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segunda-feira, 18 de março de 2013

A galinha no espelho

 
 O homem é um bípede implume. Platão
Apesar de possuírem um olhar que nos soa como vazio, já que parecem olhar para o nada, eu não seria capaz de dizer que uma galinha não tem sentimentos. Ainda que não possua o roça-roça do gato e o lambe-lambe do cão, uma galinha pode bem ser um animal de estimação, como tantas que vemos espalhadas pelos quintais de casas de bairro. Mesmo despertando, sem que precise se esforçar muito, a afeição das crianças, uma galinha sempre pode ser o alvo de uma faca afiada nas mãos de um adulto. Tenho a impressão que uma galinha olha para o nada para disfarçar que olha tudo, medida de proteção e sobrevivência. Uma galinha é um animal doméstico que precisa lutar dia após dia para sobreviver. Foi pensando em tudo isso que Cocota sempre buscou ser uma galinha diferente das outras. O que ela queria era ser vista como outra, como algo além de um pedaço de carne. Cocota se autodenominava galinhista, para se contrapor aos egocentristas – humanos que se acham muito melhores do que os outros animais e não têm o menor respeito pelo direito deles.

Ela morava na casa de uns humanos bastante intelectualizados, que gostavam muito de livros. Em sua busca de igualdade de direitos, Cocota percebeu que precisaria estudar muito para poder argumentar com os humanos, não somente com os donos da casa, mas com outros. Cocota era ambiciosa. Seus dias eram como o de todas as outras galinhas, andava de um lado a outro com seu olhar calculado para o nada. Porém, à noite Cocota visitava a biblioteca dos humanos com a ambição de ser tão eloquente quanto eles.
Nos dias em que os humanos não estavam em casa, ela ensaiava discursos de igualdade com as outras galinhas, que também sabiam dos riscos que corriam, mas estavam mais preocupadas em botar ovos. Cocota gostava tanto de falar que sequer percebia que as outras não estavam interessadas em seus discursos. Lutava por liberdade, igualdade e fraternidade, mas não sabia exatamente o que faria com sua liberdade, nem o que isso significava. Quanto à igualdade e à fraternidade, bem, ela se sentia meio diferente das outras galinhas e não sabia muito bem se queria ser igual a elas. Era tudo muito confuso para Cocota, mas fora assim que aprendera nos livros. Às vezes espremia o pensamento para ver se conseguia entender os objetivos de sua luta, porém o que acabava saindo era um ovo a rolar cloaca afora.
Os donos de Cocota, que eram muito intelectualizados, logo notaram que ela era diferente das outras galinhas. Mesmo que ela tentasse disfarçar, com medo do fio de alguma faca, eles perceberam que ela gostava de comer os ovos das outras galinhas, ao invés do milho e das rações diárias. A dona da casa alforriou Cocota: “Vamos mandar essa galinha pra longe daqui, está destruindo os ovos!”. Eles tinham a política de não matar galinhas, isso iria contra seus princípios éticos, mas as galinhas não sabiam disso e esperavam sempre o dia fatal. Assim foi que Cocota ganhou sua liberdade e ficou eternamente grata àqueles humanos tão complacentes.
Ela saiu de lá com um desejo imenso de lutar pelos direitos das galinhas, estava muito determinada mesmo a ser uma revolucionária. Um dia Cocota, que nunca havia visto sua própria imagem refletida num espelho, ao passar pela vitrine de uma loja demorou alguns instantes para se reconhecer, para saber que era de si que se tratava no vidro a sua frente. Cocota não gostou do que viu, achou que aquelas penas não lhe ficavam bem. Lembrou-se do quanto achava sua dona bonita com aquela pele lisa e amarelada. Dentro de alguns minutos, num esforço e dor sobregalináceos, estava sem nenhum resquício de pena. Voltou a olhar no espelho e achou bem melhor, poderia fazer uma tatuagem na asa, sempre sonhara com isso. Com alguns trapos que encontrou, fez uma espécie de vestido para cobrir suas intimidades. Assim compôs seu visual o mais próximo possível que pode da imagem tão sedutora de sua antiga dona, aquela mesma que lhe dera alforria. Em um esforço sublime de pensamento, Cocota concluiu que aquilo sim era igualdade. Agora era outra, em nada parecida com um pedaço de carne, e poderia lutar pelos direitos de suas irmãs, realizando assim o triângulo “liberdade, igualdade e fraternidade”.
Cocota não sabia bem o porquê, mas não se sentia livre e sempre que pensava nisso acabava botando um ovo e logo esquecia o assunto. O mais importante era que ela se sentia igual, mas não sabia igual a quem. Cocota era ambiciosa e esperta, o bastante para um galinha, é claro, porém não o bastante para se livrar de um humano faminto. Acostumada com a liberdade/igualdade, esqueceu-se de usar seu olhar para o nada/tudo e acabou desenvolvendo um olhar vazio mesmo, um olhar de quem nunca está satisfeito, bem parecido com o dos humanos. Cocota já nem se lembrava ser galinhista, ela só sabia que lutava por alguma coisa que já não sabia o que era. Em um dia qualquer, no qual acabava de sair do salão em que arrumara as unhas, Cocota foi apanhada por um garoto e levada para uma casa feita de lona, bem diferente daquela em que vivera. Quando viu a faca, botou um ovo e ainda teve tempo de pensar: “Viva a Revolução!”.
Cocota não morreu triste. Em seu último lampejo de vida, pode ter a certeza de que todos são livres, iguais e irmãos, sejam humanos ou galinhas. E que a ética de cada um é..., bem, a ética de cada um é de cada um e pronto, foi o que ela concluiu antes de se consolar com o fato de que estava sendo um pedaço de carne bem melhor que os outros, pois mataria a fome de uns humanos cujo olhar parecia o dela quando não era livre, aquele que mirava o nada e ao mesmo tempo tudo como forma de sobreviver. Nos tempos em que estudava na biblioteca dos antigos donos, lera histórias de humanos que matavam outros humanos e nem era para comer. Na época achou isso absurdo, mas depois esqueceu. Antes de morrer pensou ainda que sua carne teria servido para um nobre motivo fraterno. Assim fechava o triângulo pelo qual tanto lutara.
Isloany Machado, 17 de março de 2013.

4 comentários:

  1. Interessante o texto, mostrar ideias de bichos... me lembra o livro A revolução dos bichos. Parabéns (:

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    1. Uma pessoa também disse que lembra o filme "A fuga das galinhas" :)

      Abraço e obrigada pelo comentário!

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  2. muinto bom seu blog

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    1. Obrigada pelo comentário!! Fico feliz que tenha gostado.

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