoje faz um ano que você partiu, mas a saudade faz parecer mais.

Nós tivemos bastante tempo para descobrir coisas juntos, quando brincávamos no quintal da sua casa durante as férias, lembra? Você nunca foi lindo – a não ser para a sua mãe – , mas eu me orgulhava de você por outras coisas. Fazia uma sopa como ninguém, desde muito cedo. Teve que aprender a cozinhar, já que as mulheres de nossa família nunca foram muito chegadas ao fogão. Você era uma referência culinária para todas nós. Lembro com água na boca daquele porco assado que fez na última vez que nos vimos, estava supimpa. Enchia a boca para dizer “eu tenho um primo que cozinha muito bem”. Esses dias estávamos revirando as fotos antigas e vi você criança. Fotos de aniversário. Lembra dos bolos tortos que nossas mães faziam? Rimos disso.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O melhor roubo da história

* Este conto ganhou o prêmio Ulisses Serra, da Academia Sul-mato-grossense de Letras, edição 2012. Foi isto o que me motivou a publicar o livro Costurando Palavras.
           
Eu não tenho vergonha, nem medo de dizer que fui ladrão. E, antes que alguém me julgue e condene, vou contar minha história. Não pense que delinearei aqui uma triste história de um pobre coitado que teve de roubar para viver, ou para dar leite aos filhos. Nada disso. A verdade é que eu iniciei minha carreira roubando chocolates no supermercado, ainda criança. Com o tempo fui desenvolvendo técnicas e minha mão tornava-se cada dia mais leve. Tinha tantos chocolates, não é possível que sentiriam a falta de unzinho na barriguinha de um menininho.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

O buraco do ar condicionado



Nem sempre a memória nos privilegia com aquilo que realmente aconteceu. De qualquer maneira, confio nos desvãos de uma memória longínqua, que soprou em meus ouvidos esta narração. Estive mastigando esta história durante dias a fio, mas contá-la é difícil. Juntar todas as peças é uma tarefa impossível, pois ao menos uma ficou faltando, extraviada quem sabe no quintal da casa inacabada. Sem delongas, vamos ao que interessa. Trata-se da história de um casal. E, por mais que falar de amor sempre pareça piegas, não é de amor que falarei.

domingo, 7 de julho de 2013

Esperando a Carta

De vez em quando cartas se perdem; esta deveria ter ido para o fundo do mar. Júlio Cortázar.


            Dizem que quando morreu, deixou uma carta escrita em um caderninho visto ao seu lado. Sumiu pouco tempo depois. Eu não cheguei a tempo. A voz ao telefone era de toalha áspera, seca. “Diga alguma coisa para ela.” A outra voz era de sirene, denunciavam uma boca escancarada de pranto. Não pude dizer nada. Nenhuma carta? Nenhuma explicação? “A culpa é dela, só pode ser dela!”.
            Havia uma carta. Se havia, decidi esperar por sua chegada. Alguém teria a bondade de postá-la nos correios. Todos os dias, por volta das três da tarde, levava uma cadeira de fio próximo à caixa de correspondências. Rivelino já me conhecia pelo nome. “Boa tarde senhora! Como vai?”. Alguma carta Rivelino? “Hoje não.” E lá se ia Rivelino pedalando sua bicicleta amarela. 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Porque tudo aquilo que começa, um dia acaba


Só me dei conta de sua presença quando, depois de entrarmos no mesmo ônibus, ele quase caiu com uma freada brusca. Rapidamente peguei de suas mãos as duas sacolas que carregava com dificuldade por causa do peso. Do peso da idade mais que o das sacolas. Depois de passado o susto, ele me olhou agradecidamente e disse que antigamente carregava nas costas um saco de cimento, de um lado um saco de cal e do outro alguma coisa bem pesada também que agora já não consigo mais me lembrar. Agora já não podia nem com dez quilos. Não disse isso em tom de lamentação, mas de nostalgia. Continuou: