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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Convenção Internacional das Traças


No ano de 2050 todas as traças do mundo decidiram fazer uma convenção. A primeira convenção internacional das traças – I CIT – foi realizada na cidade de Paris, na França. Esta cidade foi escolhida por ser historicamente a capital do conhecimento, em que muitos e muitos livros foram impressos. Desta forma, Paris possuía gigantes bibliotecas e lá nesta cidade habitava uma grande parte da população de traças. O motivo da realização de uma convenção devia-se ao fato de que, com a chegada de tantos aparelhos eletrônicos, tablets, notebooks, netbooks e etc, os livros impressos estavam sendo substituídos por e-books.

No ano 2000 havia uma traça velha à frente de seu tempo que profetizava o fim do papel: “Um dia, minhas caras, uma grande praga será instaurada em nossa sociedade e ela acabará com os livros, as revistas, os gibis, e tudo o que for feito de papel terá fim. Seus criadores dirão que é pra preservar o meio ambiente, mas isso será uma desculpa para que possam vender mais e mais sua praga descartável, que prejudica muito mais o meio ambiente do que a produção de papel. Nós traças morreremos de fome se não fizermos nada pra impedir!”. Todos riam da traça velha e diziam que estava louca enquanto se fartavam nas bibliotecas.


É necessário abrir um parêntese para explicar algumas questões sobre as traças. Os humanos acham que as traças são pragas que precisam ser eliminadas porque comem papel. Meus queridos, nós traças somos pequenos insetos que nos alimentamos de palavras, de saber e, se em algum momento o papel vem junto é porque somos tão apaixonados pelo cheiro e o sabor das palavras que ora nos confundimos e acabamos arrancando um pedaço do papel junto.

Pois bem, estávamos no ano 2000, em que as traças tinham fartura de palavras impressas. O tempo passou e as coisas chegaram ao pé em que estavam em 2050. Livros eram raros. Alguns sebos ainda vendiam, mas ninguém queria comprar, pois a única utilidade de um livro velho é de juntar traças, que ficam enlouquecidas para sobreviver. Em 2050 estes serem habitavam as bibliotecas e sebos. Alguns poucos ainda conseguiam morar na casa ou no escritório de pessoas que amavam livros impressos e não abriam mão da delícia que é folhear um livro e sentir seu cheiro.

A ideia da I Convenção Internacional das Traças surgiu da cabeça de uma traça chamada Wendel, que morava no escritório de um advogado gordo que começava a modernizar seu escritório e estava passando todos os processos de papel para o computador. Além disso, colocara um anúncio de doação dos seus códigos para quem quisesse. Ele havia solicitado a seu estagiário de Direito que escaneasse os processos um a um e estes, na medida em que eram escaneados, iam formando uma montanha a ser jogada fora. Wendel estava apavorado com o destino que poderia ter caso o trabalho fosse concluído. Era uma traçona gorda que mal cabia no corpo, pois ele, assim como o advogado, gostava muito das leis e devorava-as uma a uma até lambuzar-se.

Foi Wendel que fez a abertura da Convenção, tinha muitas palavras bonitas a dizer: “Meus caros amigos, meus senhores e minhas senhoras! Estamos aqui reunidos porque precisamos tomar alguma providência quanto ao que está acontecendo no mundo. Os livros estão sendo extintos e, por consequência, nós também seremos!”. As traças puseram-se a falar, havia muita angústia e estavam mesmo precisando desabafar. Uma traça contou que um dia avistou um tablet sobre a mesa de um estudante de filosofia e pensou que poderia devorar as palavras estampadas no cristal do aparelho. Era um texto do Nietzsche e o trecho que leu dizia assim: “O homem é definido como um ser que evolui, como o animal é imaturo por excelência.” A tracinha sentiu vontade de devorar aquela frase e, muito esperta que era, bateu de cara com o cristal. Mais esperta ainda, avistou na lateral um buraquinho e pensou que havia resolvido o problema da seca das traças, mais que depressa entrou no buraco para comer as palavras que obviamente estariam todas ali. Que devastação sentiu ao deparar-se com um amontoado de circuitos eletrônicos. Sentiu vontade de vomitar.

Havia outra, que era fã de Sigmund Freud e estava devorando “O Mal-estar na Cultura” no exato memento em que todos os livros da coleção começaram a ser encaixotados pelo vendedor de uma livraria na Alemanha para serem enviados a uma psicóloga norte-americana. A traça viera junto e há muitos anos já habitava a estante além mar. Ficou desolada ao ver que a tal mulher, um belo dia, trocou sua coleção das obras completas em alemão por um CD-ROM em inglês, no qual poderia fazer buscas mais rapidamente. A coitada estava magrinha. Aliás, as traças habitantes na América do Norte, berço da tecnologia, podiam ser contadas nos dedos durante a convenção, pois lá por aquelas bandas estavam praticamente extintas.

