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segunda-feira, 3 de junho de 2013

As lembranças e as coisas





Uma das lembranças que tenho da infância é uma história que minha mãe contava algumas noites em que eu não conseguia dormir. A história era sobre uma mulher que se chamava Filomena. Mamãe nunca me disse se era verdadeira, se era invenção dela ou se fora contada pra ela também, como aqueles contos que são reproduzidos em muitas e muitas gerações até se tornarem verdades. Vamos à história. A tal mulher morava sozinha havia muitos anos. A casa era habitada pelas lembranças dela. Havia muitas lembranças. As pessoas que haviam morado na casa já tinham ido embora.

Uma filha, a Alice, vivia no país das maravilhas, morava no exterior e trabalhava em uma grande empresa multinacional. Filomena já visitara sua filha Alice algumas vezes no exterior, mas poucas ainda em comparação à grande saudade que sentia da época em que a filha chorava em seu ombro por causa dos desgostos de namorados. A segunda filha, Regina, era sonhadora, mas daquelas que sonha, sonha e as realizações são colocadas em pedestais e se tornam impossíveis de realizar. Regina passava a vida a se queixar de suas desrealizações. À época da história, já não morava mais em casa da mãe, casara-se com um homem bem poderoso e vivia os sonhos dele agora, mas morava não tão longe da mãe como Alice. Mas e o marido de Filomena? Era o que eu perguntava pra minha mãe. Ah, este deixara muitas lembranças.

Todas as noites, Filomena trancava-se num quarto esquecido da casa, era uma espécie de museu. Lá havia não só as lembranças, que não dá pra tocar, mas ficavam as coisas que Filomena cuidadosamente guardara ao longo da vida. Aos 70 anos ela tinha medo de esquecer daquilo que vivera. Na verdade ela sempre teve medo de deixar as coisas irem embora por medo de esquecê-las. Como não podia encaixotar as filhas e nem o marido, decidira guardar todos os objetos que coubessem no quarto. Havia fotografias em preto e branco; cadernos de todos os anos escolares das filhas; frascos de perfumes que ganhara do marido e também todos que dera a ele.

Em algumas noites cuja saudade era apertada, pegava o frasco do primeiro perfume que dera e ele metia no borrifador o nariz cravejado de pontos pretos e arqueado pelos anos. Tentava identificar ali o cheiro das primeiras sensações que tivera ao lado dele. Voltava à memória o frio na barriga que sentia ao esperá-lo para irem ao cinema. Ele chegava exuberando o perfume que ela lhe dera, chamava-se “O Barril”. Ah, também estavam lá todas as bonecas das meninas, umas cujo cabelo já virara sabugo, outras que o olho não fechava mais, outras ainda que perderam as pernas; havia óculos e relógios quebrados; revistas velhas da época em que o guaraná ainda era de rolha.

Pegava uma boneca sem perna e lembrava que fizera papinha para que Alice alimentasse sua “filha” e costurara roupinhas com retalhos de suas costuras. Em duas caixinhas de metal guardava os dentes de leite das filhas. Quando suas mãos quase descarnadas tocavam um dos dentinhos, imediatamente vinha-lhe à memória a cena em que Regina estava com o pivô mole e não a deixava arrancar. Um dia, voando pelo corredor ao ouvir o chamado da mãe para o almoço, tropeçara e fora de boca no chão. O pivô saltara longe.

Nos cantos escoravam-se móveis quebrados, esfarelentos. Cartas, cartões, postais, convites de casamento, memoriais de falecimento, de nascimento, de aniversário de 15 anos, de formatura, habitavam uma caixa grande que tinha cheiro de tempo quando passa voando. Em três grandes malas de couro estavam guardadas roupas da época em que Filomena era jovem, que já não serviam mais; e mais um monte de outras velharias incontáveis estavam naquele lugar. Minha mãe contava que o quarto tinha um cheiro diferente, era o cheiro do bolo de fubá que as meninas gostavam, ou era o cheiro do café que acompanhava o bolo, tudo misturado.

Filomena passava horas da madrugada manuseando os objetos, assim, acreditava tocar as lembranças, puxá-las pelas orelhas. Como eu disse, ela tinha medo de jogar todas aquelas coisas fora e suas lembranças um dia lhe faltarem. Só esquecia o quarto dias e dias com a porta trancada quando estava a família toda reunida, na festa de ano novo. Daí as lembranças pouco importavam, ela podia tocar o barulho que seus netos faziam quando arruaçavam pela casa. Filomena não tinha esse nome à toa, a raiz de seu nome era comum com a da filosofia. Filomena era quase filósofa, ela sabia que há lembranças e há coisas, quando ia ao quartinho fazia o exercício de juntar as duas.

Mas havia algo para o que ela não conseguia fazer a união entre lembrança e coisa, na verdade esse algo era uma espécie de síntese entre as duas. A síntese era a palavra saudade, que Filomena não conseguia tocar. Um dia minha mãe contou que gostava muito de brincar de esconde-esconde com seus irmãos na infância e, sem querer, disse que o lugar preferido era um certo quarto esquecido e proibido da casa de sua avó, onde nunca ninguém a encontrava.
 


Isloany Machado, 31 de maio de 2012.

2 comentários:

  1. Dizem que viver é acumular saudades...
    Belo texto

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