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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Carta para meu pai

 
Pai, hoje é dia de São José. Eu nem sabia disso, fiquei sabendo hoje e pensei: será que meu pai se chama José porque nasceu um dia depois do dia do Santo? Depois lamentei as lacunas que temos da história um do outro. Mas entenda que as lacunas não estão somente entre nós dois. Se quer saber, temos lacunas da história de nós mesmos. Uma coisa meio maluca. Você tem nome de santo. O nome do pai de Jesus. Quanta responsabilidade né? Eu não sabia que você tem nome de santo, nem nunca havia relacionado o seu nome ao do pai de Jesus. Até porque pra mim isso não faz diferença nenhuma. Quer saber o que não faz diferença pra mim? Santidades.

            Apesar desta carga de religiosidade que inevitavelmente nos cerca em nossa cultura e em nosso passado familiar, e apesar da santidade implicada em seu nome, você nunca foi santo. Ainda bem, acho que não suportaria um pai assim, que quisesse ser santo diante das filhas. Mas além de santo, você também nunca quis ser herói. Se quis, não conseguiu. Mais uma vez eu digo: ainda bem. E mesmo assim, nem santo nem herói, eu te amo. É por isso que eu te amo. Sabe as lacunas que citei antes? Então, acho que há muito de você que eu não sei e muito de mim que você não sabe. Lembra quando me levava à igreja pra tentar garantir que eu fosse temente a deus e uma pessoa correta? Lembra que queria me fazer acreditar? Em que pai? Você queria que eu acreditasse que há alguma garantia nessa vida. Mas hoje eu sei que você também duvidava. Ainda bem.
Ainda outro dia me surpreendi ao te ouvir dizer: “Se eu pudesse voltar no tempo eu teria dito para minhas filhas que a vida não é só flores. A religião só ensina flores”. A sua intenção é válida, pai. Eu aprendi que a vida não é só flores, mas foi com a própria vida. E olha, pensando bem, acho que esta sua lamentação não tem razão de ser, sabe por quê? Pai, mesmo quando você me levava na igreja – muitas vezes fui a contragosto – eu já sabia que não temos garantia nenhuma nessa vida. Só não entendia ainda direito, mas de uma forma ou de outra eu já sabia. E sabe como foi que eu aprendi? Foi com você. Espero que não esteja admirado, e que esteja feliz em saber que mesmo não engolindo muito bem qualquer crença ou teoria que me queira enfiar goela abaixo que existe plenitude, tenho caráter e procuro ser sempre uma pessoa correta.
 Acredito que sua mãe fosse religiosa, não sei, pois nem a conheci, mas acho que faz sentido pensar que ela te deu o nome do santo. Uma grande responsabilidade para um humano, não é? Apesar de não ter te conhecido em sua juventude, sei que você rompeu com essa responsabilidade. Já pensou nisso? Ou será que não? Será que este nome teve esse peso pra você? Não sei. Acho que na vida, naquela que compartilhamos como pai e filha, naquele tempo em que convivíamos diariamente, você carregou outras tantas coisas que te pesaram sobre os ombros, provavelmente muito mais do que um nome de santo. Tantas cobranças sobre o fato de você ser homem, marido, pai.
 Pai, eu me lembro vagamente de quando você perdeu aquele emprego de ouro e sentenciou: “Nunca mais serei empregado de ninguém!”. Mas eu me lembro perfeitamente dos transtornos familiares causados por isso. Será que você imagina o quanto foi difícil lidar com sua batalha diária por nosso sustento? Não querer se submeter a hierarquias trabalhistas nos lançou de certa forma em um desamparo escancarado e esfregou na nossa cara que as garantias não existem. Isso foi angustiante, tanto para você quanto para mim. Obviamente as garantias não existiam nem quando você tinha o emprego de ouro. Mas você entende o que eu quero dizer? Até certo ponto você conseguiu me fazer acreditar nas flores, mas pai, a melhor lição que você me deu disso tudo foi bancar seu desejo sendo um homem um pouco mais livre das alienações do trabalho, das expectativas que se tem sobre um homem, o macho “garantidor” da espécie.
Quando renunciou a alienação, as relações de hierarquia, o emprego de ouro, você se tornou um anti-herói pra mim. Pode ser que na época eu tenha querido um pai herói, que me desse certeza e garantia, mas não teria adiantado nada, eu teria duvidado. Sabe que, e talvez você se lembre disso, eu sempre gostei de anti-heróis. Sempre gostei daqueles heróis meio tortos, de esquerda, do avesso. Esses dias estava lendo a grande e famosa obra de Cervantes: Dom Quixote de La Mancha, e pensei muito em você. Esse Dom Quixote, você o conhece? Ele deixou tudo e saiu pelo mundo lutando contra as injustiças, mesmo que as pessoas o achassem maluco. Pai, você foi e é corajoso o bastante para lutar contra moinhos de vento acreditando que são gigantes, mesmo que os outros te achem maluco.
Dom Quixote é um anti-herói muito famoso da literatura e todos o amam. Veja como é possível amar heróis ao contrário. Pai, você foi o meu primeiro anti-herói. Você me ensinou a acreditar, não em santidades, mas em lutas quixotescas, em lutas consideradas vãs, causas perdidas. Você me ensinou que às vezes é preciso renunciar e recomeçar. Por falar em santidades, você viu que o Papa renunciou? Ele disse ao mundo que é só um humano. Ele ensinou ao mundo que um pai não precisa ser santo, herói ou todo-poderoso. Aliás, um pai nem deve ser todo-poderoso. E precisou disso tudo para que a humildade fosse valorizada. Que mundo é este em que vivemos pai? Pra mim, “o Papa é pop” e não poupou ninguém. Talvez sem saber o Papa ensinou ao mundo que o pai é um lugar e não uma pessoa de carne e osso. Um pai pode renunciar também. Ele ensinou isso ao mundo e você ensinou pra mim. Deixemos o Papa pra lá. 
Portanto, não se preocupe com as lacunas do passado. Não se preocupe se conseguiu me ensinar ou não que a vida não é só flores, saiba que me ensinou isso e mais um pouco com sua postura anti-heróica, de alguém que não sabia tudo, que não encarnava O cara. Acho que aprendi bem as lições, você sabe disso? Eu sei que você ficou triste quando saí de casa, mas não poderia ser diferente sendo eu filha de quem sou. Eu parti para lutar por minhas próprias causas, também quixotescas talvez, mas eu precisava encontrar o caminho de ser uma anti-heroína. Continuo buscando, sempre. Sou filha de José e Maria, e não acredito em santidades.
Isloany Machado, 19 de março de 2013.
P.S.: Eu ia esquecendo de dizer: Feliz aniversário!!      

