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segunda-feira, 10 de junho de 2013

Diálogo entre o personagem de Memórias do Subsolo e o Pequeno Príncipe



- Hei, pequeno príncipe, estamos aqui lado a lado nesta estante e eu não pude deixar de reparar no quanto és cheio de cores e, até certo ponto, otimista. Mas creio que sejas ingênuo demais para as coisas da vida.

- Por que o senhor me parece assim, tão rabugento?

- Sabe garoto, há muitas coisas que você precisa aprender. Se quiser, quando eu tiver tempo, posso lhe dizer algumas coisas.

- Me diga, por que o senhor tem essa cara tão rabugenta?

- Uma das coisas que precisa aprender é que nem todas as perguntas têm respostas.

- Por que é rabugento?

- Ora! – exclama o cara do subsolo – não vês que sofro do fígado?!

- E como é que o senhor quer que eu veja o que lhe passa no fígado?

- Sua vida é mesmo muito restrita né? Como pode morar anos em um planeta do tamanho de uma casa, passar os dias a revolver vulcões, cuidar de uma flor estúpida, acabar com os brotos de baobás d-i-a-r-i-a-m-e-n-t-e? Acha mesmo que a vida é só isso garoto estúpido?

- Não, não acho que a vida seja só isso. Imagino mesmo que a vida seja esconder-se no subsolo e deixar que todas as ervas daninhas cresçam na superfície, não é? Ou quem sabe melhor seja esconder-se de seus medos maltratando a flor que ama? Melhor ainda, talvez a vida seja deixar explodir as lavas de seus vulcões machucando todas as pessoas ao redor?

- Veja garoto, será mesmo que você sempre tem que falar por metáforas? Eu não sou burro, ao menos, não creio que o seja. Não foi você que abandonou o seu lindo planetinha?

- Senhor, não me magoe tanto. Sou uma criança sensível. Eu não abandonei o meu planeta. Eu saí em busca de saber. Eu precisava conhecer outras pessoas. Mas agora, ouvindo seus resmungos, posso entender porque, mesmo cercados de gente, os humanos se sentem tão sozinhos. Melhor mesmo se esconder no subsolo não é?

- Ora garoto, não se meta a querer saber das coisas dos adultos! – exclamou espumando o cara do subsolo.

- O senhor tem razão. Eu acho que poderiam se passar mil anos e eu jamais entenderia as pessoas grandes. Algumas pessoas me cativam, outras nem tanto, mas o senhor é simplesmente repugnante. Quando estava na Terra, aprendi com uma raposa que nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que cativamos e...

O homem do subsolo soltou uma gargalhada tão estrondosa que quase derrubou o pequeno príncipe da estante. Mas não era um riso alegre, era um riso nervoso, beirando a triste.

- Como você é patético garoto, como é ingênuo! Você não sabe que essa velha raposa te enrolou direitinho? Ela estava apaixonada por você e fez com que acreditasse que tinha necessidade dela. Aqui, meu querido, cada um se salva como pode. A liberdade é o maior bem.

- Por isso o senhor vive no subsolo, porque é livre?

- Vejamos: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!”. Mais uma vez o homem do subsolo explodiu em riso nervoso. Não posso crer que acreditaste nessa baboseira toda! Pois, para mim, se alguém diz que vem às quatro da tarde, desde as três eu começarei a fechar a casa. Às quatro trancarei a respiração para que ninguém me ouça. Chegando alguém, sentirei dores viscerais: descobrirei o preço do ódio!

- É por isso que o senhor vive no subsolo?

- Cale a boca, garoto estúpido. Melhor viver aqui do que achar que pode levar uma picada de cobra e viajar mais rápido.

- E por acaso não se viaja ao levar uma picada de cobra venenosa? O senhor é que não sabe de nada.

- Isso, vai! Fuja como sempre faz. Vá embora mais uma vez e me deixe em paz. Eu é que sou corajoso. Viver é preciso e eu vivo.

- O senhor vive no subsolo.

- Que seja! – exclamou o homem do subsolo, segurando toscamente o lado direito da barriga. Pelo menos eu tenho coragem suficiente para continuar vivendo. E quanto a você? Vai virar estrelinha é? Eu morrerei das dores no fígado, morrerei do ódio que me consome, ele será o veneno que me matará aos poucos, mas não se pode dizer que sou covarde como você. Com essa história cheia de mimimi, toda cheia de figurinhas...engana trouxa! O que eu tenho que dizer, digo logo. Morrerei dignamente, enfrentando todas as dores de existir.

- Me deixe só. Preciso morrer um pouco pra ficar longe de você.

- Vá, estrelinha, vá.

De repente o pequeno príncipe caiu no chão e lá ficou, até que no dia seguinte a dona daquela biblioteca particular o recolhesse dali. Na dúvida do local exato em que o colocara, a mulher decidiu encaixá-lo entre Alice no país das maravilhas e Dom Quixote. Uma hora depois o pequeno príncipe saía em uma caravana organizada por Dom Quixote e conversava alegremente com Alice, a nova flor de quem já era cativo desde o primeiro minuto em que a viu. Quanto ao homem do subsolo, depois que o pequeno príncipe deixou vago o lugar ao seu lado, reparou que lá estava Dom Casmurro. E a última coisa que se pode ouvir naquele dia foi a voz do homem do subsolo a perguntar para Dom Casmurro:

- Como vai a senhora Capitu?

 Isloany Machado, 05 de junho de 2013.      

7 comentários:

  1. Caríssima Isloany fiquei simplismente enlevado com seu texto sua criatividade digo isso com pleno de humildade pois não tenho pretenção de fazer análise de tão belas palavras tampouco tenho competência para tal empresa.sou um simples admirador dos fatos bons da vida tentando a todo custo purgar os acontecimentos ruins.desculpe se fui demasiado prolixo não foi intencional.parabéns sou seu admirador.

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    1. Hélio, não se preocupe, não foi prolixo. Qualquer forma de expressão é bem-vinda. Agradeço imensamente por seu comentário.

      Seja bem-vindo ao Costurando Palavras!!!

      Abraços

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  2. kkkkkkkkk... genial... eu ri pra caramba!!

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  3. Também virei admiradora!

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