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segunda-feira, 6 de maio de 2013

Mães e filhas


Este ano resolvi me meter com a escrita. Então, no aniversário de cada uma das pessoas que eu mais amo, o presente foi um texto escrito por mim contando um pouco de nossa história. O aniversário da minha mãe está chegando e estou às voltas sem saber o que escrever. Espremi, espremi e nada. Daí pensei que poderia me inspirar olhando pra fora e não pra dentro. Comecei a observar mães e filhos em algumas cenas do meu cotidiano. Um dia vi uma menina de uns oito anos que estava perto de sua mãe no ônibus, a mulher sentada e a filha em pé. A mulher dizia para a menina que desgrudasse dela.


Em outra cena, viajando, estavam mãe e filho, um menino de uns cinco anos. Ele estava sentado no banco da frente e a mulher, no de trás. Em intervalos regulares ele virava pra trás e olhava pra ela e, ao vê-la expressava um sorrisinho de alívio. Ela o havia prendido ao cinto de segurança, com receio que ele caísse. Os olhinhos dele brilhavam ao olhar pra ela. Comparando as duas cenas, pensei que realmente o amor de mãe não é inato, não se trata de instinto materno tal como algumas pessoas teimam em afirmar.

Lembrei de minha mãe e das muitas cenas que carrego comigo. Usarei o verbo no passado porque são lembranças o de que escreverei aqui. Mas como é difícil falar dela! Outro dia estava lendo um livro cujo título é uma pergunta: O que quer uma mulher? Poderia tê-lo lido de orelha a orelha e não encontraria lá nenhuma resposta. Se houvesse resposta, o nome do livro não seria um belo ponto de interrogação. Talvez a resposta seja justamente que, para esta pergunta, não há resposta. E eu fiquei pensando que devo ter carregado este ponto de interrogação vida afora, se é que ainda não o carrego.

Já ouvi muitas mulheres e com suas histórias, muitas amarguras na relação com a mãe e muitos, mas muitos pontos de interrogação implícitos. Eu tenho os olhos e o nariz dela. Alguns outros traços também. Além disso, o meu nome, este com o qual aprendi a fazer piada, foi escolhido por ela. Nossos nomes têm o “i” como elo, justo o “i” que foi escrito errado e ficou sobrando no nome dela. Minha mãe sempre trabalhou muito, era professora primária desde sempre, ou desde que eu me sabia gente. Depois de um tempo, quando eu já tinha mais de seis anos, ela decidiu fazer faculdade, fez História. Lembro da luta diária empreendida por ela para conseguir conciliar trabalho, estudo, casa, filhos, etc. Eu a amava e ao mesmo tempo não podia lidar tranquilamente com a medida de ausência que tinha que suportar.

Um dia me levou pra aula junto com ela e aconteceu uma cena hilária. No intervalo comprou um saquinho de pipoca pra mim. Voltamos pra sala e o professor dela, querendo brincar com a filha de sua aluna, pegou um pouco da minha pipoca sem me pedir. Fiquei furiosa, lancei a pipoca toda no chão e sapateei. Só lembro que o professor ficou sem graça e creio que minha mãe deve ter ficado muitíssimo envergonhada, mas não me recordo da bronca que certamente levei. Hoje penso que esses eram meios que eu encontrava de me vingar pela falta que ela me fazia.

Pela correria da vida, era difícil pra ela me ensinar coisas. Sempre dizia que aprendeu tudo sozinha na vida. Assim percebi que precisaria dar meus pulos para aprender tudo o que era importante pra viver, para tornar-me mulher sem que ela pudesse me dizer passo a passo o savoir-faire. Mas também sei que ela poderia ter sido colada a mim e mesmo assim eu me tornaria mulher à minha maneira. Meu pai sempre foi falastrão, verborrágico. Minha mãe não, era mais calada. Quando fazia alguma coisa errada, meu pai fazia espatifo sempre, já ela, sempre quando se desagradava com minhas artes, bastava um olhar enviesado e eu já entendia tudo. Assim nos entendíamos pelo olhar e aprendi tanto com a filosofia paterna quanto com cada olhar dela, na verdade, em casa, aprendi com seu silêncio.

Ela era uma balzaquiana moderna, fazíamos um belo par Júlia-Helena. Seu artifício de coqueteria era um único batom. Mas aqueles olhos... valiam mais do que qualquer artimanha. Eu passei a vida a procurar aquele batom, comprei muitos, mas não consegui encontrá-lo. Ela gastava palavras na sala de aula em que trabalhava, contava histórias, ensinava português e matemática. Então, pensando e falando inúmeras vezes em tudo o que aprendi e desaprendi com ela, lembrei de algo que foi fundamental para a minha história.

Minha irmã já estava em idade escolar, meu pai trabalhava e eu, que era muito pequena, não tinha com quem ficar. Depois de algumas tentativas frustradas com babás, ela resolveu que me levaria junto pra escola. Eu era tão pequena que não tenho as imagens dessas recordações, então resolvi inventar. Vejo nitidamente minha mãe com uma pilha de livros no braço esquerdo, o mesmo em cujo ombro ficava pendurada a bolsa. No direito ficava uma mochilinha com os meus pertences: alguns brinquedinhos, alguma muda de roupa, fraldas de pano, e não consigo imaginar o que mais. Na ilharga direita era eu que ia dependurada. Na sala de aula eu ficava sob a mesa de lata aberta somente onde deveria ficar sua cadeira de professora. Ela acolchoava o chão e eu passava o tempo todo lá. Devia dormir também em algum momento. De onde estava eu podia vê-la falando e falando. Suas palavras caíam como brisa em meu rosto e eu a olhava incansavelmente. Eu imaginava cada palavra como uma peça de lego que caía sobre mim. Eu pegava uma a uma e construía castelos, monstros, pontes, muitas coisas, fantasias ou fantasmas, enfim. E tudo o que eu construía era para ela, justo pra tentar encontrar a resposta àquela pergunta que sempre carreguei.

Mas ela persistia, a pergunta. Estou certa de que todas estas palavras ou peças de lego foram fundamentais pra mim, mas não me deram respostas. Levei cada construção daquelas comigo. Precisei de muito tempo para recordar que as montagens de lego eram destacáveis peça a peça, não eram definitivas. Durante anos montei e desmontei várias vezes de forma que já não sei mais as imagens originais. O que de mais importante ganhei dela foi esta montanha de peças de lego cuja montagem ou desmontagem é de minha responsabilidade.
Isloany Machado, 18 de junho de 2012.
 
P.S.: Depois de reler o texto me pareceu ter ficado com lacunas de sentido, mas depois resolvi deixá-lo assim mesmo porque me parece que uma relação entre mãe e filha sempre carregará hiatos.

3 comentários:

  1. Isloany, muito, muito obrigada por este texto!
    Ajudou-me a navegar em águas passadas, revivendo momentos de alegrias junto à minha mãe.... doces lembranças.....
    abraço,
    Angela Liborio

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  2. Amei seu texto! Aborda um tema bem instigante e sobre o qual tenho me debruçado: a relação mãe-filha. Além do mais, foi escrito na data em que nasci, ponto de partida da minha relação filha-mãe!

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