Uma traça brasileira, achando que podia dar um jeitinho pra tudo, sugeriu que se juntassem aos carunchos e fossem se alimentar de outras coisas ao invés de palavras, que fossem comer grãos. Convidou todos os presentes para virem ao Brasil conhecer em específico a região central, especialista em grãos. “Por lá a gente se vira como pode, não estamos mais dando tanto valor às palavras, temos bastante cachaça e soja. As traças fêmeas adoram porque dizem que soja é bom pra regular os hormônios.”

As traças japonesas adoraram a ideia, de devorar grãos e não de vir para o Brasil. Pensaram logo nas plantações de arroz. Seria bem melhor do que comer micro filetes de cobre, que era o que mais tinha nos aparelhos eletrônicos. Se bem que, se fosse necessário, eles comeriam, pois são habitantes de um lugar em que as pessoas se adaptam com muitas facilidades a todo tipo de mudança. Outra traça brasileira presente na convenção indignou-se com a proposta de sua conterrânea. Disse que jamais poderia contentar-se com grãos, pois sentia falta das palavras apimentadas de Aluísio Azevedo, das ora amargas, ora irônicas de Machado de Assis, das palavras doces de José de Alencar, das bucólicas de Manoel de Barros.

 As palavras de Manoel de Barros tinham gosto de infância, de café preto com bolo de milho, de rio. Como poderia viver sem elas? Uma traça inglesa começou a chorar com o depoimento da brasileira porque se lembrou do quanto era doce o sabor das palavras de Shakespeare. Uma traça francesa, com um enorme cachimbo na boca, deu um muxoxo e comentou com o amigo que estava ao lado: “São mesmo muito sentimentais, o que me fará falta mesmo será aquela coleção de livros do Balzac, com todo o sabor amargo das críticas contidas em suas palavras”.

A convenção virou uma tagarelice em que todos falavam e lamentavam-se ao mesmo tempo. Wendel, que abrira o encontro, tomou a palavra: “Senhores, precisamos de soluções!”. Ele era muito prático. Mas foi da boca da tracinha amante de Freud que surgiu uma boníssima ideia. Ela tinha lido em alguma das obras o seguinte: “Ao longo das últimas gerações, os homens fizeram progressos extraordinários nas ciências naturais e nas suas aplicações técnicas, consolidando o domínio sobre a natureza de uma maneira impensável no passado. Os seres humanos acreditam ter percebido que essa recém-adquirida disposição sobre o espaço e o tempo, não eleva o grau de satisfação prazerosa que esperam da vida.”

A traça imediatamente pensou que, se os seres humanos nunca se dão por satisfeitos, nada poderia pará-los. Tomou a palavra e esclareceu a questão para as traças, que só queriam continuar a se alimentar com as deliciosas palavras. Estas não puderam conter um “oooohhhh!!!” generalizado diante daquela descoberta fantástica que fizera a tracinha. Ela sugeriu então que eles se separassem dos humanos, que ficassem independentes e produzissem o próprio alimento.

Imediatamente uma traça metida a poeta exclamou: “Um acordo ortográfico pode tirar a trema da tranquilidade, mas pode ser que eu ainda trema diante das intraquilidades da minha vida.” Outra começou a recitar versos de muitos autores, outra a inventar histórias e decidiram em assembleia que iriam elas mesmas recriar as grandes obras e refazer as versões impressas. Criariam associações em que teriam toda a aparelhagem necessária para fabricar livros em papel. Todas puseram-se, cada uma em seu lugar de origem, a trabalhar. Algumas ficaram responsáveis por cuidar do acervo, outras pela fabricação do papel, outras ainda pela impressão e as melhores de memória foram ditando as palavras para outras que eram boas em digitação.

Em 2060 os humanos haviam eliminado todos os livros que ainda existiam, mas cada país já tinha sua própria gráfica traciana e trinta por cento das maiores obras da história da literatura haviam sido recontadas pelas traças. Obras originais foram surgindo também e notaram que não precisavam dos humanos, sujeitos sempre insatisfeitos. Estes, pelo contrário, quando seus tablets davam curto, recorriam às bibliotecas tracianas.

Isloany Machado, 01 de junho de 2012.

                  

6 comentários:

  1. Há muito bacana Isloany....adorei parabéns pelo seu trabalho....

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  2. Muito interessante o texto! É realmente algo preocupante para os amantes dos livros, assim como eu. Criativo e leve, parabéns! E obrigada por proporcionar uma leitura tão agradável!

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  3. Bombou amiga!!! Estou usando seus textos para reflexão na sala de aula, além disso, torno muito mais leves as 4 horas que passo com eles. Todos amam!!!

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    1. Lu, que bom saber disso! Fico muito feliz e agradecida por divulgar meu trabalho!!! =D

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