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sábado, 9 de março de 2013

Carta 2 - Sobre o encolhe-estica do tempo e outras coisas


Meu pequeno sobrinho,

Veja como o tempo passa rápido! Hoje faz dois meses que você nasceu e, claro, tenho que dizer que ainda ontem falei com sua mãe pelo telefone para saber da notícia de sua gestação.

Sabe Henrique, o tempo é uma das coisas mais intrigantes desse mundo. Quando alguém que a gente gosta vai embora, o tempo estica. Quando uma pessoa que a gente ama está para chegar, e mesmo muito antes que ela nasça, o tempo é longo, mas quando ela chega o tempo encolhe, tudo passa muito rápido. Como posso te dizer isso de uma forma mais compreensível? Bem, imagine que você está com muita fome e sua mãe não te dá logo o leite. Não te parece uma eternidade a espera? Mas quando ela chega e você está mamando, não passa rapidinho? Então, é mais ou menos assim.



Você é muito querido, só reclama quando precisa de alguma coisa. Mas sabe Henrique, tem pessoas que são reclamonas desde muito pequenas, assim do seu tamanho. Tem um homem, um escritor chamado Guimarães Rosa que disse: “Viver é muito perigoso”. Quando crescer poderá conhecê-lo. Pensa que quando a gente cresce as coisas parecem menos assustadoras do que quando a gente é pequeno? Na verdade a diferença está numa coisa que a gente aprende a usar e que nos cerca desde muito tempo antes de nascermos. Chama-se linguagem. São esses barulhos estranhos que sua mãe fica fazendo com a boca quando está perto de você.

Está confuso Henrique? Essa coisa chamada linguagem é bem legal, mas é muito confusa mesmo. É mais ou menos assim: quando a gente é bebê, assim como você é agora, a gente sente umas coisas incômodas que ainda não sabe dar nome, mas sua mãe faz isso por você. Como ela sabe? Ah, é que ela também já foi bebê. As coisas não são tão confusas para você ainda, mas daqui a um tempo, vai se saber como um sujeito que tem mãos, pés, boca, nariz, olhos. Daí é que começa a confusão, porque a gente nunca sabe o que é da gente e o que é do outro direito. Por isso que viver é perigoso, como disse aquele autor que te falei antes. Mas depois a linguagem facilita em algumas coisas, você vai ver. Claro que ela dificulta em muitas outras também, mas falaremos disso no seu tempo. Quando a gente não sabe quem é, quando esse saber de mãos, pés, olhos, boca, enfim, corpo, não basta, é a linguagem que permite que a gente invente uma historinha sobre nós mesmos.

Mas Henrique, tudo a seu tempo. Por enquanto, vá comemorando seus meses. E comemore mesmo. Tome um porre de leite, durma o quanto quiser, suje as fraldas sem medo. Ria muito. E aproveite o colo da sua mãe. A sua tia aqui, está longe fisicamente, mas perto em pensamento. Nos intervalos em que ficarmos sem nos ver pessoalmente, a titia pode te lamber com as palavras. Pode ser que isso não seja suficiente, mas essa é uma das coisas que podemos conversar em outra carta, a linguagem nunca será suficiente.

Um beijo.

Isloany Machado, 12 de fevereiro de 2013.

P.S.: A titia te ama.

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