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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Entrevista concedida ao CRP/MS



COSTURANDO PALAVRAS

Entrevista concedida ao CRP/MS – publicada na Edição III - 2012

Costuradora de palavras por opção. Essa é a definição que a psicóloga Isloany Machado faz de si mesma no perfil de seu blog. Não por acaso, o blog em questão foi batizado de “Costurando Palavras” (www.costurandopalavras.com.br), e nele, Isloany compartilha com os internautas questões relacionadas ao cotidiano sob uma perspectiva diferente, que ela costuma chamar “do avesso”. Segundo a psicóloga, os textos são contos, ficções curtas e cartas “abertas” à pessoas que considera importantes, e que fizeram diferença em sua trajetória, como o poeta da terra, Manoel de Barros.

Além disso, a atividade como psicóloga, conforme Isloany, a ajuda na escrita. “Acho que de tanto ouvir histórias e também de tanto falar das minhas (em análise), de ver as histórias sendo reescritas, recontadas várias e várias vezes, e a cada vez diferente, eu percebi que podia sair por aí inventando também outros contos”, revela.

CRP14- Como surgiu a ideia de criar o blog?

Isloany - Eu sempre gostei de escrever, mas nunca havia me arriscado a textos que não fossem sobre teoria, artigos ou outros trabalhos de graduação e pós-graduação. No início deste ano tive uma perda familiar e nos dias em que isso ocorreu, estava lendo um livro de Clarice Lispector chamado “Água Viva”. Algumas partes me chamaram muita atenção e, a partir disso, tive a ideia de escrever um texto sobre a perda sofrida em conexão com este livro, foi uma forma de aliviar a dor. Depois disso, comecei a ter outras ideias e então, meu esposo me disse: “Por que você não cria um blog?”. Inicialmente eu achei a ideia estranha, pois existem muitos e muitos blogs. Também fiquei com receio de não ter ideias suficientes para escrever mais, mas não foi isso o que aconteceu, pelo contrário, tem me impulsionado a escrever mais e mais. Comecei a gostar cada dia mais de escrever e os textos foram se avolumando, assim, de um grito de dor, a escrita tornou-se um novo amor.

 

CRP14 Que objetivo você pretendia alcançar como blog? Tinha em mente atingir um determinado tipo de leitor?

Isloany - O objetivo inicial era de escrever textos que tivessem conexão com a psicanálise, acho que poderia ser uma forma de falar mais levemente de conceitos que às vezes parecem muito difíceis, e assim divulgar a psicanálise lacaniana fugindo um pouco da escrita científica. Na verdade, era escrever para reinventar algumas coisas. Como os textos sempre tinham alguma pitada de psicanálise, o público que imaginei atingir foi de psicólogos e psicanalistas. Mas como a internet é um fenômeno pra mim ainda inexplicável em termos de expansão de informações, alguns textos acabaram sendo lidos por pessoas de outras áreas que vinham me dizer que gostavam de ler mesmo quando tratavam de coisas específicas de psicanálise. Muitas ideias começaram a brotar e comecei a escrever outros tipos de texto.

 

CRP14 - Como você definiria o tipo de texto que publica, são crônicas, contos...?

Isloany - Eu também me fiz esta mesma pergunta. Daí fui estudar teoria literária e descobri que alguns são crônicas (a maioria), pois tratam de questões do cotidiano sob outro olhar, que eu costumo chamar “do avesso”. Outros são contos, ficções curtas, que pudessem ser adequadas a um blog. Também escrevo cartas “abertas” a figuras que considero importantes, isso é uma maneira que encontrei de homenagear pessoas que fizeram diferença na minha trajetória.

 

CRP14 - Onde você busca inspiração para escrever os textos?

Isloany - Acho que uma das coisas fundamentais que sempre me deram inspiração é a leitura, que faz expandir as ideias, aumenta nossa capacidade de “viajar” por outras possibilidades. Tenho lido desde livros até bula de remédio. A outra coisa é a percepção de que toda história é inventada, então, posso escrever e reescrever do jeito que eu quiser, tanto as histórias dos outros quanto as minhas. Como dizia Manoel de Barros, “tudo o que não invento é falso”. Há também uma forcinha do inconsciente...tem dias que acordo com uma ideia depois de ter sonhado alguma coisa. Levanto, saio correndo, lavo os olhos e vou escrever.

