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segunda-feira, 4 de março de 2013

Sala de espera


Dedicado ao meu querido ginecologista


Sempre que vou ao ginecologista levo um livro para ler, pois tenho a impressão de que o tempo passa mais rápido. Às vezes me pego com o livro de cabeça pra baixo. Não devo mentir. Então, vamos lá. Sempre levo um livro para não ter que falar nada. Não é que eu seja metida ou coisa assim. Explico melhor. A sala de espera do meu ginecologista anda sempre lotada: moças, gestantes, idosas, meia-idade, dentre outras figuras. Todas elas falam ao mesmo tempo. Concluí que a sala de espera do ginecologista proporciona alguma catarse para minhas companheiras.

Em um dos dias que esperava, prestei atenção numa mulher de uns quarenta e poucos anos. Ela estava em pé, conversando com a secretária do médico (esta se configura como mais um dos motivos do livro que mantenho na cara o tempo todo). Bem, a mulher dos quarenta e poucos anos conversava com Odete[1], a secretária. Fiquei impressionada no exato momento em que a mulher disse: “[...] Márcio estará trabalhando neste final de semana e não poderemos ir ao casamento de nossa sobrinha [...]”. Nenhum problema com o conteúdo da frase. O que me impressionou foi a intimidade com que a mulher conversava com Odete. Será que ela conhecia Márcio, o marido da tal mulher? Odete resignadamente balançava a cabeça num gesto afirmativo, porém vazio.

Percebi que as outras mulheres também citavam nomes de pessoas enquanto falavam com Odete. E ela? O mesmo balouçar de cabeça. Imaginei Odete frequentando a casa de cada uma das pacientes do médico. Ideia absurda! Claro que não visitava. Às vezes ela ria de algum comentário de alguma mulher, como se fosse velha conhecida. Ela sabia da anatomia de quase todos os maridos ali “presentes”. Fazia sapatinhos de crochê para as gestantes, tricotava cachecóis para as idosas, trocava receitas culinárias com as mulheres de meia idade.

Uma senhora cheirando a talco, num dia em que o médico estava demorando muito a chegar, disse: “Odete, liga pro Doutor, porque Osvaldo deve estar com fome e eu preciso despachá-lo!”. Ao que Odete respondeu: “Imagina! Osvaldo é despachado, já deve ter almoçado por aí”. Neste momento, a senhora olhou pra mim, ali sentada ao seu lado com o livro na cara, e disse: “Ai, como os homens são chatos! São muito dependentes de nós”. Baixei o livro só o suficiente para deixar os olhos descobertos e disse: “É verdade, são mesmo”. Dei um sorrisinho amarelo e ergui o livro, cujo título era Memória de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Marques. Devo ter passado por antipática.

Em um dia que fui a última a ser atendida, um silêncio agudo se fez. Depois de alguns minutos mergulhadas na quietude, afirmei: “Sabe Odete, estou com uma certa ardência”. Odete limitou-se a, cretinamente, responder: “Ê guria! O que andou aprontando?”. Quis matá-la. Nunca mais deixei o doutor chamá-la para auxiliar nos exames. Tudo bem, depois das putas tristes e dos meus eternos silêncios, ela deve ter me julgado mal. Mas achei um jeito de me vingar dela mesmo assim. Releguei-a à ignorância eterna de minhas questões ginecológicas. Quando saio da sala do médico, percebo o olhar desdenhoso que Odete lança sobre mim.

Da última vez que estive lá, ouvi Odete reclamar do salário. Disse que, pelo tanto que escuta, deveria ganhar mais. Ela trabalha ali há trinta anos. Antes mesmo que eu nascesse Odete já estava ali. Ressenti-me por não conseguir falar com ela da minha vida, do marido, do cachorro, da casa nova, dos planos de ter filhos. Me sinto completamente estranha para Odete, acho que ela nem sabe falar meu nome. Queria que ela me dissesse um dia desses: “Ah, nem se preocupe com a viagem do final de semana, eu coloco comida pro seu cachorro. Diga ao Ramos que deixe dinheiro para comprar ração”.

Odete sabe ouvir as pessoas. Pronto, está feito! Da próxima vez não levarei livro nenhum. Vou contar minha vida pra ela. Deixarei que entre na sala do médico durante o exame. E na saída, ao invés do costumeiro e seco “Até mais”, direi a ela: “Odete, te espero amanhã para o café da tarde”.
 
  
Isloany Machado, 05 de fevereiro de 2013.



[1] Todos os nomes são fictícios. Talvez a história também o seja.

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