Aqui você encontrará textos sobre psicanálise, literatura e meus escritos literários.

Precisa de revisão ortográfica? Venha para a Oficina do Texto: Clique aqui!

Leia aqui o texto que inspirou o nome do Blog!

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Carta 3 - Sobre palavras e seus desvãos





Meu pequeno sobrinho,

Da última vez falamos sobre o encolhe-estica do tempo e de outras coisas. Quando contei ao seu tio sobre o que falamos, ele inventou uma nova palavra sem querer, do “encolhe-estica do tempo” ele entendeu “encolística do tempo”. Assim, entre risos, batizamos com esta nova palavra as variações do tempo. Além de ser uma palavra nova, ela é rebuscada. Como vou te dizer isso? Palavra rebuscada é palavra difícil, que não se usa no dia-a-dia. Ouça: “A Encolística do Tempo”. Não te parece até mais chique? Sabe, as pessoas valorizam muito as palavras difíceis, porque saber palavra é uma forma de poder. Um dia você vai entender isso melhor.

Ah Henrique, isso das palavras é uma coisa tão complicada. Outro dia sua mãe me disse que você já está blablando. Disse “angú”. Quase morri de saudade de você, tão pequeno. Arriscando as primeiras brincadeiras com a voz. Ainda vai levar um tempo pra você formar os sons que as pessoas comecem a entender, a não ser sua mãe, é claro, que já entende tudo que você “fala”. Apesar de ser tão complicado viver entre palavras, não poderíamos sobreviver sem elas. Hoje eu estava lendo um livro de um senhor chamado Saramago (mais parece Salamargo) e achei linda uma parte em que ele diz o seguinte: “juntamos palavras, palavras e palavras, um pronome pessoal, um advérbio, um verbo, um adjetivo, e, por mais que intentemos, por mais que nos esforcemos, sempre acabamos por nos encontrar do lado de fora dos sentimentos que ingenuamente tínhamos querido descrever, como se um sentimento fosse assim como uma paisagem com montanhas ao longe e árvores ao pé”. Na hora que li lembrei de você, que é alguém ainda ingênuo, pois se deita e rola na redinha de palavras da nossa família. Sabe Henrique, as palavras são meio mágicas, não sei se consigo te explicar isso, mas elas nos levam ao céu e ao inferno, se é que eles existem mesmo, falaremos disso em outra carta. Como o Salamargo disse, usamos verbos, advérbios, adjetivos, etc., para tentar dizer tudo, porém não conseguimos. Mas isso das classes de palavras você vai aprender só quando estiver grandão, eu não sei direito até hoje. O mais importante agora é saber que a gente inventa tudo isso pra tentar dar conta daquilo que nos falta. Como te dizer isso?

Todo mundo quando nasce tem um furinho, mas não é o umbigo, é outro. Esse furinho, não podemos achá-lo no corpo, ele fica bem no meinho das palavras que nos cercam, alguns dizem que é na alma. Como dizem os cultos, fica nos desvãos das palavras. Mas aí você poderia me perguntar: “Tia, como o furinho é nosso, se ele está no meinho das palavras?”. Então vou responder dizendo que tudo o que somos, o material de que somos feitos, nossa carne, é de palavras. O que nos faz gente é um montão de palavras. Então, o furinho fica em nós. Bom, mas e depois? Aí é que vem a parte mais engraçada. Henrique, muita gente acha que pode preencher o furinho com coisas, nem sabem que a isso não se preenche. Para alguns ele se torna uma cratera tão gigante que não é mais possível viver, e desistem. É como se fosse uma coisa que perdemos há muito muito tempo e não há possibilidade de acharmos. Daí Saramago disse outra coisa que achei linda e talvez te ajude a entender essa confusão toda: “Diz a sabedoria popular que nunca se pode ter tudo, e não lhe falta razão, o balanço das vidas humanas joga constantemente sobre o ganho e o perdido, o problema está na impossibilidade, igualmente humana, de nos pormos de acordo sobre os méritos relativos do que se deveria perder e do que se deveria ganhar, por isso o mundo está no estado em que o vemos”. Logo logo você vai saber que perder não é muito gostoso, ganhar é muito mais legal. Aprendi esses dias que quanto mais a gente perde, mais ganha. Estranho isso né? Ainda não entendi direito também. Ah, aprendi também que quando a gente entende que esse buraco faz parte de nós e isso não tem remédio, quando descobrimos que não há coisa alguma que possa preenchê-lo, ficamos menos angustiados, aperreados, enfim, ficamos aliviados, pois confirmamos uma suspeita de que aquilo que precisa mudar são as palavras que nos encarnam.

Assim meu amor, é nessa confusão que somos jogados pelas palavras. Habitar palavras é delicioso, mas não se pode ter tudo, como disse Salamargo. Mas não se preocupe, quando você descobrir isso, saberá o que fazer para aproveitar e continuar curtindo a vida. Parabéns pelos três meses. Quero vê-lo em breve. Enquanto isso vá treinando a voz e aproveitando o leitinho da sua mãe.

Um beijo.

Isloany Machado, 14 de março de 2013.

P.S.: A titia te ama.

Um comentário:

  1. Lindo Islô! Vou levar para meus alunos junto com um folder do nosso encontro de sábado... Bjs, até lá!!!

    ResponderExcluir