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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Eu, a verdade, falo[1]


Dedicado à Santa Histeria, que é mais poderosa que São Recalque.

 A ela que nos obriga a ver com o corpo aquilo que os olhos não querem.

 

Dias atrás estava lendo Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Ainda estou. Não sei se um dia vou poder dizer que acabei de ler. E, aproximadamente, a pouco mais de uma semana, lia a parte que conta sobre o incêndio que acontece no manicômio em que os cegos estão confinados, com sua cegueira branca. Confesso que já estava tendo dificuldades com todas as misérias imagináveis num mundo em que de nada serve ter olhos se não é possível ver. A cada cena descrita, a cada lágrima de cada personagem vagando a esmo na solidão de si mesmo, chegando às raias da inumanidade, da imundície, da exploração, do desespero, por não ser possível ver, minha dificuldade aumentava.


Mas se já estava tendo dificuldades na leitura, fui invadida por um mal-estar depois de ler a cena do incêndio. Devido à cegueira, as pessoas não conseguiam encontrar a saída. Disse para meu marido “Este livro é difícil de ler, me causa mal-estar”. Ao que ele perguntou: “Por que não para de ler então?”. “Não posso.” Afinal, tratava-se de ficção.

Parei um pouco, respirei, andei de um lado a outro. Fui retomando a leitura aos poucos, ao longo do passar dos dias, mas o mal-estar não me deixava. Em pouco tempo, graças ao poder do São Recalque – que nos salva daquilo que não podemos/queremos ver – esqueci a causa do mal-estar, mas ele continuou, deixou meu corpo histericamente fragilizado, com uma incômoda dor epigástrica. Matutei, matutei e concluí “Deve ser a cebola que comi”.

Poucos dias depois, acordo e recebo a notícia do incêndio em Santa Maria. Meus olhos custavam a crer nas imagens exibidas pela mídia. Vi as palavras fugirem de mim, aos tropeços. O que senti foi um soco no estômago, que já não ia lá muito bem durante a semana. A cena descrita pelos repórteres era igual àquela que havia lido em Saramago, apenas com uma diferença: a cegueira daquelas pessoas da vida real que estavam na boate não era branca, era negra. Fechei os olhos, tentei imaginar. Não consegui. Fui pra longe. Lembrei de um trecho do livro em que a personagem da mulher do médico – única que não está cega – diz que em um mundo de cegos, quem tem olhos não é rei, pois enquanto os cegos sentem o horror, o que tem olhos sentem e veem-no. E eu, que nunca aprendi a rezar, só pensava em Santa Maria. Santa Maria, “olhai” por nós.

Me esforcei tentando levar meus dias normalmente, mantendo longe das vistas o horror. Não falava do fogo. Não falava nada. Não queria saber. Queria fechar os olhos e ser transportada para outro lugar, para o lugar exato cravado cinco minutos antes daquilo acontecer. Eu me calei. Ah, mas meu corpo não me deixou calar. O mal-estar causado pelo desconforto epigástrico se transformou em uma cascata de fogo que passou a me consumir por dentro. Quanto mais eu me calava e fechava os olhos à Santa Maria, mais sentia os efeitos do incêndio em meu corpo. O fogo saía pela boca, mas São Recalque me fazia continuar culpando a maldita cebola.

Os dias foram passando e a leitura de Saramago continuava. Agora os cegos e a mulher do médico já estavam fora do manicômio, mas o mundo lá fora parecia ainda reproduzir a loucura da imundície e da indignidade humana. Outra cena veio como soco no estômago: a mulher do médico – única que vê – guia pelas ruas os demais de seu antigo grupo do manicômio, quando avista uma matilha de cães a devorar um homem que acabara de morrer. Ela vomita violentamente diante da cena. Os outros ouvem e perguntam o que foi. Ao que ela responde: “Algo não me caiu bem ao estômago”. São Recalque baixou a guarda e eu falou. Não era a cebola o que me caía mal ao estômago.

O fogo que me consumia, o mal estar gástrico foi minha forma de significar o horror de Santa Maria. Por mais que não quisesse olhar, eu via. Por mais que eu me calasse, minha boca jorrava fogo e fumaça como nunca antes, a ponto de me paralisar. Nós aqui que vemos, não temos como não olhar, ainda que seja para não saber como dizer, ainda que nossos corpos falem. Resignei-me e decidi nomear minha angústia. O fogo arrefeceu, restaram as cinzas. Para aplacar meu mal-estar usei Saramago. Uma espécie de Salamargo. O mesmo que minha avó dizia que era bom para a digestão, pra limpar tudo por dentro.
José Saramago
 
Isloany Machado, 30 de janeiro de 2013.

 



[1] Aforismo de Lacan para dizer que o eu (sujeito inconsciente), fala a verdade do inconsciente, mesmo quando a boca se cala.

8 comentários:

  1. Isloany, muito boa tua reflexão sobre o livro e a relação com o incêndio de Santa Maria e teu mal estar causado pela angústia desta situação.
    Abraço grande
    Isi

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    1. Obrigada Isi, você é sempre muito gentil!!

      Grande abraço

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  2. Olá Isloany, gostei muito do seu escrito... Quando li Ensaio Sobre a Cegueira, senti um mal estar muito grande também. Mas, o bacana foi poder me permitir refletir mais sobre simplesmente "ver" e o "enxergar"...
    Abraço.

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    1. Obrigada pelo comentário Renata! E seja bem-vinda.

      Abraço

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  3. O recalque serve para que o sujeito fuja do desprazer e, no entanto, estamos o tempo todo falando sobre a formação de sintomas, sonhos e emergência de conteúdos que guardem relação com aquilo que foi recalcado,,Isloany adorei isso , ''A ela que nos obriga a ver com o corpo aquilo que os olhos não querem.""mas a histeria porque só mulheres tem esse complexo? abraços...

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    1. Na verdade Sergio, não é que só as mulheres tenham estruturas histéricas, pois se trata de uma estrutura psíquica, homens podem ser histéricos também. Porém é mais comum mulheres terem esta estrutura, que se estabelece a partir das cenas infantis, e todos os mecanismos psíquicos que vão diferenciar a maneira como cada sujeito vai lidar com suas faltas, desejos, sintomas, etc. ;)

      Obrigada pelo comentário!

      Abraços

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  4. Se esse é o primeiro de 2013, mal posso esperar pelos seguintes... beijos, luciana.

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    1. O próximo já está disponível Lú! Beijos!!!

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