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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pela primeira vez tiete*


*A história do dia em que conheci Manoel de Barros. Como dizia ele, “só dez por cento é mentira”.
 
 

            Confesso que não queria contar. Mais pelo ridículo da cena do que por causa de qualquer outra coisa. Eu nunca consegui ser tiete de nenhum artista famoso, nem na adolescência, época em que as meninas escolhem seus ídolos e estampam seus rostos em todas as paredes do quarto. Uma vez, aos treze anos até tentei seguir a tietagem de uma amiga que era muito fã de dois grupos musicais e de Leonardo Dicaprio. Minha mãe comprou um discman pra mim e mais os dois cds, decorei todas as músicas, mas, assim que minha amiga mudou de cidade, o discman ficou esquecido num canto. Quanto ao Dicaprio, comprei uma revista cuja capa estampava “Leonardo de A a Z”, no meio vinha um pôster dele, mas sequer colei na parede. Certa vez minha mãe viajou e encontrou no aeroporto um ator global, chegou feliz em casa dizendo que havia conseguido pra mim o autógrafo do ator fulano de tal, que eu nem sabia quem era. Assim foi que nunca tive a capacidade de me emocionar com nenhum artista.


            Descobri que gostava muito de José de Alencar, Machado de Assis, Jostein Gaarder. Mas os dois primeiros já estavam mortos e o segundo, autor de “O mundo de Sofia”, morava na Noruega. Longe demais para uma menina de 15 anos. Contentei-me, portanto, em amar suas obras e colocá-las em minha estante de lata. A primeira vez que li Manoel de Barros foi aos 17. “Livro sobre nada”. Achei legal, bem diferente e confesso que tive um pouco de dificuldade para entender. Depois emprestei pra alguém e nunca mais me devolveram. Dia desses, quase dez anos depois, comprei as obras completas de Manoel de Barros e mais suas Memórias Inventadas. Fiquei maravilhada com todo a desaprendizagem que tive, pois andava angustiada às voltas com a importância do saber, que não me julgava capaz de alcançar.

            É claro que os estudos de psicanálise me fizeram ler Manoel com outro olhar. E que coisa maravilhosa pude encontrar em cada um de seus poemas. Foi mais um autor daqueles que me tornei admiradora. Não sei por que cargas d’água imaginava que ele morasse em algum lugar longínquo no meio do Pantanal. Na verdade sei sim, é porque ele fala de sua infância, toda vivida e inventada lá por aquelas bandas. Coloquei-o na estante junto com meus outros ídolos: Balzac, Flaubert, Drummond, Dostoievski, Marguerite Duras, Lacan, Freud, Aluísio Azevedo, Lispector, Cecília Meireles, Milan Kundera, entre outros que, se não tinham partido ainda, moravam muito longe daqui. Talvez em meu imaginário esses ídolos fossem muito inalcançáveis, pelos motivos que já disse. Para alguns deles até já escrevi cartas, mas nunca pude enviá-las, pois não teria o para onde. Escrevi também uma para Manoel, agradecendo por me ajudar a aliviar as angústias que sinto no contato com a ciência.

            Alguns meses depois, lendo uma reportagem sobre ele, descobri que ele morava aqui na mesma cidade que eu. Não pude acreditar. A primeira coisa que pensei foi em descobrir o endereço e mandar-lhe a cartinha. Descobri seu endereço, mas tive que esperar, pois acabara de fazer uma cirurgia que me causou algumas tantas dores e tive que repousar. Com algumas complicações na tal cirurgia, confesso de leve que tive medo de partir. Depois que o medo passou, na primeira ocasião em que saí de casa (ida ao médico), levei a carta comigo e uma máquina fotográfica. Durante os dias cinzas do repouso, confabulei fazer uma visita a Manoel, conhecê-lo, dizê-lo que o amava e a seu trabalho, mas tentei tirar a ideia da cabeça, posto que ninguém vai à casa dos outros assim sem conhecer. Aliás, que ideia absurda a minha. Mesmo assim levei a máquina fotográfica.

            Fui ao médico e em seguida postei a carta no correio. Mas agora eu sabia o endereço dele e a ideia maluca não me saía da cabeça. Então pensava: “Isso é ridículo, não vê? Quem é que bate na porta de Manoel de Barros e diz ‘oi, eu queria conhecer o poeta?!’?”. Por outro lado pensava: “O que você tem a perder? No máximo receberá um não como resposta! Você pode bem lidar com um não!”. Ah, que ideia ridícula! Ah, que ideia sem jeito! Entrei no ônibus. Quando ia me aproximando do ponto próximo às imediações da casa dele, automaticamente dei o sinal para descer. Desci. Com o mapa impresso na minha memória, segui caminhando. Eu ainda estava meio troncha por causa da cirurgia e tinha que caminhar devagar. Parei, pensei em voltar, mas era tarde demais. Pensei: “It’s now or never!”, sim, é agora ou nunca! Não tenho nada a perder. Esse meu ídolo está vivo, eu preciso vê-lo. Continuei andando com certa dificuldade por causa da dor. Mas a cada passo ia me aproximando dele.

