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segunda-feira, 13 de maio de 2013

Carta 6 – Sobre certezas, intolerâncias, deuses e guerras




Meu querido,

Estava com muita vontade de te escrever para saber como está. Aqui, de minha parte, estou com imensas saudades. Mas disso você já sabe, não é? Foi do que falamos na última carta. Saudades, amores, amizades, sentimentos humanos inventados para sublimar dores, ódios, perdas, solidões...Há mais sentimentos humanos, muitos mais, por ora são estes os que já conseguimos falar um pouco. Mas sabe Henrique, há uma coisa que foi inventada também, que eu nem sei se posso chamar de sentimento, mas essa coisa se chama intolerância. Vou tentar te explicar isso usando um exemplo.


Por esses dias, o lugar em que eu moro, se chama Estado de Mato Grosso do Sul, decidiu na justiça (pergunte o que é isso à sua mãe) que pessoas do mesmo sexo podem se casar oficialmente. Bem, como você chegou ao mundo há apenas quatro meses, imagino que ainda não saiba dessas coisas de amor entre as pessoas. Vou tentar resumir. Quando nascemos temos um órgão que inicialmente nos identifica como sendo do sexo feminino ou masculino. Logo que sua mãe for trocar sua fralda, olhe para o meio de suas pernas. É seu fazedor de xixi. Você já deve tê-lo visto. O fazedor de xixi das meninas é diferente do seu, mas fica ali também na mesma região do corpo. Além dos fazedores de xixi diferentes, há outras partes internas, por exemplo, as meninas tem um órgão que se chama útero – era sua casinha antes de nascer, lembra? – e outras coisas que diferenciam as pessoas do sexo feminino e do masculino. Mas isso não basta para definir se vamos gostar, ou ainda querer viver juntos, de pessoas do sexo oposto ao nosso ou do mesmo que nós. O que define isso é de outra ordem, algumas pessoas chamam de orientação sexual, eu gosto de pensar que também está no campo da linguagem. Nós não gostamos só e somente só do órgão sexual das pessoas, aliás, gostar exclusivamente de determinado órgão pode até ser um tipo de fetichismo – quando você crescer um pouco mais te explico o que é isso. Nós, que inventamos o amor, a saudade e etc., gostamos das pessoas e não de partes do corpo delas. Assim, se gostamos de pessoas, isso abre outras possibilidades que não ficam restritas a casais de homem-mulher, porque pode haver amor entre homem-homem, mulher-mulher. Parece simples, não é? Mas não, não é. Você vai entender melhor, pois vou voltar ao exemplo que eu ia dar para explicar a você o que é a tal intolerância.

Eu estava em um salão de beleza justamente um dia depois que o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi autorizado. A televisão estava ligada e o telejornal dava a notícia da autorização. Foi quando uma mulher, cliente do salão, começou a fazer chacota do caso: “agora só vai dar biba e sapatão indo na delegacia da mulher fazendo queixa ‘ai, minha mulher me bateu!’”. Disse isso e mais outras coisas que nem me lembro e nem faço questão de lembrar. As pessoas riram e concordaram com o que ela falou, outra ainda afirmou: “agora vão querer exigir os direitos”, e torceu o nariz. Eu fiquei olhando a cena. Às vezes Henrique, me sinto covarde por não dizer o que penso em situações assim. Eu queria ter perguntado o que tanto incomodava aquelas pessoas, que diferença faria na vida delas se dois homens ou duas mulheres se casassem? Por que tanto ódio? E quando na televisão falaram sobre adoção de crianças por casais do mesmo sexo? Melhor nem entrar em detalhes, podemos falar disso melhor outro dia.

“Mas tia, parecia tão simples quando você explicou, porque as mulheres ficaram bravas no salão?”. É o que você deve estar se perguntando. Pois é Henrique, isso não é simples e não acontece somente nesses casos. Quero dizer que não são apenas estas pessoas que sofrem com a intolerância dos outros. Meu querido, há muito mais a dizer. Deixe-me ver por onde eu começo.

Cor da pele/”raça”/etnia. Você sabia que alguém um dia disse que as pessoas que têm a pele branca são melhores que as outras? Sobretudo melhores do que as negras? Esse alguém que disse isso, certamente era poderoso, cheio de dinheiro e dessas coisas que, muitas vezes, infelizmente, definem quem é melhor do que quem. Um dia te explico o que é isso chamado dinheiro. Mas essa pessoa que afirmou ser melhor que os outros por ser branca/ariana, baseou-se em estudos que afirmavam categoricamente serem algumas pessoas melhores do que outras. Vai entender.