 

CRP14 - De que forma a formação em Psicologia contribui nesse trabalho?

Isloany - A formação em Psicologia e, principalmente em Psicanálise que faço participando das atividades do Ágora Instituto Lacaniano e pelo Fórum do Campo Lacaniano de MS, me ajudaram a estabelecer um modo de estar no mundo. Isso quer dizer que a teoria psicanalítica não é apenas uma ferramenta que utilizo para trabalhar em meu consultório durante o horário de expediente e ponto. É mais do que isso, creio que seja uma forma de olhar o mundo, pelo avesso. O conceito fundamental da psicanálise é o inconsciente, que seria aquilo que está nos intervalos da razão cartesiana, pertence a uma outra lógica, tanto é que Lacan subverte o cogito cartesiano “penso, logo sou” por “penso onde não sou”, ou seja, é lá onde não pensamos, onde a razão resvala, que está o sujeito do inconsciente. Assim, deixando falar esse sujeito do inconsciente é que surgem besteiras literárias interessantes, a partir deste olhar o mundo pelo avesso da lógica cartesiana. Tem uma célebre frase de Clarice Lispector em que ela diz querer verdades inventadas, e eu acho lindo isso, e acredito que tem tudo a ver com o conceito de realidade psíquica descrito por Freud. Nós seres de linguagem, somos todos criadores de histórias, as palavras nos permitem isso, criar. E se nós criamos nossas próprias histórias, podemos também recriá-las, reescrevê-las. Não é isso um processo analítico/terapêutico? Cito mais uma vez Manoel de Barros: “escrever, escrever, escrever, até ficar diferente”.

 

CRP14 - E a atividade da escrita, também ajuda em seu trabalho como psicóloga?

Isloany - Acho que é o contrário, a atividade como psicóloga me ajuda na escrita. Acho que de tanto ouvir histórias e também de tanto falar das minhas (em análise), de ver as histórias sendo reescritas, recontadas várias e várias vezes, e a cada vez diferente, eu percebi que podia sair por aí inventando também outros contos.

Mas a atividade da escrita tem me ajudado sim em outra coisa: no curso de mestrado. Escrever ficção ajuda a “soltar” as palavras para a escrita científica.

 

CRP14 - Tradicionalmente, as pessoas não costumam associar a Psicologia com a Literatura. Você acredita que essa sua iniciativa é também uma forma de fazer a diferença dentro da profissão?

Isloany - Um dia uma amiga me perguntou por que eu achava que havia tantas conexões possíveis entre a psicanálise e a literatura. Respondi a ela o que penso: ambas, psicanálise e literatura falam das paixões humanas, ódio, desejos, sofrimento, entre outras coisas. Por isso é possível fazer tantas conexões. É claro que a psicologia, ou a psicanálise, são teorias que propõem métodos e técnicas de intervenção, há uma clínica, trata-se de ciência, mas é a ciência do avesso. E Freud recorreu muito à literatura para construir sua teoria. Ele citou poetas em seus escritos, utilizou a história de Édipo para teorizar sobre o famoso complexo que leva o nome deste personagem, escreveu sobre um livro do Schreber para falar de psicose. Freud ganhou um prêmio de literatura. Lacan falou de Hamlet, personagem de Shakespeare, falou também sobre o escritor James Joyce, dentre outros. Assim, a psicanálise influenciou muito também a literatura, principalmente da modernista em diante. Então acho que esta associação não somente é possível como é bastante utilizada.

E eu? Eu não fico dividida entre psicanálise e literatura, elas não são ciumentas, eu fico acrescentada por ambas, assim como meu trabalho. Escrevo em prol da psicanálise, da literatura, e de mim mesma, já que isso tem me ajudado muito a contornar aquilo que é incontornável. Se isso fizer diferença dentro da profissão, ficarei bem feliz.

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