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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Pela primeira vez tiete*


*A história do dia em que conheci Manoel de Barros. Como dizia ele, “só dez por cento é mentira”.
 
 

            Confesso que não queria contar. Mais pelo ridículo da cena do que por causa de qualquer outra coisa. Eu nunca consegui ser tiete de nenhum artista famoso, nem na adolescência, época em que as meninas escolhem seus ídolos e estampam seus rostos em todas as paredes do quarto. Uma vez, aos treze anos até tentei seguir a tietagem de uma amiga que era muito fã de dois grupos musicais e de Leonardo Dicaprio. Minha mãe comprou um discman pra mim e mais os dois cds, decorei todas as músicas, mas, assim que minha amiga mudou de cidade, o discman ficou esquecido num canto. Quanto ao Dicaprio, comprei uma revista cuja capa estampava “Leonardo de A a Z”, no meio vinha um pôster dele, mas sequer colei na parede. Certa vez minha mãe viajou e encontrou no aeroporto um ator global, chegou feliz em casa dizendo que havia conseguido pra mim o autógrafo do ator fulano de tal, que eu nem sabia quem era. Assim foi que nunca tive a capacidade de me emocionar com nenhum artista.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

A Convenção Internacional das Traças


No ano de 2050 todas as traças do mundo decidiram fazer uma convenção. A primeira convenção internacional das traças – I CIT – foi realizada na cidade de Paris, na França. Esta cidade foi escolhida por ser historicamente a capital do conhecimento, em que muitos e muitos livros foram impressos. Desta forma, Paris possuía gigantes bibliotecas e lá nesta cidade habitava uma grande parte da população de traças. O motivo da realização de uma convenção devia-se ao fato de que, com a chegada de tantos aparelhos eletrônicos, tablets, notebooks, netbooks e etc, os livros impressos estavam sendo substituídos por e-books.

No ano 2000 havia uma traça velha à frente de seu tempo que profetizava o fim do papel: “Um dia, minhas caras, uma grande praga será instaurada em nossa sociedade e ela acabará com os livros, as revistas, os gibis, e tudo o que for feito de papel terá fim. Seus criadores dirão que é pra preservar o meio ambiente, mas isso será uma desculpa para que possam vender mais e mais sua praga descartável, que prejudica muito mais o meio ambiente do que a produção de papel. Nós traças morreremos de fome se não fizermos nada pra impedir!”. Todos riam da traça velha e diziam que estava louca enquanto se fartavam nas bibliotecas.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Corrida com o tempo


 

Para Leandro Laureti

Estive pensando sobre o tempo.

Pedi a ele que quando passasse, que viesse enfeitado, cheio de luzes, para que eu pudesse olhar minuciosamente, segundo a segundo.

Olhei para a cadeira ao lado e vi uma moça com os olhos distraídos, querendo que o tempo passasse logo. Estava apressada.

Um dia desejei que passasse rápido, num tempo longínquo em que passava o tempo brincando de verbo de ligação. Mas meu desejo foi curto. Em pouco tempo voltei a querer vê-lo de perto.

O peito estava agora atravessado com grande expectativa. Com medo que ele passasse rápido e eu sequer tivesse tempo de vê-lo passar.

Lá vinha o tempo a galope.  Sim, ele passaria rápido! Tentei manter os olhos muito abertos, não piscava, pois sabia que se trataria de um flash.  No minuto mesmo em que ele passou por mim, agarrei-o pelas orelhas e subi em seu lombo. O coração parecia ter se dividido em pequenos fragmentos e pulsava nas extremidades do corpo. 

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Eu, a verdade, falo[1]


Dedicado à Santa Histeria, que é mais poderosa que São Recalque.

 A ela que nos obriga a ver com o corpo aquilo que os olhos não querem.

 

Dias atrás estava lendo Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. Ainda estou. Não sei se um dia vou poder dizer que acabei de ler. E, aproximadamente, a pouco mais de uma semana, lia a parte que conta sobre o incêndio que acontece no manicômio em que os cegos estão confinados, com sua cegueira branca. Confesso que já estava tendo dificuldades com todas as misérias imagináveis num mundo em que de nada serve ter olhos se não é possível ver. A cada cena descrita, a cada lágrima de cada personagem vagando a esmo na solidão de si mesmo, chegando às raias da inumanidade, da imundície, da exploração, do desespero, por não ser possível ver, minha dificuldade aumentava.