            Cheguei em frente à uma casa que supus ser a dele, o número não estava lá, mas pela sequência da rua, só podia ser ali. Toquei o interfone:

- Oi?!

- Essa casa é número XXX?

- Sim.

- É a casa do poeta? Disse eu com a voz embargada.

-Sim. Quem é?

- Ah, eu mandei uma cartinha pelo correio, eu não ia vir aqui, mas foi mais forte do que eu. Queria conhecê-lo, tirar uma foto, falar um oi...

- Espere aí.

            Fiquei um tempo ali, não sei exatamente quanto, mas durante todo ele uma vinheta repetia-se na minha cabeça: “Manoel de Barros, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!”. Ri do meu ridículo. Em seguida a voz voltou. Eu não estava acreditando no que estava fazendo.

- Como é o seu nome?

- É Isloany.

- Eu vou abrir o portão.         

            Meu coração começou a pular, as mãos tremeram. Entrei, e não conseguia enxergar direito. Avistei uma senhora caminhando lentamente de bengala. Me aproximei devagar e ela me perguntou como era mesmo a história.

- É que eu escrevi uma carta, mas é certo que ainda não chegou porque eu coloquei hoje no correio...

- É, não chegou ainda...

- Eu só queria dizer oi. Você é esposa dele?

-Sim.

- Como é seu nome?

- Stella.

            Ela segurou em meu braço para firmar seus passos e me conduziu até a sala. No caminho me disse que ele estava com muita idade e que não escutava muito bem. Chegamos à sala e ele estava lá sentado tranquilamente em um sofá de tecido estampadinho. Comecei a chorar. Disse oi pra ele e me atrapalhei toda. Fiquei com receio de parecer maluca, mas eu já estava lá mesmo. Eu chorava. Stella dizia: “não precisa chorar”. Eu respondia: “é que eu estou emocionada, muito emocionada”. Compreendi imediatamente as adolescentes que choram e gritam diante se seus ídolos. Logo eu que sempre achei tietagem uma coisa bastante ridícula, estava aos prantos diante dele. Eu só não gritei por respeito à sua idade, mas foi por pouco e tive que conter o grito na garganta. Perguntei se podíamos tirar uma foto e disse que sim. Eu chorava e ele ria de mim. A máquina pifou, acabou a bateria justo na hora da foto. Eu disse, tudo bem, não tem problema, guardarei na memória. Foi a funcionária deles, muito simpática, que lembrou do celular:

- Não dá pra tirar com o celular?

            Santa funcionária! Ele me disse: “Pode sentar aqui do meu lado, pode me abraçar”. Eu só não dei pulos porque estava impossibilitada pela cirurgia. Sentei e tiramos duas fotos. Eu peguei na mão dele e disse que gostava muito do seu trabalho. Ele me fez perguntas e eu me atrapalhei pra responder.

- Você é daqui mesmo?

- Sim, sou daqui. Digo, não, sou de Cuiabá, mas vim pra cá estudar e não voltei mais.

- Eu também sou de Cuiabá - disse ele, como se eu já não soubesse. É professora?

- Não. Sou psicóloga. Estudo Lacan e faço mestrado.

- Mestrado em literatura?

- (...) Sim.

            Toda atrapalhada que estava, fui juntando minhas coisas para ir embora, pois não queria incomodar mais. Dei-lhe um beijo estalado no rosto, abracei sua esposa e me despedi, dizendo novamente que amava seu trabalho. É possível imaginar o estado em que saí de lá, ainda troncha. Foram poucos minutos, mas cada um deles valeu à pena. Fiquei com medo de parecer maluca, tanto para ele, quanto para as pessoas que leem minhas histórias. Mas toda tiete parece meio maluca mesmo. E o que eu tenho a perder? O que precisei me haver depois foi com o tal mestrado em literatura...

Isloany Machado, 04 de agosto de 2012.

6 comentários:

  1. Que lindo! Me lembra a vez em que estive cara a cara com o Augusto Cury, de quem sou muito fã, e simplesmente fiquei na dúvida se era ele ou não... a timidez foi maior e me contive... Algo de que me arrependo profundamente! rsrsrs Abraços!

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  2. Obrigada Stela e Clara pelos comentários!

    Abraços

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  3. Ah... que cena de um filme, que vida de literatura... adorei. Privilégio o seu... inesquecível. Belo relato. Adorei. Beijo

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