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segunda-feira, 15 de abril de 2013

O final da história




Esses dias estava lendo um texto pedagógico que falava da importância de se ter disciplina e organização dentro de casa, pois isto auxilia na boa educação para os filhos. Um dos exemplos citados foi: “não deixar livros espalhados pela casa”. Não pretendo fazer aqui uma crítica a qualquer teoria ou método pedagógico, quem sou eu para dizer qualquer coisa do tipo, mas essa história de não poder deixar os livros espalhados pela casa me magoou profundamente. Eu sempre gostei de livros em todos os lugares da casa. Tudo bem, minha mãe me dava broncas sim por causa disso, mas preciso explicar isso melhor.

Meu pai, durante a minha infância, era vendedor, de livros. Era tão bom vendedor, que foi promovido a supervisor de vendas. Como poderia não haver livros por todos os lugares da casa? Além disso, minha mãe era professora e ganhava livros das editoras. Mas em nossa casa não havia um espaço exclusivo para biblioteca. Digamos que ela fosse itinerante, estava em vários lugares. O pai dizia que era muito importante ler. Ele lia e fazia com o livro uma coisa que eu odiava: riscava as palavras separadamente, não a ideia inteira. Quando eu pegava um livro que meu pai já tinha lido, as palavras marcadas ficavam flutuando na minha frente e eu não conseguia apreender o sentido das frases. As palavras criavam pernas e eu as via dançando ciranda.

Minha mãe tentava organizar tudo num lugar só durante o final de semana, mas com a passagem dos dias, depois da quarta-feira, todos estavam fora do lugar. Mãe ficava fula. Ela arrumava e tinha eu, meu pai e minha irmã pra tirar do lugar e não devolver mais. O que podíamos fazer? Os coitados não podiam ficar lá, soterrados uns sob os outros, sem conseguir respirar, sem poder contar suas histórias! Depois que tive a minha casa, separei um canto para os livros, mas não sei o que acontece, eles não param lá assim organizadinhos. Em todos os cômodos há um montinho deles. Desconfio que têm pernas. Naquela época, os livros da minha mãe me interessavam mais que os de meu pai, mas todos eram muito técnicos, não havia muitos de literatura. E, enquanto não podia comprar, meu refúgio era a sala de leitura da escola.

Uma vez por semana, a professora da primeira série nos levava para a sala de leitura. Ainda me lembro quase como se fosse ontem. Havia essa sala na escola na qual passávamos uma mísera hora da semana. As estantes eram cheias de livros infantis e no chão estavam esticados tapetes grandes com várias almofadas para que nos acomodássemos bem. Foi um ano letivo inteiro, mas eu tenho apenas a lembrança de um livro. No primeiro dia, selecionei um que me chamou a atenção, ele tinha capa dura e a imagem estampada nela se mexia. Não sei o nome daquele efeito que se cria quando uma imagem fica sobreposta à outra e alternam-se de acordo com o movimento feito. Enfim, era o livro do Peter Pan.

Era um livro que tinha uma história comprida, com muitas imagens, e eu não consegui terminar num dia só. Precisaria de outros dias para fazê-lo. Então o guardei num lugar específico da estante, do qual me lembraria depois. Mas quem disse que na semana seguinte o livro estava lá? Demorei uns dois meses para reencontrar Peter Pan. Quando reencontrei, não lembrava mais do começo e tive que voltar a leitura. Dessa vez, antes de alcançar a parte que já tinha lido antes, a sirene tocou e eu tive que deixá-lo novamente.

Passei o ano todo e não consegui ir até o final do livro, ora porque ele não estava mais onde eu havia deixado na semana anterior, ora porque eu não lembrava mais onde tinha deixado. Na outra escola em que fui estudar, não tinha a hora da leitura, porque as matérias começaram a ficar mais densas e “essa história de hora de leitura é pra passar tempo”. Obviamente que o mais importante era saber que se escreve jiboia com j, tigela com g, e decorar a tabuada. Muito mais interessante do que viajar pra Terra do Nunca.

Carreguei essa história do Peter Pan pela metade até quando fiquei adulta. Só depois fui descobrir que na Terra do Nunca, as crianças nunca crescem. Descobri assistindo um filme com minhas primas pequenas. Depois ouvi falar numa tal Síndrome de Peter Pan, vejam que agora isso de querer ser criança pra sempre virou síndrome também. Ah, se eu tivesse terminado de ler aquela história antes, quem sabe teria ficado criança pra sempre. Mas o que será que me impedia de lê-lo até o fim? Não sei ainda, mas temo que seja tarde demais. Ouço o corvo de Poe a gritar na minha janela: Nunca mais!

Tarde demais – Terra do Nunca – nunca mais! Mesmo quando já podia comprar meus próprios livros, nunca comprei o do Peter Pan. Acho que todas essas coisas de tempo me assustam, já disse que não sou corajosa como Alice para querer saber do tempo. Talvez Peter Pan também denuncie que habitar a Terra do Nunca não é para qualquer um.

 

Tarde demais

Terra do Nunca

Nunca mais!

 

           

Isloany Machado, 14 de outubro de 2012.

2 comentários:

  1. Ufa! Não é só na minha casa que os livros têm pernas e estão por toda parte! Que alívio esse seu texto me trouxe. Brincadeiras à parte, parabéns pela forma com que costura as palavras e nos fala de coisas tão pertinentes. Lucia Medina

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