Religião. Henrique, você sabia que as pessoas se matam por causa de religião? Agora me diga como vou te explicar o que é religião? Por enquanto só posso te dizer que há muitas no mundo todo e uma mais diferente que a outra, com um conjunto de crenças próprio. Algumas acreditam em um deus, outras em vários, para outras, deus está em todos os lugares e diluído nas coisas da natureza. Ou seja, cada um acredita num deus que seja a melhor imagem e semelhança de si próprio. Muitas pessoas tiram da religião a força para viver, isso não deixa de ser nobre. Sabe por que Henrique? Porque “viver não é fácil”, lembra dessa frase do senhor Guimarães Rosa que te falei outro dia? Cada pessoa tira força para viver de algum lugar. Outro senhor chamado Freud disse que a religião é um dos lenitivos da humanidade. Mas há vários lenitivos usados pela humanidade, alguns são vendidos em farmácias, lá onde sua mãe compra pomada pra evitar suas assaduras. O problema não é haver várias religiões, isso é de menos, o grande problema é que cada uma afirma ser a sua própria religião A verdadeira. Daí começam a brigar pra querer convencer os outros de qual é a verdade: se deus é um, dois, três, vários; se santos existem ou não; se deus é branco, preto, amarelo, com cabeça de elefante, com olho puxado, azul, verde, castanho; se no céu tem mulheres virgens, se é tudo de ouro; se os terrenos celestiais melhores localizados estão com o preço muito alto; e por aí vai. Ou seja, algumas pessoas sofrem intolerância por terem religião, outras por não terem. Percebe como as pessoas estão o tempo todo disputando alguma coisa, brigando por alguma coisa? Cada um briga por sua certeza. A certeza é o gérmen da intolerância. A intolerância é o gérmen da guerra.

“Tia, o que é guerra?”. Meu querido, guerra acontece quando essas disputas diárias e por diversos motivos, muitas vezes estúpidos, tomam grandes proporções. Quando as disputas crescem tanto que não cabem mais no espaço de uma casa, de uma igreja, de uma cidade, de um Estado, de um País, acontece a Guerra. Eu só sei te dizer que muitas e muitas pessoas já morreram por causa disso: judeus, homossexuais, negros, índios, paraguaios, soldados brancos e mais um monte de gente que nem sei se cabe nesse papel. Essas pessoas que eu disse primeiro, os judeus, foram mais de seis milhões de mortos numa guerra estúpida que envolvia disputas de poder e de mais outras coisas. Henrique, coloque uma coisa na sua cabeça: todas as guerras são iniciadas por motivos estúpidos de disputas de poder.

Sabe Henrique, uma coisa que me intriga até hoje é tentar entender como nós seres humanos somos capazes de inventar o amor, a saudade, a amizade, a confiança, a fé, a solidariedade, como somos capazes de nos colocar no lugar do outro quando acontece uma tragédia, quando pessoas morrem, e ao mesmo tempo somos capazes de matar milhões de pessoas para defender que nossa cor de pele é melhor do que a dos outros, que nosso deus é mais verdadeiro que o dos outros, que nossa escolha amorosa, hetero ou homo, é mais legítima que a dos outros. Me intriga tamanha incoerência. Mas sabe, meu querido, somos seres incoerentes desde que habitamos a linguagem, isso não quer dizer que devemos aceitar as intolerâncias, começando pelas nossas próprias. Henrique, duvide sempre das verdades, das certezas, lembre-se que elas são as melhores amigas das intolerâncias e das guerras. Duvide de suas próprias certezas, sempre, por mais que às vezes isso seja doloroso, pois todos precisamos de lenitivos. Faça com que suas certezas sejam construídas no respeito ao outro, mesmo que para isso você tenha que lutar sempre contra você mesmo.

Um beijo. A titia te ama.

Isloany Machado, 08 de abril de 2013.

P.S.: Lembrei de te contar que no dia em que ouvi as pessoas indignadas no salão de beleza com a autorização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, à tarde caiu uma chuva gostosa e depois dela eu olhei pro céu e vi um arco-íris. Pensei que algum deus devia estar feliz com a notícia.

10 comentários:

  1. Hoortencia Alves13 de maio de 2013 10:31

    lindo texto sobre os paradoxos do ser humano, que só muda se passar por um sofrimento. no caso do julgamento dessa mulher, mudaria, se visse o seu filho sendo julgado, sofrendoa dircriminação


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  2. Simplesmente emocionante!!!!! Parabéns pelo dom da palavra. Lúcia Lima

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  3. Isloany,
    Li o seu texto e achei fantástico. A maneira que você expôs sua opinião de uma maneira simples, mas nem por isto menos informativa. Acredito que mais pessoas deveriam pensar desta maneira. Realmente, é triste como as pessoas se importam tanto com algo que nem desrespeitam a elas mesmas.

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    1. Ben, obrigada pelo comentário!

      Grande abraço.

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  4. Lindo Isloany.
    Sim, acho que todos eles gostaram!

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    1. Sim Maria Inês, se todos eles forem bons, todos gostaram!!! ;)

      Já chegou seu livro?

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  5. Isloany, você descreve sobre a intolerância com muita coerência e didática, postei em meu face e espero que muitas pessoas leiam e reflitam, nós temos o dever de pelo menos tentar mudar o pensamento e o comportamento da humanidade, precisamos deixar um mundo melhor para nossas crianças. Um grande abraço.
    Mariângela- Psicóloga clínica-saúde pública.

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    1. Mariângela, obrigada pelo comentário! Também acredito que temos que tentar deixar alguma herança para os que vierem.

      Grande abraço.

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