6 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. - Muito bom o texto Isloany! De certo modo, identifiquei-me com ele. Ademais, gostei do Blog, parabéns! Seguindo... ;D

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    1. Alex, obrigada pelo comentário!

      Seja bem-vindo.

      Abraços

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  3. Viviane de Moares Soares Popa Di Bernardi19 de julho de 2013 11:14

    Adorei o seu texto Isloany, aliás, sem querer ser puxa-saco, acho super inteligente a sua confecção. Gosto da cadência dos textos, dos temas que você escolhe para tecer suas palavras. Cotidianos, divertidos, reflexivos e muito tocantes. Traz verdades de uma forma suave, que, ao invés de brutalizar, libertam.
    Mas escrevo não só pra te elogiar, quero discordar de algo que você fala. Não sei se isso é polido ou cabível nesse espaço tão fofo que é o seu site...bom, lá vou eu: não acho que a religião só ensina flores, muito pelo contrário, ao menos a católica/cristã é essencialmente subversiva, reorganizadora de uma ordem que se impõe pela opressão, que visava/visa como fim o poder e o ter. Creio (creio talvez seja mesmo a palavra certa, pois sou católica) que ela é limitadora do gozo ao apresentar a cruz como símbolo da salvação. Não é a interdição, a renûncia que nos traz para o campo do desejo? Fazendo corte na carne para nos fazer escapar da "segunda" morte, ainda que a primeira seja iminente? Sei lá... talvez eu tenha falado bobagem, mas é o que eu penso atualmente...não é uma verdade, é um ponto de vista.
    No mais, um abraço e parabéns pela prosa tão poética.
    Seu pai deve ter chorado quando leu.

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    1. Viviane, obrigada pelo comentário. Eu entendo seu ponto de vista e fico feliz que tenha coragem de expor. Na verdade essa frase "a religião só ensina flores" foi dita pelo meu pai. Por um lado eu concordo com ele no sentido da promessa de vida eterna, de um paraíso posterior. De certa forma, um jeito de aliviar as dores de existir, que eu não acredito ser possível. Mas eu concordo com você na questão de barrar o gozo, sem a moral cristã, a psicanálise nem seria possível, eu acho. A culpa é um pivô tanto para uma como para outra. São reflexões, sei lá.

      Um beijo e seja bem-vinda!!!

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    2. Viviane de M.S.P. Di Bernardi23 de julho de 2013 12:07

      Oi Isloany, não tem de que! Eu quis falar de outras coisas sobre a religião que na verdade não consegui expressar. Ainda não sei dizer sem cair no discurso surrado das beatas. Eu tento compreender o que há na fé, na renúncia, no amor de Cristo e das santas:Joana D'arc, Santa Tereza D'Avila, outras. Pessoas que tem fé e que movimentam o mundo material com essa força. Que não perdem a esperança, sorriem e se entregam ao caos, mas não de uma forma destrutiva. Engraçado, acho que elas não buscam a Deus, Deus as busca e não solta mais. Não penso na religião pela culpa, que inclusive é uma palavra que não consigo encaixar em quase nenhuma explicação de nada. Muitas vezes eu até peço "desculpa", muitas vezes mesmo, mas, de fato, não sinto culpa, essa palavra é solta pra mim...sinto uma bruta inadequação, só isso.
      Talvez exista alívio para as dores de existir... você escreve, eu rezo e fico em silêncio, ele faz um esporte radical, ela cria um bebê anunciado há 2 gerações...sei lá. Reflexões.
      Vou pensar sobre o que você falou, isso da culpa ser pivô de ambos; interessante...
      A palavra culpa no senso comum já está tão desgastada, vazia. Vou ter que ir a um bom dicionário antigo, quem sabe de latim ou grego.
      Vou tentando entender...vou experimentando suas palavras nos sentidos descalços da minha mente. Elas aquecem e me fazem lembrar que os sentidos andam.
      Obrigada!
      Excelente semana!
      Viviane

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